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Mercado de açúcar ainda não precificou uma menor produção no Brasil, afirma XP

Com excesso de chuvas no Centro-Sul, instituição reduz estimativa de produção de açúcar para 36,9 milhões de toneladas e vê preços elevados por mais tempo, mesmo após alta de 12% nas bolsas internacionais

AgFeed 6 min de leitura

Mesmo com a recente alta dos preços do açúcar nas bolsas internacionais, a XP Investimentos não está convencida que o mercado tenha precificado totalmente a produção mais fraca da commodity no Brasil ao longo desta safra, que poderá fazer com que as cotações permaneçam elevadas por mais tempo.

Em relatório divulgado ao mercado na semana passada, a XP reforçou sua tese sobre o açúcar ao mesmo tempo em que cortou suas estimativas para os principais indicadores de produção da cana-de-açúcar na região Centro-Sul, principal região produtora do país.

A instituição agora projeta uma moagem de 613,5 milhões de toneladas de cana no atual ciclo agrícola, redução de 12,4 milhões de toneladas em relação à estimativa anterior.

A XP também diminuiu em aproximadamente 1,5 milhão de toneladas sua projeção para a produção de açúcar no Centro-Sul, que deve alcançar 36,9 milhões de toneladas na safra 2026/27, queda de 8,8% em relação aos 40,4 milhões de toneladas produzidos no ciclo anterior.

“Em nossa visão, uma safra abaixo de 37 milhões de toneladas é difícil de conciliar com uma visão baixista [de preços] para o médio prazo, especialmente enquanto o mercado segue avaliando condições globais de oferta cada vez mais apertadas”, disse a XP Investimentos em relatório.

A gestora reduziu também a projeção para o teor médio de açúcar total recuperável (ATR) das plantas em 2,3 kg por tonelada, para 134,3 kg por tonelada, já que o excesso de precipitação vem prejudicando o acúmulo de sacarose na cana.

A redução reflete a combinação de uma moagem abaixo das expectativas iniciais e de uma menor concentração de açúcar na cana em função do aumento da ocorrência de chuvas no Centro-Sul.

Segundo a XP, o chamado mix açucareiro, que representa a proporção da matéria-prima destinada à fabricação de açúcar, deve ficar em 47% nesta temporada, abaixo dos 50,4% registrados na safra passada.

Na avaliação dos analistas, mesmo um direcionamento maior da matéria-prima para a produção de açúcar nos meses finais do ciclo não seria suficiente para compensar os efeitos da moagem mais fraca e da redução do ATR.

Essa combinação pode ter consequências importantes para o mercado internacional, uma vez que o Brasil é o maior exportador mundial de açúcar e exerce influência significativa sobre a formação dos preços da commodity.

A XP destacou que os contratos futuros de açúcar vêm registrando uma recuperação nas últimas semanas, acompanhando a percepção de que a oferta global poderá ser mais restrita do que se imaginava anteriormente.

O contrato com vencimento em março de 2027, negociado na Bolsa de Nova York, acumulou valorização de aproximadamente 12% ao longo do último mês, estima a XP.

“O movimento foi sustentado por uma entrega menor do que o esperado na bolsa, sinais de melhora marginal da demanda, deterioração das perspectivas de produção na Europa e crescente reconhecimento de que a safra brasileira de 2026/27 pode ficar abaixo das estimativas anteriores”, disse a casa do mercado financeiro.

Embora a melhora das perspectivas para a demanda também contribua para sustentar as cotações, a instituição considera que o principal fator por trás da valorização está no lado da oferta.

Isso porque as revisões negativas para a moagem de cana e para a qualidade da matéria-prima brasileira ocorrem simultaneamente à deterioração das perspectivas de produção em outros mercados exportadores relevantes.

“Mais importante, o mercado parece estar abandonando a premissa de que o Brasil seria capaz de compensar integralmente os problemas de produção observados em outras regiões exportadoras relevantes”, disse a XP.

“À medida que os impactos climáticos continuam apertando o balanço brasileiro e a Europa enfrenta mais uma safra decepcionante, os riscos para a oferta global permanecem inclinados para cima”, completa.

Outro efeito do excesso de chuvas sobre os canaviais do Centro-Sul deve aparecer na próxima safra. Com as dificuldades para avançar na colheita, parte da cana-de-açúcar que seria processada neste ciclo deverá permanecer no campo para ser colhida apenas em 2027/28. É a chamada cana bisada, quando a planta não é colhida na temporada prevista e permanece no canavial até o ciclo seguinte.

Segundo a XP, aproximadamente 27 milhões de toneladas de cana-de-açúcar poderão ser transferidas para a próxima safra, volume que deverá reforçar a disponibilidade de matéria-prima para as usinas.

Embora esse movimento contribua para reduzir a produção de açúcar na temporada atual, a instituição avalia que a cana bisada poderá proporcionar um impulso relevante à moagem e ao potencial de fabricação de etanol em 2027/28.

Etanol

A precipitação mais elevada na principal região produtora de cana-de-açúcar do Brasil também levou a XP a revisar suas projeções para o mercado de etanol.

A instituição reduziu em aproximadamente 800 milhões de litros a estimativa de produção do biocombustível a partir da cana-de-açúcar, principalmente em razão da menor disponibilidade da matéria-prima e da queda na concentração de açúcares.

“Esperamos que a produção permaneça pressionada até o fim da safra, embora os níveis atuais de estoque ainda sejam confortáveis. Em termos ajustados sazonalmente, entretanto, os estoques continuam em queda, sugerindo que a demanda permanece saudável”, disse a XP.

Apesar da revisão, a produção total de etanol no Centro-Sul, considerando tanto o combustível fabricado a partir da cana como também o produzido com milho, deverá crescer 5% nesta temporada, alcançando 35,4 bilhões de litros, ante 33,7 bilhões de litros no ciclo anterior.

Parte desse crescimento está relacionada à expansão da indústria de etanol de milho, que vem ampliando sua participação na oferta brasileira de biocombustíveis.

Para o Centro-Sul, a XP projeta uma produção de 9,7 bilhões de litros de etanol de milho, crescimento de 6,7% em relação aos 9,2 bilhões de litros registrados na temporada passada. Já considerando todas as regiões do país, a produção do biocombustível fabricado a partir do cereal deverá chegar a 11 bilhões de litros, frente aos 9,8 bilhões de litros do ciclo anterior.

O avanço deverá ocorrer principalmente no segmento de etanol anidro, utilizado na mistura obrigatória à gasolina. A expectativa é que a produção nacional de anidro de milho cresça 33,1%, alcançando 5,6 bilhões de litros.

Em contrapartida, a fabricação de etanol hidratado de milho, comercializado diretamente nos postos de combustíveis, deverá registrar queda de 4,8%, para 5,4 bilhões de litros.

Italo Bertão Filho

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