A China, maior importadora global de commodities, segue com o apetite elevado para a compra de produtos agrícolas. Menos de um ano após realizar a primeira compra de milho do Brasil, o gigante asiático desbancou outros destinos tradicionais e já é o principal demandante do grão brasileiro.
“Os embarques [de milho à China] ficaram acima da expectativa de mercado. Os chineses superaram outros grandes importadores do Brasil, como Japão e Irã, e foi uma surpresa enorme, já que a China é uma grande produtora de milho”, disse o diretor geral da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec), Sérgio Mendes.
Nos cálculos da entidade, desde novembro do ano passado, quando o Brasil conseguiu habilitação para exportar à China, até agosto deste ano, mais de 6,7 milhões de toneladas de milho tiveram como destino o país asiático. Apenas em 2023 – até o oitavo mês do ano – as compras chinesas totalizaram 4,85 milhões de toneladas.
“A China está comprando milho do Brasil para fechar um pequeno gap que existe entre sua produção e seu consumo. Até 2022, praticamente todo o milho importado da China saía dos EUA e da Ucrânia. Mas os chineses querem ampliar suas alternativas, e por isso fecharam um acordo sanitário com o Brasil no fim do ano passado”, destacou a analista Daniele Siqueira, da AgRural.
Na avaliação do dirigente da Anec, sem a participação da China, dificilmente o Brasil conseguiria exportar as pouco mais de 10 milhões de toneladas de milho que devem deixar o país este mês, nas projeções mais recentes da entidade. O volume, se confirmado, seria o maior da história em um único mês.
“O exportador brasileiro é extremamente confiável na parte dos grãos. Há 15 anos, nosso país tinha apenas três grandes portos: Santos, Paranaguá, e Rio Grande. Se olharmos hoje, com a expansão portuária do Arco Norte, temos uma vazão muito maior para nossas mercadorias”, avalia Mendes.
Desde meados de junho, no início da colheita de milho segunda safra, havia um certo temor do setor produtivo que o Brasil passasse por um caos logístico para escoar a produção agrícola, já que o país ainda estava colhendo soja e os portos receberiam a chegada do açúcar, que, assim como os grãos, têm uma grande safra neste ciclo.
“Os exportadores brasileiros enfrentaram um grande desafio para exportar milho neste ano. A BR-163 foi asfaltada recentemente e as rotas para chegar aos portos ainda são limitadas. O cenário ainda não é o ideal, mas as empresas, assim que tiveram acesso aos terminais de embarque, foram extremamente rápidas para despachar o milho”, observou o diretor da Anec.
Ainda na visão dele, as compras internacionais de milho seguirão em ritmo acelerado, em que pese a queda nas cotações da commodity na bolsa de Chicago. “O grande problema não é a desvalorização do milho, e sim se haverá espaço para estocar essa grande quantidade. Se o produtor não tem onde guardar, muitas vezes ele precisa acelerar as vendas”, pontuou Mendes.
Para Daniele Siqueira, a China deve importar 23 milhões de toneladas de milho (de todos os destinos) na temporada 2023/24, que vai de 1º de outubro de 2023 a 30 de setembro de 2024. “Como as compras chinesas de milho dos EUA estão bastante lentas e há dificuldades na Ucrânia, o Brasil poderá ser bastante beneficiado pela demanda da China nos próximos meses”, frisou a analista da AgRural.
Paulo Santos