NovaCana
Publicidade

Márcio Canella era “patrono político” de organização criminosa presente em postos, diz PF

Deputado eleito pelo União Brasil, Canella é suspeito de atuar como articulador político e elo entre a organização criminosa; ele foi preso durante a oitava fase da Operação Unha e Carne

CNN Brasil 5 min de leitura

Preso na manhã desta quinta-feira, 15, o deputado estadual eleito Márcio Canella (União Brasil) é apontado pela Polícia Federal como “patrono político” e “articulador de alto escalão” de uma organização criminosa suspeita de lavar dinheiro por meio de uma rede de postos de combustíveis na região metropolitana do Rio de Janeiro.

A prisão ocorreu durante a oitava fase da Operação Unha e Carne, que investiga um esquema que movimentou mais de R$ 7,6 bilhões nos últimos seis anos.

Além de Canella, foram presos o delegado Marcus Amim; os agentes da Polícia Civil do Rio de Janeiro Pablo Jukia Felix Ferreira, conhecido como “Pablo Russo”, Giovanni Gaspar Fernandes e José Carlos Alves de Souza Júnior; e o secretário municipal de Ordem Pública de Belford Roxo, Christiano Gaspar Fernandes.

Segundo a Polícia Federal, Canella atuava como elo entre o núcleo econômico da organização criminosa, agentes públicos e estruturas políticas. As investigações apontam que o deputado eleito seria beneficiário recorrente de valores provenientes das atividades ilícitas do grupo.

Além disso, Canella ainda teria usado sua influência política para viabilizar a ocupação de cargos estratégicos na administração pública por pessoas alinhadas aos interesses do grupo, proporcionando-lhe proteção institucional.

De acordo com a PF, ele teria capitaneado a indicação de Marcus Vinicius Amim Fernandes para a presidência do Detran do Rio e, posteriormente, para a Secretaria de Polícia Civil, articulando, inclusive, alteração legislativa na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) para viabilizar sua nomeação.

Canella já foi deputado estadual e prefeito de Belford Roxo, na Baixada Fluminense. Nas eleições deste ano, foi eleito deputado estadual como o segundo candidato mais votado do Rio de Janeiro.

Movimentações bancárias

Anotações apreendidas pelos investigadores registram distribuição sistemática de valores identificados pela sigla “Canela” vinculada aos postos Jardim Uba e Auto Posto LP Francis.

A quebra de sigilo bancário evidenciou que, entre maio de 2025 e abril de 2026, Canella movimentou cerca de R$ 2,5 milhões em créditos, dos quais R$ 1,4 milhões têm origem não esclarecida na empresa Brumar Empreendimentos e Participações Ltda., com repasses subsequentes a familiares e a integrantes do seu círculo político.

De acordo com a investigação, anotações manuscritas apontam ainda repasses recorrentes em espécie, sem lastro contratual, superiores a R$ 139 mil.

Os delegados responsáveis pela investigação dizem haver indícios suficientes de que Canella teria cometido os crimes de organização criminosa armada e lavagem de capitais.

Os investigadores sustentam que o deputado estadual eleito “figura como beneficiário recorrente de recursos de origem não esclarecida, transitados por estrutura societária formal cuja origem primária as próprias instituições financeiras comunicantes declararam não conseguir estabelecer”.

“Verifica-se que o vasto acervo de relógios de altíssimo valor, associado aos dois veículos de luxo 0 km ou seminovos e às duas motocicletas de grife apreendidos, converge com a hipótese criminal de lavagem de capitais delineada nos autos”, dizem os delegados.

A representação aponta que a hipótese criminal “aponta movimentação global de R$ 7,6 bilhões e comprova que valores de origem ilícita eram destinados ao custeio de despesas pessoais do núcleo político, bem como à aquisição de bens de luxo registrados em nome de terceiros, como estratégia de dissimulação e ocultação patrimonial”.

Deputado eleito já havia sido preso

Canella foi preso em flagrante em julho, na sexta fase da operação, por posse ilegal de arma de fogo após agentes encontrarem um fuzil no veículo do ex-prefeito de Belford Roxo. Na ocasião, Canella afirmou que o fuzil apreendido pertencia ao policial militar responsável por sua segurança.

Três dias após a prisão, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, determinou a soltura do ex-prefeito de Belford Roxo.

A decisão autorizou que Canella respondesse ao processo em liberdade, mediante o cumprimento de medidas cautelares. Entre elas estão o uso de tornozeleira eletrônica, a entrega do passaporte e a suspensão do porte de arma.

Quase um mês depois de ter sido alvo da operação, Canella anunciou que não iria mais concorrer ao Senado pelo Rio de Janeiro.

O político foi o segundo aliado do senador e candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a desistir de uma vaga no Senado após ser alvo de operação da PF – o outro havia sido Claudio Castro (PL-RJ).

Outro lado

Em nota, a Corregedoria-Geral de Polícia Civil (CGPOL) informou que participa da operação, em apoio à Polícia Federal, e não compactua com qualquer desvio de conduta.

“A Polícia Civil não compactua com qualquer desvio de conduta e adota, de forma rigorosa, as medidas administrativas e disciplinares cabíveis diante de indícios de irregularidades. A instituição mantém atuação integrada com outras forças de segurança e órgãos de controle, respeitando as atribuições de cada instituição, para garantir a apuração dos fatos e a responsabilização dos envolvidos, quando cabível”, afirma, em nota.

A defesa do delegado Marcus Amim também se manifestou: “O advogado Thiago Minagé aguarda acesso ao Dr. Marcus Amim e à decisão para prestar os devidos esclarecimentos”.

Já a defesa dos presos Giovanni Gaspar Fernandes e Christiano Gaspar Fernandes afirmou que não teve acesso aos autos e que os dois ficaram surpresos com a prisão.

A CNN Brasil tentou contato com a defesa dos outros citados.

Teo Cury e Bruna Lopes

Compartilhar: