Grupo concentra 42% da dívida bruta das companhias não financeiras analisadas e apresenta cobertura mediana de 1,13 vez, ante 1,69 vez no conjunto do mercado
As dez empresas com maior dívida bruta da B3 encerraram junho de 2026 com um passivo conjunto de R$ 1,076 trilhão, equivalente a 41,9% dos R$ 2,569 trilhões contabilizados pelas 304 companhias não financeiras analisadas em levantamento da Elos Ayta.
Mais do que o tamanho nominal da dívida, o estudo avaliou quanto a geração operacional dessas empresas representa diante de suas despesas financeiras. Em junho, a mediana da relação entre Ebitda e despesas financeiras brutas das dez maiores devedoras ficou em 1,13 vez.
Isso significa que a empresa mediana do grupo gerava R$ 1,13 de lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) para cada R$ 1 de encargo financeiro.
No conjunto das 304 companhias, a cobertura mediana era de 1,69 vez, ou R$ 1,69 de Ebitda para cada R$ 1,00 de despesa financeira. A diferença mostra que as maiores devedoras operam com uma margem proporcionalmente mais estreita para absorver seus encargos.
Uma dívida elevada não representa necessariamente uma situação financeira desfavorável. Empresas de grande porte normalmente possuem maior acesso ao crédito, capacidade de alongar vencimentos e alternativas de financiamento no Brasil e no exterior.
O ponto de atenção aparece quando o custo financeiro é comparado com a geração operacional. Nesse recorte, as maiores devedoras apresentam uma folga inferior à observada no conjunto do mercado.
Cinco empresas no limite ou abaixo dele
Em junho de 2026, cinco das dez maiores devedoras apresentavam cobertura igual ou inferior a uma vez: Raízen, Cosan, Marfrig, Equatorial e Axia Energia.
A Raízen registrou a menor relação do grupo, com Ebitda equivalente a 0,14 vez sua despesa financeira bruta. Na Cosan, o indicador ficou em 0,43 vez; na Marfrig, em 0,68; e na Equatorial, em 0,93. A Axia Energia atingiu exatamente uma vez.
Uma cobertura inferior a uma vez mostra que o Ebitda acumulado em 12 meses não superou as despesas financeiras brutas do mesmo período. Isso não significa, isoladamente, incapacidade de pagamento ou risco de inadimplência.
As companhias podem recorrer a caixa disponível, receitas financeiras, venda de ativos, refinanciamentos e outras fontes de recursos. O indicador revela, contudo, uma cobertura operacional reduzida dos encargos.
Na outra ponta, Petrobras e Vale apresentaram as maiores coberturas, de 20,81 e 4,16 vezes, respectivamente. Os resultados demonstram que uma dívida nominal elevada pode ser administrável quando acompanhada por geração operacional compatível.
A Petrobras é o exemplo mais evidente. Embora possua a maior dívida bruta da amostra, de R$ 366,5 bilhões, seu Ebitda superava com ampla margem as despesas financeiras. A companhia respondia sozinha por aproximadamente 14% de toda a dívida das 304 empresas analisadas.
Cobertura perde força em 12 meses
A cobertura mediana das dez maiores devedoras caiu de 1,25 vez em junho de 2025 para 1,13 vez em junho de 2026. No mesmo período, a dívida bruta do grupo avançou 1,9%.
No conjunto das 304 empresas, a cobertura também recuou, mas permaneceu em patamar superior, passando de 1,76 para 1,69 vez. A dívida total dessas companhias cresceu 6,3% em 12 meses.
Os números mostram que o aumento recente da dívida ocorreu principalmente fora do grupo das dez maiores devedoras. A participação do Top 10 no total analisado caiu de 43,7% para 41,9%, embora a concentração ainda permaneça elevada.
Algumas trajetórias individuais merecem atenção. A Equatorial aumentou sua dívida em aproximadamente 15% em 12 meses, enquanto a cobertura recuou de 1,22 para 0,93 vez. A JBS elevou o endividamento em cerca de 10%, ao mesmo tempo que a cobertura caiu de 3,86 para 2,26 vezes.
A Raízen apresentou a maior deterioração da cobertura, que passou de 0,75 para 0,14 vez. Em sentido contrário, a Suzano ampliou o indicador de 1,16 para 3,07 vezes, apesar de manter uma dívida próxima de R$ 93 bilhões.
O ambiente de juros elevados aumenta a importância da capacidade de cobertura, mas a Selic não deve ser interpretada como o custo efetivo das dívidas analisadas.
Companhias desse porte podem captar recursos no exterior, emitir títulos em diferentes moedas, contratar financiamentos prefixados ou de longo prazo e utilizar instrumentos de proteção. Parte dos passivos pode estar vinculada ao Certificado de Depósito Interbancário (CDI) ou a outros referenciais domésticos, mas essa composição varia de empresa para empresa.
Não é possível afirmar, portanto, que as dívidas estejam integralmente atreladas à Selic. A taxa básica serve como referência para o ambiente financeiro brasileiro, enquanto o indicador Ebitda sobre despesas financeiras permite observar diretamente a relação entre a geração operacional e os encargos contabilizados por cada companhia.
Quanto mais próxima ou abaixo de uma vez estiver essa relação, menor será a margem operacional para enfrentar uma redução do resultado ou um aumento das despesas financeiras.
A análise, entretanto, deve ser complementada por informações sobre caixa, dívida líquida, cronograma de vencimentos, moedas, indexadores e instrumentos de proteção.
Metodologia
O levantamento da Elos Ayta considera 304 empresas não financeiras listadas na B3. Os dados foram calculados com base nas Demonstrações Financeiras Padronizadas e nas Informações Trimestrais publicadas pelas companhias e disponibilizadas pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
A dívida bruta corresponde aos valores consolidados informados nesses demonstrativos. O Ebitda foi calculado pela Elos Ayta a partir das rubricas contábeis padronizadas divulgadas à CVM. A cobertura financeira corresponde à divisão do Ebitda acumulado em 12 meses pelas despesas financeiras brutas registradas no mesmo período.
Como o cálculo utiliza exclusivamente os dados padronizados apresentados à CVM, o Ebitda apurado pela Elos Ayta pode diferir do Ebitda ou do Ebitda ajustado divulgado pelas próprias companhias.
Essas diferenças podem decorrer de reclassificações e ajustes realizados pelas empresas em suas notas explicativas, apresentações de resultados ou relatórios gerenciais, que não são considerados no levantamento.
A adoção de uma metodologia padronizada busca preservar a comparabilidade entre todas as empresas da amostra. Nas informações consolidadas dos grupos, os valores de dívida representam a soma dos respectivos estoques, enquanto os indicadores de cobertura correspondem à mediana das empresas.
Einar Rivero