As bases de discussão sobre o papel do etanol na matriz energética mudaram. Nesta quarta-feira (8) o novo ministro do Ministério de Minas e Energia (MME), Eduardo Braga, foi ao Senado Federal e apresentou de forma franca uma nova postura em relação ao etanol e ao futuro do mercado de combustíveis no Brasil.
Depois de ignorar durante anos a perspectiva de descompasso entre oferta e demanda de etanol e gasolina, o governo reconheceu— e ressaltou — o tamanho do problema.
Eduardo Braga apresentou um gráfico sem sutileza, resumindo a situação. Em vermelho vivo ele evidenciou o que o governo chamou de “Desafio do ciclo Otto” (veja gráfico abaixo). Na projeção do MME, o Brasil não terá condições de atender a demanda por etanol ou gasolina com combustível nacional e, até 2023, o problema crescerá de forma expressiva e preocupante.
É a primeira vez que o governo reconhece publicamente a existência de um buraco na oferta que, neste momento, só poderá ser resolvido com a importação de gasolina. Agora uma visão mais realista deve guiar as discussões sobre o futuro do etanol na matriz energética.
Slide apresentado pelo ministro Eduardo Braga em encontro com senadores:
Durante anos a referência para o governo no que se refere ao futuro do mercado de combustíveis no Brasil eram as irrealistas previsões da Empresa de Pesquisa Energética (EPE). As projeções demasiadamente otimistas da EPE foram sempre criticadas intensamente pelo mercado, pois não havia qualquer perspectiva de retomada nos investimentos, nem de mudanças na postura do governo em relação ao etanol.
O assunto agora deixou de ser uma situação potencial levantada pelos usineiros, para ser um problema reconhecido. A tendência é que a ação do MME desencadeie uma série de discussões e estudos sobre o tema.
Como o etanol aparece como a alternativa mais factível, o setor sucroenergético é o que mais pode se beneficiar do debate.
Interessante notar que a falta de oferta interna de combustíveis para atender a demanda crescente não é assunto novo. Desde que as usinas começaram a fechar e os investimentos em novas unidades desapareceram, as dúvidas de como o Brasil equacionaria o desequilíbrio entre oferta e demanda interna já eram discutidas. No entanto, o tema nunca encontrava o respaldo necessário dentro do governo.
Interessante notar que a falta de oferta interna de combustíveis para atender a demanda crescente não é assunto novo
Esta nova posição do ministério ganha ainda mais relevância pois foi há apenas quatro meses que o MME aprovou o Plano Decenal de Expansão de Energia 2023 (PDE 2023). No plano previa-se que a oferta brasileira de etanol cresceria significativamente até alcançar 48 bilhões de litros em 2023. Já agora, ficou evidente para o MME que a oferta de etanol não terá condições de ser superior a 30 bilhões de litros em 2023.
Como o parque nacional de refino de gasolina não produzirá mais que 29 bilhões de litros neste período, uma vez que a capacidade nova da petrolífera é voltada exclusivamente para a produção de diesel, o déficit da oferta interna alcançará 26 bilhões de litros.
O que mudou nestes quatro meses? Para os slides do ministro serem tão diretos, o clima interno no governo relacionado ao etanol está mais favorável. Este novo ambiente deve carregar relação com a situação atual da Petrobras. A maior empresa de energia do Brasil passa pela maior crise de sua história e está fragilizada. O momento atual contrasta com o período após a descoberta do pré-sal, quando os biocombustíveis, na visão de muitos analistas, deixaram de ser prioridade no governo.
Nas contas feitas pelo novaCana, se todo o volume for suprido com gasolina importada, considerando a cotação média dos últimos 12 meses, o Brasil gastará, apenas em 2023, US$ 17,2 bilhões.
Entre 2015 e 2023 seriam importados 131 bilhões de litros de gasolina, afetando negativamente a balança comercial em US$ 86,6 bilhões. Considerando a cotação média do dólar os últimos 12 meses (R$ 2,50), os gastos do Brasil com a importação de gasolina nestes nove anos equivaleriam a R$ 216,6 bilhões.


Na visão do MME o etanol hidratado ainda teria uma perda significativa de competitividade. Em 2015 estimou-se que o hidratado atingirá consumo recorde, 17 bilhões de litros, para então perder espaço e chegar em 2023 com vendas de apenas 10 bilhões de litros.
O espaço seria todo ocupado pela gasolina C (Gasolina A + anidro). Esta projeção coloca o consumo de anidro em 2015 em 12 bilhões de litros, alcançando 20 bilhões de litros em 2023. Nota-se que a mistura de anidro na gasolina com a qual o MME trabalha durante todo o período é de 27%.
Esta projeção do MME é oposta a apresentada pela EPE no PDE 2023, que projeta crescimento expressivo das vendas de hidratado e aumento marginal no consumo de anidro.
Como é de praxe, o governo elencou as principais iniciativas dos últimos anos em favor do setor de etanol. Foram apresentadas dez principais ações desde 2011 (veja lista ao lado).
Além disso Eduardo Braga apresentou aqueles que considera os maiores desafios do setor. Os itens indicam as áreas chaves que sensibilizaram o governo e mostram como o MME espera resolver a falta de oferta interna.
Na visão apresentada pelo ministro quatro frentes foram destacadas: retomar investimentos em novas usinas, desenvolvimento comercial do etanol 2G, equacionamento do desafio de competitividade com foco em política pública, nos custos de produção e na produtividade, e o recém implementado E27.
Curiosamente a mistura de etanol em 27% é um dos desafios na lista do MME. A apresentação não detalha este item, mas indica que a polêmica nova mistura ainda será alvo de muitas discussões (veja aqui mais detalhes sobre os conflitos que cercam o E27 no Brasil).
A apresentação completa do ministro do MME está disponível aqui.
Julio Cesar Vedana, diretor de redação do portal novaCana.