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O mercado de etanol não é mais o mesmo: novos fatores dificultam análises e projeções

Matinho ono nec17 301017“Se alguém, no passado, dizia que era difícil trabalhar com etanol, eu acho que ficou bem mais difícil agora”. Uma frase como essa – dita pelo CEO da SCA Trading, Martinho Ono, evidencia o momento de transformações pelo qual o setor de etanol está passando.

O mercado doméstico, ao longo dos últimos meses, ficou muito mais suscetível a influências externas, especialmente devido às mudanças na política de preço da Petrobras e na forma como a estatal está suprindo as distribuidoras.

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“Se alguém, no passado, dizia que era difícil trabalhar com etanol, eu acho que ficou bem mais difícil agora”. Uma frase como essa – dita pelo CEO da SCA Trading, Martinho Ono, durante a NovaCana Ethanol Conference 2017 – evidencia o momento de transformações pelo qual o setor de etanol está passando. O mercado doméstico, ao longo dos últimos meses, ficou muito mais suscetível a influências externas, especialmente devido às mudanças na política de preço da Petrobras e na forma como a estatal está suprindo as distribuidoras.

De acordo com Ono, até a safra passada, o mercado de etanol dependia de seis fatores principais: o tamanho da safra de cana-de-açúcar; o mix de produção das usinas; a taxa de crescimento do Ciclo Otto; a relação de oferta e procura; o valor praticado nas bombas dos postos, especialmente considerando a paridade energética comercialmente estabelecida em 70%; e o preço da gasolina praticado pela Petrobras, que normalmente recebia ajustes anuais. Além disso, a dinâmica também envolvia as flutuações provocadas pelo ciclo produtivo da cana, com preços mais baixos, mais oferta e mais demanda durante a safra, e, consequentemente, preços mais altos, menos oferta e menos demanda na entressafra.

“Essa era a nossa dinâmica de mercado até o ano passado. Neste ano, isso mudou completamente”, declara.

A reportagem a seguir explora a nova dinâmica do mercado. E mais:

- Os fatores que os estrategistas e consultores das companhias não costumavam acompanhar mas agora precisam ficar atentos

- Mercado spot para a gasolina

- Sazonalidade do mercado internacional

- Carregamento de estoque

- Projeção de preço para o etanol até fevereiro

- Os efeitos da taxa de importação

“Se alguém, no passado, dizia que era difícil trabalhar com etanol, eu acho que ficou bem mais difícil agora”. Uma frase como essa – dita pelo CEO da SCA Trading, Martinho Ono, durante a NovaCana Ethanol Conference 2017 – evidencia o momento de transformações pelo qual o setor de etanol está passando. O mercado doméstico, ao longo dos últimos meses, ficou muito mais suscetível a influências externas, especialmente devido às mudanças na política de preço da Petrobras e na forma como a estatal está suprindo as distribuidoras.

De acordo com Ono, até a safra passada, o mercado de etanol dependia de seis fatores principais: o tamanho da safra de cana-de-açúcar; o mix de produção das usinas; a taxa de crescimento do Ciclo Otto; a relação de oferta e procura; o valor praticado nas bombas dos postos, especialmente considerando a paridade energética comercialmente estabelecida em 70%; e o preço da gasolina praticado pela Petrobras, que normalmente recebia ajustes anuais. Além disso, a dinâmica também envolvia as flutuações provocadas pelo ciclo produtivo da cana, com preços mais baixos, mais oferta e mais demanda durante a safra, e, consequentemente, preços mais altos, menos oferta e menos demanda na entressafra. “Essa era a nossa dinâmica de mercado até o ano passado. Neste ano, isso mudou completamente”, declara.

De acordo com ele, as principais mudanças são relacionadas com a Petrobras. Uma delas é a política de preços indexada ao mercado internacional, com reajustes quase diários nos valores cobrados nas refinarias. Outro ponto importante é que a estatal parou de suprir completamente o mercado, atendendo entre 70% e 80% da demanda das distribuidoras.

etanol mercado 241017

“Todo o volume excedente está sendo feito através do mercado de importações, onde a própria Petrobras também pode competir com o excedente que ela produz além da cota [previamente comprometida com as distribuidoras]”, relata Ono. Dessa maneira, de acordo com o executivo, o mercado spot para a gasolina acaba apresentando uma variedade de valores.

Essa maior influência dos mercados externos – seja por meio dos reajustes ou das importações – faz com que os estrategistas e consultores das companhias precisem ficar atentos a elementos que não costumavam fazer parte de seus cotidianos. Entre eles: os preços internacionais da gasolina e do petróleo, o câmbio e aspectos geopolíticos.

Martinho Ono

Além disso, a influência do mercado internacional é sentida também sazonalmente. Conforme Ono, no verão do hemisfério norte, a gasolina internacional tem um preço mais alto, justamente em uma época em que o etanol costuma apresentar um preço mais baixo. No inverno, que coincide com a entressafra nacional, a situação se inverte. “Com isso, ficou muito difícil fazer um cenário de carregamento de estoque para vender com margem na entressafra”, afirma.

