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Mais etanol, mas para quem? A grande incógnita do biocombustível, segundo o Bradesco

Money Times 5 min de leitura

O Brasil vem ampliando sua capacidade de produzir etanol, impulsionado pelos investimentos em usinas de milho. A grande pergunta para o futuro do setor, porém, está no destino dessa oferta: quem vai consumir o combustível em um mercado no qual a eletrificação dos veículos avança e desafia a demanda?

Para o especialista de agro do Bradesco — Pesquisa Econômica, Filipi Cardoso, desenvolver novos usos para o biocombustível será fundamental para absorver a produção e dar maior previsibilidade aos investimentos.

“Quando a gente olha para novos projetos de etanol, a nossa pergunta é: esse etanol vai ser vendido para quê?”, afirmou Cardoso, durante o painel “O dilema do etanol no Brasil: sobreoferta ou sobredemanda?”, na 9ª Conferência NovaCana.

A preocupação envolve duas tendências que avançam simultaneamente: de um lado, o crescimento da oferta, sobretudo com as usinas de milho; de outro, a eletrificação da frota, que pode reduzir o consumo de combustíveis nos automóveis. Nesse cenário, ganhar participação sobre a gasolina pode não ser suficiente para resolver a equação de longo prazo.

O especialista vê oportunidades na navegação e no maquinário agrícola, mas, segundo ele, transformar esses usos potenciais em demanda efetiva depende de investimentos, regulamentação e escala.

Etanol de milho concentra incertezas sobre a oferta

Na avaliação de Cardoso, a produção de etanol de cana já tem uma estrutura consolidada, com o clima como principal fonte de incerteza sobre a produtividade. No milho, o desafio é dimensionar até onde a expansão pode chegar.

“A grande incógnita que a gente tem é o mercado de etanol de milho”, disse.

Segundo as projeções apresentadas, a produção de etanol de milho deve ficar entre 12 bilhões e 13 bilhões de litros na safra 2026/27, podendo alcançar 23 bilhões a 24 bilhões de litros em 2035/36.

Nesse horizonte, o milho poderia responder por aproximadamente 42% a 43% da produção de etanol, ainda com capacidade disponível para produzir mais, caso existam condições de preço e demanda.

Os investimentos também avançam para além do Centro-Oeste, com projetos no Matopiba e no Sul. Segundo o especialista, esse movimento acompanha a produção de milho e pode reduzir os custos logísticos do abastecimento de etanol nessas regiões.

A expansão, contudo, aumenta a necessidade de encontrar mercados para o combustível. Pelas contas apresentadas, o superávit de etanol deve crescer nos principais estados produtores até 2035. Em Mato Grosso, poderia se aproximar de 11 bilhões de litros.

Eletrificação desafia o consumo

Do lado da demanda, Cardoso afirmou que a eletrificação da frota avança mais rapidamente do que o Bradesco estimava dois anos atrás.

A projeção apresentada considera que os veículos eletrificados, incluindo híbridos e híbridos plug-in, podem alcançar aproximadamente 50% das vendas a partir de 2030. Em um horizonte de dez anos, sua participação na frota superaria 30%.

Entre os fatores que sustentam esse movimento, o especialista citou a competitividade das fabricantes chinesas, a chegada de modelos mais acessíveis e a possibilidade de queda dos juros, favorecendo a renovação da frota.

Nas contas apresentadas, a eletrificação representa uma redução potencial de 12 bilhões de litros no consumo de combustíveis do ciclo Otto, utilizados por automóveis a gasolina e etanol, no horizonte analisado.

O banco ainda vê espaço para o etanol hidratado ganhar participação, especialmente com a produção mais próxima de novos mercados. O desafio é que esse avanço ocorreria em um mercado de combustíveis pressionado pela eletrificação.

Mais usinas também significam maior disputa pelo milho

Além de encontrar compradores para o etanol, as usinas precisarão garantir matéria-prima em um mercado mais disputado.

No cenário de capacidade projetado pelo banco para 2035, o potencial de demanda de milho das usinas se aproxima de 95 milhões de toneladas. As empresas terão de competir pelo grão com compradores como a pecuária e o mercado externo.

“O milho vai ficar mais caro conforme a gente tenha tanto a demanda doméstica quanto a demanda internacional”, afirmou.

Para Cardoso, a necessidade de oferecer um prêmio para manter o milho no mercado doméstico pode reduzir a rentabilidade das usinas no longo prazo. O custo da biomassa também entra nessa equação.

O especialista ponderou, porém, que as receitas com coprodutos, como DDG e óleo de milho, precisam ser consideradas e podem contribuir para os resultados das empresas.

Navegação e máquinas agrícolas podem ampliar a demanda

Para reduzir a dependência do consumo nos automóveis, Cardoso apontou o transporte marítimo e o maquinário agrícola como alternativas para desenvolver uma demanda mais previsível para o etanol.

Na navegação brasileira, um exercício apresentado pelo especialista indica que uma participação de 10% de etanol poderia representar consumo de aproximadamente 3 bilhões a 4 bilhões de litros até 2035, considerando a equivalência energética.

A concretização desse potencial exige regulamentação, infraestrutura de armazenagem e mistura nos portos, além de projetos que ampliem a escala de utilização. “A gente precisa de ação para que isso aconteça”, afirmou.

No campo, Cardoso destacou o desenvolvimento de máquinas movidas a etanol e estimou que o agro consome cerca de 6 bilhões de litros de diesel por ano. Em um cenário hipotético de substituição integral desse volume, o potencial se aproximaria de 11 bilhões de litros de etanol, segundo seus cálculos.

Além de ampliar o mercado do biocombustível, essa substituição poderia contribuir para a segurança do abastecimento e reduzir a exposição do agro às incertezas do mercado de diesel, avaliou.

O combustível sustentável de aviação, o SAF, também representa uma oportunidade, mas foi colocado pelo especialista em um horizonte mais longo, diante da necessidade de investimentos adicionais em infraestrutura.

Na avaliação de Cardoso, desenvolver esses mercados daria às usinas melhores condições de planejamento de longo prazo e reduziria a dependência da disputa com a gasolina pelo consumidor.

Pasquale Augusto

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