Na disputa entre o sustentável e o menos custoso, o financeiro tende a sempre levar a melhor. Pelo menos é o que está acontecendo com a mudança nas regras de biocombustíveis do Japão
Na disputa entre o sustentável e o menos custoso, o financeiro tende a sempre levar a melhor. Pelo menos é o que está acontecendo com a mudança nas regras de biocombustíveis do Japão, o que impacta tanto no seu desempenho ambiental quanto nas exportações de etanol brasileiras.
Historicamente, o Japão fica com aproximadamente 45% das exportações do biocombustível brasileiro, aproximadamente 800 milhões de litros anuais. A situação era o reflexo de uma política sustentável de 2010 que permitia apenas a entrada de combustíveis que emitem menos de 50% de gases de efeito estufa em relação ao emitido pela gasolina.
Para o Japão, a importância do etanol é sua utilização como matéria-prima para a produção de éter etil-terc-butílico (ETBE), que é importado e misturado com a gasolina japonesa. Até esta revisão das regras, o etanol brasileiro de cana-de-açúcar era a única fonte que atendia às exigências.
A principal origem do ETBE, entretanto, é os Estados Unidos. Quase todo o etanol de cana-de-açúcar exportado para o Japão passava pelo país. Companhias norte-americanas, especialmente do Texas, compravam o produto brasileiro, faziam a sintetização transformando-o em ETBE, e, posteriormente, o revendiam para o Japão.
Inclusive, o etanol brasileiro para transformação em ETBE representa a maior parte das importações do biocombustível feitas pelos Estados Unidos. O país, ao atuar como intermediário, ainda se aproveita de outras características desse mercado, como os contratos de longo prazo com as distribuidoras japonesas.
No Japão, embora exista uma produção local de ETBE, feita com etanol importado desde 2014, ela é extremamente limitada.
O NovaCana desenvolve a situação na reportagem a seguir, com os impactos para o Brasil e os EUA e as metas futuras esperadas pelo Japão. E mais:
- Estudo japonês
- Histórico de importação japonês
Na disputa entre o sustentável e o menos custoso, o financeiro tende a sempre levar a melhor. Pelo menos é o que está acontecendo com a mudança nas regras de biocombustíveis do Japão, o que impacta tanto no seu desempenho ambiental quanto nas exportações de etanol brasileiras.
Historicamente, o Japão era responsável por aproximadamente 45% das exportações do biocombustível brasileiro, aproximadamente 800 milhões de litros anuais. A medida era o resultado de uma política sustentável de 2010 que permitia apenas a entrada de combustíveis que emitem menos de 50% de gases de efeito estufa em relação ao emitido pela gasolina. Considerando toda cadeia produtiva – do campo à chegada para o consumidor final –, a resposta mais óbvia era o derivado brasileiro da cana-de-açúcar.
Para o Japão, a importância do etanol é sua utilização como matéria-prima para a produção de éter etil-terc-butílico (ETBE), que é importado e misturado com a gasolina japonesa. Até esta revisão das regras, o etanol brasileiro de cana-de-açúcar era a única fonte que atendia às exigências.
A principal origem do ETBE, entretanto, é os Estados Unidos. Quase todo o etanol de cana-de-açúcar exportado para o Japão passava pelo país. Companhias norte-americanas, especialmente do Texas, compravam o produto brasileiro, faziam a sintetização transformando-o em ETBE, e, posteriormente, o revendiam para o Japão.
Inclusive, o etanol brasileiro para transformação em ETBE representa a maior parte das importações do biocombustível feitas pelos Estados Unidos. O país, ao atuar como intermediário, ainda se aproveita de outras características desse mercado, como os contratos de longo prazo com as distribuidoras japonesas.
No Japão, embora exista uma produção local de ETBE, feita com etanol importado desde 2014, ela é extremamente limitada.
Novo mercado para o etanol de milho
Em 2016, o Ministério da Economia, Comércio e Indústria do Japão iniciou um estudo para revisar as estatísticas e os estudos sobre as emissões de gases de efeito estufa por parte de diferentes fontes de combustíveis, que foi posteriormente complementado por uma consulta pública. O objetivo era refazer as contas sobre o nível de emissão da gasolina, do etanol da cana-de-açúcar e do etanol do milho.