“O cenário de safra passou a ser apenas um dos componentes da análise. A gente precisa analisar muito outros aspectos”, Martinho Ono (SCA)

“A consequência de tudo isso é um cenário de preço que é menos previsível”, aponta, e continua: “A gente consegue enxergar o preço da semana que vem, deste mês, mas fazer projeções de qual será o preço na entressafra ficou bem mais difícil. Ganha muita importância a inteligência de mercado”.

etanol projecao 241017

Ainda assim, o executivo se arrisca e apresenta sua previsão. De acordo com ele, considerando o tamanho da safra, o preço da gasolina internacional e a necessidade de demanda, a SCA projetou uma curva de preço ascendente para o etanol até fevereiro. A estimativa é que o biocombustível encerre a safra sendo negociado a R$ 1,90/l em São Paulo.

Martinho Ono 2

“Olhando essa curva dos últimos quatro a cinco meses, o que a gente percebe é que tivemos uma queda abrupta nos meses de junho e julho, chegando a quase R$ 1,30 [por litro] em base líquida. Depois, veio a medida da tributação, onde se começou a tributar a gasolina com mais peso, e recuperamos um pouco mais de R$ 100 [a cada mil litros] naquela oportunidade, a última semana de julho”, relembra.

Nos meses seguintes, de acordo com ele, o mercado continuou vivendo uma ascensão em termos de preço, motivada especialmente pelo verão americano, com o mercado valorizado em termos de gasolina internacional. Além disso, também ocorreu a tempestade tropical Harvey, que levou a um novo aumento da gasolina no mercado internacional. “A somatória desses dois movimentos trouxe um aumento na ordem de R$ 180 [a cada mil litros] nos preços líquidos ao produtor [de etanol]”, completa.

Martinho Ono 3

Ainda segundo Ono, mesmo com esses aumentos, o resultado geral do etanol em 2017/18 ainda tem sido inferior ao observado no período anterior. “Nas análises semanais, a gente percebe que os preços dos dois etanóis mantêm um nível inferior aos do ano passado, apesar da valorização dos últimos meses”, afirma. Na média, a expectativa da SCA é que o etanol seja negociado ao longo da safra a R$ 1,82/l – um valor 2,7% inferior ao calculado no ciclo anterior.

Taxa sobre etanol importado

Outro aspecto que deve começar a fazer parte dos cálculos para projeção de preço do etanol é a taxa de importação de 20% sobre o etanol que ultrapassar a meta trimestral de 150 milhões de litros. De acordo com Ono, esse produto deve chegar ao Brasil nos próximos meses custando em torno de R$ 2 por litro.

“Provavelmente, o etanol importado na região Centro-Sul não terá arbitragem. Por outro lado, o Nordeste já apresenta um preço projetado mais ou menos equivalente ao valor de R$ 2 do importado”, aponta, indicando que é provável que as importações mais acentuadas para o mercado da região Norte-Nordeste prossigam ao longo dos próximos meses.

“O Centro-Sul tem pouco impacto com a taxa de importação. Nós vamos continuar seguindo com o nosso mercado autossuficiente no produto”, declara. “O Nordeste, que depende mais do etanol, ora importado, ora de cabotagem, vai sofrer uma influência no preço”, completa.

Recuperação das vendas do Ciclo Otto

Considerando que a relação entre a oferta e a demanda é essencial no estabelecimento dos preços, o executivo observa que há uma tendência de recuperação nas vendas de combustíveis do Ciclo Otto. Conforme os dados apresentados, houve uma recuperação das vendas ao longo de 2017, com um crescimento de 2%.

“Acho que esse número surpreende o mercado, pois não havia recuperação para gasolina e etanol nesse preço atual”, relata. De acordo com ele, a tendência deve se manter até o final do ano, acompanhando também os melhores resultados na venda de automóveis. “Depois de dois anos negativos, começamos agora a costurar um resultado que, mês a mês, vem crescendo. Apesar da crise, apesar da quantidade de pessoas desempregadas, se consome bastante combustível, com um resultado positivo”.

“Imagino que, no mundo do RenovaBio, onde a gente tenha metas definidas, teremos um mercado menos oscilante, especialmente na área de demanda”, Martinho Ono (SCA)

Contudo, ele observa que o etanol hidratado perdeu participação de mercado para a gasolina em 2016 e que, ao longo de 2017, essa tendência se manteve, com uma queda de 20% nas vendas do biocombustível durante os primeiros sete meses do ano. “Em julho, agosto e setembro nós tivemos uma recuperação, mas [o consumo] ainda não alcançou os números do ano passado, especialmente pelo aumento do custo da gasolina ao consumidor, a tributação do PIS/Cofins e, também, o preço internacional da gasolina mais alto”, relata.

Por outro lado, a gasolina vem ganhando espaço. Entre janeiro e julho, houve um crescimento de 7,3% nas vendas – algo que Ono atribui à falta de competitividade do etanol nas bombas de combustível. Ele observa que o etanol hidratado já chegou a representar um quarto das vendas de combustíveis do Ciclo Otto no Brasil, mas, atualmente, esse índice é de 16,4%.

Marinho Ono 4

“Acho que tem dois aspectos que influenciam muito na venda do hidratado”, alega. O primeiro é o aspecto logístico: quanto mais próximo ao centro de consumo, menores são os custos logístico e a competitividade cresce. O segundo aspecto, por sua vez, é tributário. Em Mato Grosso, o estado que atualmente possui o etanol mais competitivo do país, o governo optou por uma solução de incentivo fiscal para vendas dentro do estado. “Eles têm maior competitividade para o hidratado. A gasolina, pelos custos para chegar lá, custa caro”, afirma.

Renata Bossle – NovaCana

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