Financeiro

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Itaú BBA projeta safras mais doces para a Jalles, eleita “top pick” entre sucroenergéticas

Banco iniciou a cobertura da ação da empresa com recomendação de compra e projetando alta de quase 40% até o fim do ano, mesmo com safra ainda difícil


AgFeed - Publicado: 03 Fev 2026 - 09:09

Ainda há espaço para apostar no setor sucroenergético. Mesmo diante de um ano ruim para o setor de cana, com produtividades mais baixas nos canaviais do Centro-Sul e um tombo global nos preços de açúcar, o Itaú BBA achou uma luz no fim do túnel. E a justificativa não está no presente, e sim no futuro.

Em relatório publicado nesta segunda-feira, 2, os analistas Gustavo Troyano, Bruno Tomazetto e Ryu Matsuyama, iniciaram a cobertura da Jalles, já colocando a empresa como a ação preferida do setor e com recomendação de compra. O preço-alvo da ação JALL3 é de R$ 4 ao final do ano para os analistas, o que traria uma valorização de cerca de 38% frente o preço atual.

A tese dos analistas é que a Jalles é a empresa “mais protegida no setor de açúcar e etanol”, mesmo com um cenário apontado como desafiador no curto prazo e com “menor apetite de investidores e um ambiente de preços menos favorável”.

“Essa visão relativa dentro do setor decorre da combinação de excelente eficiência operacional, apoiada por sistemas de irrigação, e base de receita mais resiliente, impulsionada pelo segmento de açúcar orgânico e por posições de hedge mais alongadas”, diz o relatório.

O momento atual desafiador para o setor é compartilhado pelo banco, que vê uma geração de caixa limitada no curto prazo. Para a safra 2025/26, a perspectiva dos analistas é que a Jalles fature R$ 2,07 bilhões, resultado em linha com o consenso dos analistas de mercado e 10% menor que na temporada 2024/25, quando a receita líquida foi de R$ 2,33 bilhões no acumulado do ano.

Para os próximos anos, contudo, a perspectiva do Itaú BBA é que a Jalles retome um rumo de crescimento: R$ 2,29 bilhões de receita na safra 2026/2027 e R$ 2,62 bilhões na temporada seguinte.

“Vemos potencial para uma taxa de crescimento anual composta do resultado operacional (Ebit) ajustado de 25% entre 2026 e 2030, sustentada principalmente pelo aumento da utilização da capacidade na unidade Santa Vitória e consequente normalização de margens no consolidado”, afirmam os analistas liderados por Gustavo Troyano.

O banco acredita que há espaço para a empresa “destravar valor” na Santa Vitória, ativo considerado diferenciado e que “pode transformar o perfil de resultados da empresa nos próximos anos”.

A usina foi adquirida – junto a uma unidade de cogeração de energia – por pouco mais de R$ 700 milhões após o IPO da empresa realizado em 2021, quando a Jalles captou R$ 691 milhões com investidores.

Na safra atual, a planta localizada no Triângulo Mineiro avançou na produção de açúcar VHP – açúcar bruto com alto teor de sacarose e, consequentemente, de maior valor agregado. A produção atingiu 135,1 mil toneladas, 34,4% a mais em um ano.

“O cluster de Santa Vitória representa um vetor relevante de geração de valor para os próximos anos, tanto por meio de novos projetos, como a expansão da irrigação, quanto pela melhoria da eficiência geral da planta”, diz o relatório do Itaú BBA.

Os analistas citam que o desafio desde a aquisição foi atingir a produtividade (em toneladas de cana por hectare) esperada, algo que tem sido corrigido, chegando cada vez mais próximo do ideal.

“Acreditamos que o aumento da produtividade e da eficiência da Santa Vitória deve se tornar um dos principais impulsionadores de valorização da tese de investimento da Jalles Machado no médio e longo prazo”, diz o Itaú BBA.

Outro ponto que reforça a tese positiva do BBA em relação à Jalles é a diversificação nas vendas de produtos “não-commoditizados”, como açúcar orgânico, etanol orgânico, produtos de sanitização e créditos de carbono. O banco calcula que 23% da receita da empresa está ligada a esses segmentos hoje.

“O profundo know-how técnico e operacional adquirido pela empresa cria barreiras significativas para novos entrantes, já que a produção de açúcar orgânico exige um controle agrícola mais rigoroso, padrões industriais mais elevados, tecnologias específicas para certificações internacionais e um intervalo maior entre o início da operação e a venda final”, diz o relatório.

O BBA relembra que outras empresas abandonaram o segmento orgânico nos últimos anos e que esse é um segmento que tem uma dinâmica própria de preços e independente do ciclo do açúcar tradicional. “Períodos de queda global nos preços do açúcar tendem a impactar menos a receita da Jalles, proporcionando maior proteção, menor volatilidade e uma geração de caixa mais estável ao longo do tempo”, afirma.

Nesta safra, contudo, o segmento apontado como diferencial sofreu com uma particularidade: o tarifaço de Donald Trump.

A empresa sinalizou, quando divulgou o balanço do primeiro trimestre da safra 2025/26, que as tarifas de importação dos Estados Unidos para alguns produtos brasileiros teriam fortes impactos na produção, projetando perdas financeiras de até R$ 25 milhões.

A empresa citou que teve que reclassificar de 15 mil a 20 mil toneladas originalmente destinadas à exportação, que passaram a ser rotuladas como açúcar cristal e vendidas com menor valor no mercado interno.

O volume de açúcar orgânico comercializado cresceu 92,8% no primeiro trimestre do ano-safra, com as vendas chegando a 26,4 mil toneladas, ante 13,7 mil toneladas há um ano. Dos R$ 574,5 milhões de receita operacional bruta registrados pela Jalles no período, R$ 96,7 milhões corresponderam a vendas de açúcar orgânico para o mercado externo.

Considerando o primeiro semestre da safra 2025/26 até agora (de abril a setembro de 2025), na missão de se antecipar à tarifa, a Jalles acelerou embarques e viu a receita com açúcar orgânico no mercado externo disparar 83,4% no semestre, para R$ 167,3 milhões.

Gustavo Lustosa