* Por Jacyr Costa Filho
O empenho das montadoras pela redução do impacto ambiental na produção e uso de automóveis tem pela frente importantes desafios, como as diferenças existentes entre os países em relação às fontes geradoras de energia e o poder aquisitivo da população. Também deve ser observada a capacidade dos governos em estimular os investimentos necessários.
Em reportagem publicada no final de junho deste ano, a Reuters realizou importante trabalho mostrando quanto tempo leva para um carro elétrico ser “mais limpo” do que um similar a gasolina. A matéria usou como base de dados o Greenhouse Gases, Regulated Emissions and Energy Use in Technologies (Greet, na sigla em inglês), modelo desenvolvido pelo renomado Laboratório Nacional de Argonne, controlado pelo Departamento de Energia dos Estados Unidos e operado pela Universidade de Chicago.
O estudo trouxe uma grande surpresa: ao analisar as emissões ao longo de todo o ciclo de vida dos veículos, carros elétricos ainda geram mais carbono do que os movidos a gasolina.
O trabalho mostrou que a produção de um sedã elétrico de médio porte gera 47 gramas de CO2 por milha (1,6 quilômetro) rodada durante o processo de extração e processamento de materiais para a produção das baterias. Ou seja, mais de 8,1 milhões de gramas emitidas, antes mesmo de chegar ao primeiro motorista. Um veículo semelhante rodando com combustível fóssil gera em média 32 gramas por 1,6 quilômetros, algo em torno de 5,5 milhões de gramas.
A Reuters também inseriu diversas variáveis nas comparações entre os 100% elétricos a bateria e os carros a combustão. Isso para demonstrar a grande lacuna de carbono entre os dois tipos de propulsão, quando um carro é vendido pela primeira vez e em que momento se dá o ponto de equilíbrio para os elétricos durante seu ciclo de vida.
Em uma destas variáveis, comparou um elétrico da Tesla, equipado com bateria de 54 quilowatts-hora (kWh) e componentes feitos de níquel, cobalto e alumínio, entre outros materiais, com um Toyota Corolla a gasolina, pesando 1.340 quilos, com uma eficiência de combustível de 14 quilômetros por litro. Na simulação, os veículos viajaram mais de 278 mil quilômetros durante suas vidas.

Se o Tesla estivesse sendo dirigido na Noruega, que gera quase toda sua eletricidade a partir de fontes renováveis, o ponto de equilíbrio viria depois de mais de 13 mil quilômetros percorridos. Se a eletricidade para recarregar o elétrico viesse inteiramente do carvão, que gera a maior parte da energia em países como China e Polônia, seria preciso pilotar mais de 126 mil quilômetros para atingir a paridade de carbono com o Corolla.
O modelo Greet, adotado nesta experiência da Reuters, é também usado pela Agência de Proteção Ambiental Americana (EPA, na sigla em inglês) e pelo Conselho de Recursos para a Qualidade do Ar da Califórnia (Carb) para moldar a política das duas instituições sobre emissões de gases de efeito estufa, ou GEEs, nos Estados Unidos.
Especialistas apontam que a descarbonização é inevitável e ocorrerá, no médio prazo. Caberá aos países encontrarem a melhor forma de resolver esta equação. No caso do Brasil, o assunto já está bem encaminhado e terá o etanol como protagonista. Com uma ampla estrutura de produção e distribuição já consolidadas no país, o biocombustível oferece um leque de oportunidades.
Atualmente, um carro flex brasileiro movido a etanol emite menos GEEs do que um veículo 100% elétrico europeu. Se considerarmos um carro híbrido com motor flex, já produzido no Brasil pela Toyota, o ganho ambiental é ainda maior. A Volkswagen, que vê os biocombustíveis como solução para descarbonização na América Latina, já anunciou um novo centro de pesquisas para esta finalidade no Brasil.
Escolhido pela ONU como “um dos líderes em transição energética mundial” por ter uma das matrizes energéticas mais sustentáveis do planeta, o Brasil, com o etanol, apresenta todas as credenciais para ser uma referência na descarbonização veicular nos países em desenvolvimento.
* Jacyr Costa Filho é presidente do Conselho Superior do Agronegócio (Cosag), da Fiesp, e sócio da Consultoria Agroadvice
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