O mercado global de açúcar deve finalmente voltar a registrar um superávit. Entretanto, essa previsão depende de um equilíbrio frágil.
Os preços do açúcar, que caíram 20% no ano passado, precisam permanecer nos níveis atuais para incentivar os usuários no Brasil a continuar na produção da commodity, de acordo com o diretor comercial da Louis Dreyfus, Guilherme Correia. Mesmo que a oferta esteja disponível, os gargalos logísticos no maior produtor do mundo ainda podem deixar o mercado apertado.
O melhor clima significa que a produção está se recuperando em lugares como a Índia, a Tailândia e o Brasil. A empresa de pesquisa Green Pool Commodity Specialists agora prevê um excesso de 2,7 milhões de toneladas para a temporada que começa em outubro. Isso poderia ser facilmente eliminado se os usuários brasileiros usassem mais cana para produzir etanol em vez de açúcar.
“Estamos em um período de transição de um déficit para um superávit, mas o superávit só acontece se os preços futuros em Nova York permanecerem onde estão”, disse Correia, da Dreyfus, em uma entrevista na Conferência de Açúcar de Dubai, na terça-feira, 11.
De acordo com a companhia, uma mudança de apenas um ponto percentual na proporção do caldo de cana usado para fazer etanol pode reduzir em 800 mil toneladas a produção de açúcar no Brasil.
Entretanto, o Brasil precisará garantir que haja espaço suficiente nos portos, que já deverão receber safras recordes de milho e soja. Operadores logísticos, incluindo empresas ferroviárias e terminais de carga, geralmente favorecem grãos em vez de açúcar porque são commodities mais lucrativas.
A esperada abertura de um novo terminal portuário da chinesa Cofco este ano pode aliviar um pouco essa dor. Ainda assim, os altos custos para o transporte de açúcar por rodovia ou ferrovia podem significar que algumas usinas sucroalcooleiras mais distantes do porto estão mais inclinadas a produzir etanol em vez de açúcar.
“Você tem que ficar atento ao que vai acontecer com a logística interna e o custo de produção”, disse o diretor geral para o Brasil da trading francesa Sucden, Jeremy Austin. “Você pode muito bem ter um pico no custo de levar esse açúcar para os portos”.
O excedente global de açúcar esperado para a próxima temporada vem depois de vários anos de escassez de oferta mundial, já que o tempo seco prejudicou as safras ao redor do mundo. Isso esgotou os estoques globais, que agora precisam ser reconstruídos.
“Se o mercado não oferece pelo menos um pequeno incentivo para os produtores continuarem produzindo, então ele não está realmente fazendo seu trabalho”, disse o diretor administrativo da Green Pool Commodity Specialists, Tom McNeill. “A incerteza climática nos últimos quatro ou cinco anos tem sido enorme”, concluiu.