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Indígenas são resgatados de condições análogas à escravidão em canavial do Paraná

Número total de vítimas, segundo Auditoria-Fiscal do Trabalho, é de 57; todas são de Mato Grosso do Sul


G1 - Publicado: 22 Out 2025 - 15:56 | Atualizado: 23 Out 2025 - 11:49
Indígenas são resgatados de condições análogas à escravidão em canavial do Paraná

Vítimas saíram de Mato Grosso do Sul e foram abandonadas em alojamento no Paraná, sem salários

Em Itambé, no norte do Paraná, 57 trabalhadores foram resgatados de condições análogas à escravidão. Deste número, 46 são indígenas da etnia Guarani Kaiowá.

A operação foi coordenada pela Auditoria-Fiscal do Trabalho. A ação teve início no dia 16 de outubro de 2025, mas foi compartilhada nesta quarta-feira, 22.

Os trabalhadores saíram do Mato Grosso do Sul com a promessa de trabalhar em uma usina de cana-de-açúcar em São Pedro do Ivaí, com um contrato feito por uma empresa terceirizada. O processo seletivo foi realizado em três aldeias.

O trabalho no Paraná começou em julho, mas foi encerrado e as vítimas foram abandonadas no alojamento.

O nome da empresa não foi divulgado e, por isso, o G1 não conseguiu identificar as defesas.

Segundo a secretaria de inspeção do trabalho, do Ministério do Trabalho e Emprego, as vítimas estavam sem alimentação, transporte ou itens básicos de higiene. Para que conseguissem se alimentar, dependiam de doações.

Elas também não recebiam salário, estavam sem registro na Carteira de Trabalho e Previdência Social e não passaram por exames de admissão.

Os quartos não possuíam espaço adequado ou armários, além de acumular lixo. Um dos trabalhadores foi picado por uma aranha neste alojamento e foi hospitalizado.

Os auditores-fiscais do Trabalho identificaram que houve trabalho escravo tanto em relação à usina tomadora quanto à empresa terceirizada.

Em negociação com o Ministério Público do Trabalho (MPT) e a Polícia Federal (PF), a usina se comprometeu a quitar todas as verbas salariais e rescisórias. A Secretaria de Inspeção do Trabalho afirmou que também apura responsabilidade criminal e de danos morais coletivos.

As vítimas irão retornar às localidades de origem. “Este foi o maior resgate de trabalhadores em condições análogas à escravidão registrado no Paraná nos últimos anos”, diz a nota da secretaria de inspeção do trabalho.

Indígenas saíram de aldeias por promessa de trabalho

De acordo com a secretaria de inspeção do trabalho, os trabalhadores foram contratados por uma empresa que presta serviço no corte de cana-de-açúcar, que tem sede em São Paulo. O serviço prometido era em uma usina de açúcar localizada em São Pedro do Ivaí, cidade a 34 quilômetros de distância de Itambé.

Antes de saírem do estado, segundo as informações divulgadas, as vítimas foram obrigadas a comprar produtos em um supermercado local, com o acordo de que o valor seria descontado dos salários.

Esta prática caracterizou um sistema de servidão por dívida – quando um trabalhador adquire uma dívida que deve ser paga com mão de obra. Com os depoimentos colhidos, a secretaria de inspeção do trabalho estima que a essa dívida seja de aproximadamente R$ 45 mil.

A partir disso, o trabalho no Paraná começou no dia 14 de julho.

Com o rompimento contratual entre as empresas, os trabalhadores foram impedidos de entrar na usina e abandonados no alojamento, sem alimentação.

O aluguel do local também não estava sendo pago, conforme a nota divulgada.

Como denunciar

O Sistema Ipê, disponível pela internet, é um canal específico disponibilizado pela Organização Internacional do Trabalho para denúncias de trabalho análogo à escravidão.

O denunciante não precisa se identificar, basta acessar o sistema e inserir o maior número possível de informações.

A ideia é que a fiscalização possa, a partir dessas informações do denunciante, analisar se o caso de fato configura trabalho análogo à escravidão e realizar as verificações no local.