Três meses atrás o setor de etanol aumentou suas esperanças de que o governo estaria mais realista em relação ao problema da oferta futura de etanol e gasolina no Brasil. Uma apresentação feita pelo ministro do Ministério de Minas e Energia (MME), Eduardo Braga, à Comissão de Serviços de Infraestrutura do Senado Federal, inaugurou a admissão do problema no abastecimento doméstico de veículos, batizado pela pasta como ‘desafio do Ciclo Otto’.
A expectativa era de que a necessidade de importação de gasolina e o peso que isso teria sobre a balança comercial pudesse guiar de maneira positiva as discussões sobre o futuro do etanol na matriz energética.
Mas essa visão durou menos de três meses.
Na apresentação feita aos ministros o consumo nacional é radicalmente menor: uma diferença que atinge 12,3 bilhões de litros em 2023
Há uma semana, outra apresentação do MME mostrou uma nova – e substancialmente distinta – estimativa de produção e déficit de combustíveis no horizonte até 2023. O espaço aberto para o crescimento do etanol na matriz brasileira de biocombustíveis sofreu um corte abrupto em relação ao apresentado há menos de três meses pelo ministério. Um déficit na oferta que chegaria a 26 bilhões de litros em 2023, foi reduzido para 6,6 bilhões de litros. O novo cenário foi exposto durante a reunião do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), em 23 de junho. (Clique nas imagens para ampliar)
Na apresentação feita aos ministros que compõem o Conselho (mais completa que a dedicada aos senadores) o principal motivo para tamanha redução no gap é uma diminuição no consumo de combustíveis de ciclo Otto. A nova projeção aponta que a demanda brasileira será 12,3 bilhões de litros menor em 2023 do que previram em abril deste ano.
Além da menor demanda, o governo está prevendo um aumento na produção de etanol total de 5 bilhões de litros em 2023 e um aumento na produção de gasolina de 2 bilhões de litros.

A resposta oficial sobre a mudança abrupta dos números alega que “vários fatores contribuíram para a alteração do cenário”. Alguns foram listados pelo MME:
- A redução do licenciamento de veículos novos no País, o que implica diminuição da taxa de crescimento da demanda por combustível;
- As perspectivas de manutenção de preços baixos para o açúcar no curto e médio prazos;
- A elevação recente dos preços da gasolina, com o restabelecimento da CIDE;
- E o aumento do percentual de mistura do etanol anidro na gasolina comercializada no País, de 25% para 27%.
“O Ministério de Minas e Energia esclarece que cenários elaborados para fins de planejamento podem variar com o tempo. A variação dessas premissas, em todo modelo econométrico, tende a gerar alterações menores no curto prazo e maiores no final do período do cenário em questão”, informa a nota enviada ao novaCana.com.
O ministério recusou o pedido de entrevista por telefone para complementar as informações prestadas via e-mail.
A apresentação mais recente mostra uma lacuna bastante inferior ao gráfico de abril, exibido aos senadores. O chamado ‘gap energético’ atinge, em 2023, uma diferença de 19,3 bilhões de litros entre os
gráficos, passa de 26 para 6,6 bilhões de litros.
Considerando que o consumo de combustíveis está intimamente relacionado à atividade econômica, a reportagem questionou o MME se a drástica redução do consumo doméstico de combustíveis de Ciclo Otto, estimada para o horizonte até 2023, significa que o MME reviu suas perspectivas para o crescimento econômico.
O ministério respondeu por-mail que a apresentação ao Senado “baseou-se nos números oficiais de demanda para o Ciclo-Otto publicados no Plano Decenal de Energia (PDE 2023) [...] que no caso dos combustíveis utiliza premissas como crescimento do PIB, licenciamento de veículos novos, frota circulante, e preços relativos de combustíveis”.

Realizado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o PDE é um instrumento do planejamento energético do governo, no entanto suas projeções são consideradas demasiadamente otimistas pelo mercado.
Além disso, a utilização dos números pelo PDE foi feita de maneira seletiva, uma vez que as projeções do plano para a oferta de etanol são bastante superiores e incorporam como premissa a instalação de 18 novas usinas até 2023.
Quanto aos números apresentados ao CNPE “já consideram um cenário de demanda que está sendo utilizado na elaboração do PDE 2024”, justifica o ministério.
Entretanto, não há certeza de que a nova projeção seja um guia efetivo para as ações do governo. A pasta de energia ressalvou que a estimativa atual está sujeita a novas mudanças. ”Cabe ressaltar que o PDE é oferecido à consulta pública e que seus resultados podem sofrer alterações antes de sua publicação definitiva”.
O ministério quer evitar a impressão de que a preocupação com o futuro do abastecimento tenha sido minimizada a partir da nova estimativa e sinaliza que ainda que o 'gap' energético tenha sido reduzido neste novo cenário, ele ainda é objeto de atenção por parte da pasta, "porque representa uma parcela significativa da demanda de combustível no país".
A estimativa mais recente apresenta um volume crescente na produção de etanol hidratado. A alta é parcialmente explicada pela redução do volume esperado de etanol anidro. Como o gap é virtualmente composto por gasolina C – ou seja, com 27% de anidro – a redução desse vácuo resulta em um número menor para o biocombustível.

Entretanto, os novos números apontam crescimento real na produção de etanol, iniciando em 2017. Questionado se o número considera a entrada em operação de novas usinas, o ministério respondeu que não. O volume de etanol total, que seria até 5 bilhões de litros superior ao anteriormente previsto, será suprido pelas usinas já existentes.

“O balanço geral reflete uma maior oferta de etanol, fruto de uma readequação da destinação da cana de açúcar das safras no horizonte decenal com o mesmo parque industrial atual, operando em plena capacidade de produção no médio prazo”.
O ministério afirma que “a diminuição da demanda por combustível para o Ciclo-Otto, somados a um contexto de aumento da remuneração do etanol em comparação com o açúcar, contribuem para um aumento da oferta de etanol”. E completa: “o balanço de etanol ainda sofre a influência de outros mercados (interno e externo) para seus dois principais produtos, o açúcar e o etanol”.
Vale notar que a aposta na manutenção dos baixos preços para o açúcar em um horizonte temporal de dez anos soa como um tiro no escuro, já que o mercado da commodity é altamente volátil.
Embora não sejam conhecidos novos projetos para o refino de gasolina no Brasil, o gráfico mais recente aponta crescimento na produção doméstica de gasolina em relação ao estimado em abril. Até 2021 são 1,079 bilhão de litros a mais por ano, daí até 2024 o aumento entre cenários é 2,025 bilhões de litros. A resposta do MME não explica a origem desta diferença.

A apresentação completa do MME aos demais membros do CNPE está disponível aqui.
Amanda SchArr - novaCana.com