O resultado foi concretizado em abril de 2018, de acordo com o relatório do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). A revisão da Lei de Abastecimento de Métodos de Fornecimento de Energia do Japão trouxe novos valores de emissão para os três combustíveis: uma mudança sutil, mas impactante, na meta de emissões do país e com consequências para o Brasil e os EUA.
Com a mudança foi estabelecido um novo valor de emissões para a gasolina, que passou de 81,7 para 84,11 gramas de dióxido de carbono equivalente por megajoule (gCO2eq/MJ). Em contrapartida, também houve um aumento na meta de redução de emissões para etanol introduzida no suprimento de combustível de 50% para 55% em comparação com as emissões da gasolina.
Com isso, pelas regras antigas, a emissão do biocombustível poderia ser de até 40,85 gCO2eq/MJ. Agora, esse valor é de 37,85 gCO2eq/MJ. Entretanto, ele pode ser atingido por uma mistura de combustíveis.
O valor de emissão revisado do etanol brasileiro à base de cana-de-açúcar revisado é de 33,61 gCO2eq/MJ, ante 32,7 gCO2eq/MJ. Isso abre um espaço para o etanol à base de milho fabricado nos EUA, que passou a ser considerado como uma possibilidade na importação de combustíveis pela primeira vez e, segundo os cálculos, emite 43,15 gCO2eq/MJ.

Redução de custos
Dessa forma, com a nova política, os Estados Unidos seguem fazendo negócios com o Japão, mas com a possibilidade de utilizar também etanol local para a sintetização em ETBE. Ainda assim, o Brasil não sai inteiramente da jogada, pois pelo menos 55,56% da meta – o equivalente a 457,81 milhões de litros – precisará ser atendida pelo biocombustível brasileiro.
A lei japonesa segue exigindo o uso de 500 milhões de litros equivalentes de petróleo por ano, o que significa 824 milhões de litros de etanol, até março de 2023. Assim, o país permitirá que o etanol dos EUA atenda uma demanda estimada de 366 milhões de litros. O valor de mercado desse volume, segundo o USDA, é de aproximadamente US$ 170 milhões (considerando os preços de exportação dos EUA em 2017).
Para o Japão, a possibilidade de cumprir parte da meta com o biocombustível norte-americano seria benéfica por ajudar a reduzir custos. O produto dos EUA, atualmente, é 35% mais barato do que a variedade à base de cana do Brasil. Pelas novas regras, o etanol de milho americano pode alcançar uma participação de mercado no Japão de até 44,44%.
Já para o Brasil, isso significa a redução de um mercado que até então era garantido. Até 2017, o Japão era o terceiro principal destino do etanol brasileiro, tendo importado 68 milhões de litros diretamente, conforme o USDA, além dos que passavam pelos EUA. Além disso, as exportações de etanol ao Japão renderam US$ 50,3 milhões no ano.
A posição da Unica
Desde o início da revisão das políticas japonesas, a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) se demonstrou contrária às novas possibilidades. Eduardo Leão de Souza, diretor executivo da entidade, esteve no Japão em março e apontou que, mesmo com o crescimento da meta de redução de emissão de 50% para 55% em comparação com a gasolina, “espera-se que haja um aumento das emissões de gases de efeito estufa em, pelo menos, 100 mil toneladas ao ano”.
A Unica critica a possibilidade da meta ser atingida por uma combinação de combustíveis e defende que, por mais que o etanol norte-americano esteja momentaneamente mais barato que o brasileiro, ele não possui a mesma eficácia ambiental. “A sustentabilidade deve ser um compromisso de longo prazo. Preços são cíclicos e podem mudar de ano para ano. É importante enfatizar que o etanol de cana é o biocombustível com um dos menores custos de mitigação, devido a uma contínua evolução do seu sistema de produção”, afirma Leão.
Dados da Unica demonstram que o volume de etanol anualmente importado pelo Japão corresponde a 2% ou 3% da produção total no Brasil. Em 2017, o país exportou, via Estados Unidos, mais de 800 milhões de litros do renovável, o que gerou mais de US$ 500 milhões em receita aos produtores nacionais.
Planilha completa – NovaCana DATA
Rafaella Coury – NovaCana
