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Marina desmistifica temores em jantar com agronegócio


Reuters - Publicado: 01 Set 2014 - 08:30 | Atualizado: 05 Set 2014 - 17:59

A candidata do PSB à Presidência, Marina Silva, desmistificou na noite de sexta-feira, em jantar com cerca de 50 empresários e representantes das principais cadeias produtivas do agronegócio, os maiores temores que agricultores e agroindústrias poderiam ter em relação ao seu passado de ambientalista radical.

Ela mostrou ainda sua “visão pragmática”, sua capacidade de dialogar e apresentou informações de seu programa de governo alinhadas com o que o setor esperava, segundo relatou à Reuters o diretor-executivo da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), Luiz Cornacchioni, que participou do jantar.

O encontro foi organizado a pedido do biólogo João Paulo Capobianco, um dos nomes mais próximos de Marina, e teve como anfitrião o consultor Plínio Nastari, da Datagro, especializada no mercado de açúcar e etanol. Entre os presentes no jantar estavam Rubens Ometto, da Cosan, Rui Chammas, da Biosev, a presidente da Unica, Elizabeth Farina e o vice de Marina, Beto Albuquerque.

O encontro, que reuniu representantes das principais commodities agrícolas, como soja, cana e milho, além de pecuaristas, integrantes das indústrias das carnes, de florestas plantadas, biodiesel e até mesmo bancos de investimentos ligados ao agribusiness, serviu para eliminar algumas ressalvas que existiam de parte do segmento do agronegócio em relação à candidata.

“Acho que muitos pontos foram desmistificados, tem muita coisa que é mito. Pelo que vi lá, pelo que pude perceber, vários mitos foram quebrados”, avaliou Cornacchioni.

Tais mitos, que incluiriam por exemplo uma posição contra o plantio de produtos agrícolas transgênicos, hoje usados amplamente pelos produtores brasileiros, foram eliminados por uma Marina com boa capacidade de conversar com um setor que responde por quase um quarto do PIB do Brasil e por cerca de 100 bilhões de dólares em exportações anuais, disse Cornacchioni.

Nastari classificou como "leve" o encontro. Ele disse ter depreendido "uma enorme capacidade de diálogo" por parte de Marina e disse que, de uma maneira geral, as lideranças ficaram "esperançosas" pela perspectiva de diálogo.

"Foi um passo inicial de conversa com o agronegócio, uma construção de pontes", diz um dos convidados, que defende outros encontros em Estados "mais agrícolas, como o Mato Grosso".

Marina fez um discurso de reconhecimento à importância do agronegócio e de apoio a produção sustentável e recebeu a sugestão de divulgar uma carta aberta ao agronegócio com seus compromissos para o setor.

Pontos apresentados

As lideranças apresentaram questões como a insegurança jurídica e guerra tributária, e pediram maior alinhamento entre os ministérios que atendem o campo. Também disseram que querem que o governo trate de forma diferente a questão indígena, prevendo indenizações adequadas para as desapropriações nas terras demarcadas.

A crise enfrentada pelo setor sucroalcooleiro dominou a conversa, segundo as fontes ouvidas pelo Cana Rural. Os empresários apresentaram diversos relatos sobre a crise enfrentada e pediram uma revisão da atual política energética. Marina Silva defendeu o compromisso de fortalecer o Ministério da Agricultura e disse que, se eleita, terá nele pessoas especializadas, independente de serem filiadas ou não a partidos.

“Ela se mostrou uma pessoa que está aberta para o diálogo e que sabe da importância do agronegócio na agenda de sustentabilidade e na agenda do país. Eu saí de lá com uma sensação muito positiva”, disse o representante da Abag, associação que congrega desde as principais multinacionais do agronegócio, empresas agrícolas listadas na Bovespa, bancos, e até associações como a União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica).

Apoio não foi declarado

Segundo o diretor-executivo da Abag, o jantar não significou, no entanto, um apoio à candidata em detrimento de outros.

“Não teve um marco político no jantar, foi um encontro para o setor poder dizer a ela quais são as preocupações, dizer quais são as nossas agendas... em nenhum momento se falou disso (de apoio). A agenda era muito mais de aproximação e de entendimento”, disse ele.

“É um momento onde todos os candidatos têm que apresentar suas propostas, e é obrigação nossa estarmos abertos”, acrescentou, preferindo não nomear os participantes do jantar nem as entidades presentes, mas destacando que todas as cadeias produtivas estavam representadas.

