Por Carlos Murilo Barros de Mello*
O mercado sucroenergético brasileiro entra no ciclo 2026/27 sob um pano de fundo desafiador: preços internacionais do açúcar pressionados por uma oferta global abundante, maior volatilidade dos mercados financeiros ao risco geopolítico e um ambiente cada vez mais sensível à gestão de riscos.
Nesse contexto, a relação entre açúcar e etanol deixa de ser apenas um indicador operacional e passa a ocupar o centro da estratégia de planejamento de safra, gestão de margens e hedge de preços.
Os preços do açúcar vêm refletindo um cenário estruturalmente mais confortável do lado da oferta. Análises recentes da Hedgepoint Global Markets indicam que a produção do Centro-Sul do Brasil em 2026/27 pode se aproximar de 630 milhões de toneladas de cana, com um mix açucareiro ao redor de 48,6%, resultando em uma produção próxima de 40,7 milhões de toneladas de açúcar. Esse volume ajuda a explicar o viés baixista observado no mercado internacional.
Este movimento não acontece apenas no Brasil. Há sinais claros de recuperação de oferta em países produtores importantes. A Índia, por exemplo, também contribui para a tendência baixista com uma recuperação em sua produção, enquanto o México projeta um aumento de dois dígitos na produção e a Tailândia volta a ganhar tração após anos abaixo do potencial histórico.
Em um cenário de preços pressionados, a decisão sobre quanto da cana será direcionada à produção de açúcar ou de etanol torna-se crítica. A relação entre açúcar e etanol é justamente um indicador que permite comparar, de forma objetiva, a rentabilidade entre os dois produtos, considerando preços internacionais, mercado doméstico de combustíveis, câmbio, custos industriais e tributação.
Porém a decisão de mix vai além deste diferencial de preços. Em um estudo realizado recentemente, a Hedgepoint apontou que, caso se mantivesse um mix açucareiro durante a safra 2026/27, o Brasil poderia gerar um excedente de cerca de 4 milhões de toneladas nos fluxos globais, o que traria uma situação insustentável a nível de preço e manejo de estoques.
Para que esse excedente fosse efetivamente neutralizado, seria necessário reduzir o mix de açúcar para algo em torno de 46%, deslocando mais cana para o etanol. No entanto, esse ajuste exigiria uma queda significativa nos preços do etanol hidratado para absorver a maior produção sem acúmulo de estoques.
As estimativas apontam que valores entre R$ 2,30 e R$ 2,50 por litro (ex-mill, em São Paulo) seriam capazes de elevar a participação do hidratado no consumo de combustíveis do Centro-Sul em volume total de 36% para próximo de 39%. Em termos equivalentes, esse movimento implicaria em um piso para o preço do açúcar bruto próximo de 13 centavos de dólar por libra-peso.
Na prática, as fricções operacionais, os volumes já fixados de açúcar e os limites históricos de absorção do etanol tornam mais provável um cenário intermediário, com um mix ao redor de 48% a 49%. Esse nível reduz o excedente, mas mantém o viés de baixa para os preços.
Devido ao fato de a relação atual sinalizar uma vantagem para o etanol, inclusive com preços bem fortes durante a entressafra, é possível que a próxima temporada inicie bem alcooleira para capturar os bons preços atuais do biocombustível – e, com um bom desenvolvimento do canavial, as usinas devem optar por antecipar o início da safra.
Assim, os fundamentos do mercado permanecem baixistas para açúcar e sinalizam uma correção futura de preços à medida que o ritmo da safra acelerar. A relação que, hoje, reflete o fundamento de sobreoferta de açúcar, deve seguir refletindo o mercado.
É nesse ponto que a relação entre açúcar e etanol se conecta diretamente às estratégias de hedge e gestão de riscos. Definir o mix de produção sem uma visão clara de proteção de preços pode comprometer margens em um cenário de alta volatilidade.
Quando a gestão é combinada com instrumentos de hedge (futuros, opções ou estruturas customizadas), as empresas ampliam o leque de possibilidade de ações no mercado, com a possibilidade de travar margens, reduzir a exposição à volatilidade do mercado e ampliar sua previsibilidade financeira.
* Carlos Murilo Barros de Mello é economista e, atualmente, é chefe de açúcar para as Américas na Hedgepoint Global Markets
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