Pesquisa Datafolha divulgada na sexta-feira mostrou Marina empatada em primeiro lugar com a presidente Dilma Rousseff (PT) no primeiro turno, com 34 por cento das intenções de voto, e derrotando a petista num segundo turno. O presidenciável do PSDB, Aécio Neves, teve apenas 15 por cento de intenções de voto no levantamento.

Com base no que falaram Marina e o candidato à vice, além do que consta no programa de governo divulgado, Cornacchioni avaliou que as propostas apresentadas estão bem em linha com o que foi conversado anteriormente com Eduardo Campos, o candidato do PSB morto em acidente aéreo no início de agosto.

“Em linha geral, é um plano alinhado, sempre tem alguns pontos para discutir e entender melhor, mas pelo que eu vi lá está dentro do que consideramos importante”, disse o representante da Abag.

Para Cornacchioni, foi possível notar uma “visão bastante pragmática e boa” de Marina e de Beto Albuquerque sobre a importância do setor, “inclusive do ponto de vista da sustentabilidade e de questões sociais”, que permitiriam a melhoria de renda da população brasileira.

A visão é contrária a de alguns ambientalistas, que culpam o agronegócio, especialmente a pecuária e os produtores de soja, de responsabilidade pelo desmatamento da Amazônia e outros biomas do Brasil.

Ex-senadora lança programa de governo e defende biocombustíveis

Ainda que tenha confirmado o compromisso de adotar uma política energética capaz de "recuperar e revitalizar a produção de biocombustíveis no Brasil", o programa de governo pela candidata à presidência Marina Silva (PSB) não contempla medidas concretas nesse sentido. O setor de agronegócios tinha a expectativa de que a volta da cobrança da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) sobre a gasolina, que daria mais competitividade ao etanol, estivesse prevista.

Mesmo assim, o programa apresentado critica a atual política de preços dos combustíveis do governo Dilma, o que não deixa de ser um aceno positivo aos usineiros do Centro-Sul do país.

"A agroindústria da cana-de-açúcar para produção de etanol, açúcar e bioeletricidade não deve ficar a reboque da intervenção estatal, mas não pode ser sacrificada na sua capacidade de competir no mercado de combustíveis por causa de políticas de controle de preços da gasolina que desprezam seu valor real, considerados os preços do produto e do frete no mercado internacional e a taxa de câmbio. A intervenção do governo no setor, contudo, deve ser mínima, e as regras para o desenvolvimento da energia de biomassa devem ser previsíveis e transparentes", diz o programa.

"A política de apoio à revitalização dos biocombustíveis será associada ao estímulo à implementação de programas de certificação socioambiental a fim de garantir que sua produção se dê de forma social e ambientalmente sustentável, respeitando os diretos trabalhistas", continua.

Para a agricultura em geral, o programa afirma que é "imperioso" que o país firme acordos bilaterais para abrir mercados e elevar as exportações, defende a implementação de um seguro rural mais amplo, não apenas contra catástrofes climáticas, prega a ampliação dos investimentos em pesquisa e do Plano de Agricultura de Baixo Carbono (ABC) e reconhece que é necessário elevar investimentos em logística e infraestrutura. Sobre a gestão do governo no setor, o programa de Marina afirma que é preciso "enxugar esse emaranhado de órgãos federais que engessam as ações para o setor rural".

Código florestal

Segundo Cornacchioni, a candidata não indicou intenção de fazer mudanças no código florestal que possam causar preocupações. “Temos uma lei aprovada e temos que colocar em prática, temos que regulamentar e botar para andar, temos instrumentos para fazer valer o código”, completou.

Para o diretor-executivo da Abag, Marina “foi muito pragmática nisso, ela quer colocar em prática o que está no código”.

O Brasil tem menos de 10 meses para cumprir o prazo legal para cadastramento de milhões de propriedades rurais exigido pelo atual Código Florestal e este trabalho, junto com a regularização dos passivos ambientais, vai demandar esforços também das grandes empresas do setor, como indústrias e tradings.

O Código Florestal aprovado em 2012 prevê que todas as propriedades rurais informem às autoridades quais são suas coordenadas geográficas e a ocupação das terras: se estão cobertas por mata nativa, rios, pastagens ou lavouras, por exemplo.

No entanto, o processo de cadastro tem andado a passos lentos. Até o início de agosto, 285,6 mil cadastros haviam sido recebidos, informou o Ministério do Meio Ambiente, contra um universo de 5,175 milhões de propriedades rurais no país.

Com informações adicionais do Valor Econômico e Canal Rural