Agência destaca modelo de negócios da empresa e afirma que mix de produtos dão à companhia de Goiás perfil de crédito mais atraente que a média do setor sucroalcooleiro
Em relatório, a agência de controle de risco Fitch Ratings analisou a situação financeira do grupo Jalles Machado, que controla duas usinas em Goianésia (GO). O destaque do documento é o aumento da nota da empresa no índice de probabilidade de inadimplência do emissor de longo prazo (Issuer Default Ratings ou IDRs na sigla em inglês).
O indicador da usina foi elevado de B+ para BB-, saindo, portanto, da categoria de investimento altamente especulativo. Já o índice nacional de longo prazo passou de A-(bra) para A(bra). Ainda segundo a agência, a perspectiva dessas classificações é estável, ou seja, é provável que essas notas sejam mantidas na próxima avaliação.
O relatório prevê que a Jalles Machado moerá 4,5 milhões de toneladas de cana na safra 2018/19 – 5% a mais do que as 4,3 milhões de toneladas da safra anterior. Segundo o documento, as condições climáticas mais favoráveis levaram a produtividade canavieira da companhia de volta a patamares históricos, indo de 72,9 toneladas por hectare em 2016/17 para 84,6 t/ha em 2017/18.
O principal argumento a favor da nova nota da Jalles Machado se baseia no modelo da empresa capaz de mitigar o impacto dos baixos preços do açúcar esperados para 2018. Os detalhes na reportagem a seguir.
E mais:
- Aumento na moagem: investimentos e perspectivas
- Perspectivas financeiras
- Fluxo de caixa positivo – mas nem tanto
- Análise do modelo de negócio
- Estimativa de índice de alavancagem e de evolução das dívidas
Em relatório divulgado no último dia 05 de abril, a agência de controle de risco Fitch Ratings analisou a situação financeira do grupo Jalles Machado, que controla duas usinas em Goianésia (GO). O destaque do documento é o aumento da nota da empresa no índice de probabilidade de inadimplência do emissor de longo prazo (Issuer Default Ratings ou IDRs na sigla em inglês).
O indicador da usina foi elevado de B+ para BB-, saindo, portanto, da categoria de investimento altamente especulativo. Já o índice nacional de longo prazo passou de A-(bra) para A(bra). Ainda segundo a agência, a perspectiva dessas classificações é estável, ou seja, é provável que essas notas sejam mantidas na próxima avaliação.
O relatório prevê que a Jalles Machado moerá 4,5 milhões de toneladas de cana na safra 2018/19 – 5% a mais do que as 4,3 milhões de toneladas da safra anterior. Segundo o documento, as condições climáticas mais favoráveis levaram a produtividade canavieira da companhia de volta a patamares históricos, indo de 72,9 toneladas por hectare em 2016/17 para 84,6 t/ha em 2017/18.
“A Fitch acredita que a capacidade da Jalles Machado para desviar 60% da cana moída da sacarose para a produção de etanol, além da presença do açúcar orgânico na carteira de produtos mitigarão o impacto da pressão sobre os preços do açúcar, esperada para 2018, no fluxo de caixa operacional da companhia”, descreve o texto.

Perspectivas financeiras favoráveis
A elevação da classificação demonstra a expectativa da Fitch de que a Jalles Machado continuará gerando fluxo de caixa operacional (FCO) e margens operacionais (FFO) consistentes nos próximos quatro anos, com uma alavancagem líquida moderada, comparável à de outras usinas com índice BB-.
A agência também vê com bons olhos o perfil de liquidez da companhia, sustentado por seu histórico e por sua capacidade de acesso a diferentes fontes de captação financeira com prazos adequados. A classificação incorpora, ainda, a projeção da agência de que a sucroalcooleira aumentará gradualmente seus volumes de moagem de cana-de-açúcar, investindo para elevar a capacidade total para 5 milhões de toneladas, gerando fluxo de caixa livre (FCF) positivo para o ciclo 2018/2019.
Mas a volatilidade naturalmente alta do setor de açúcar e etanol, bem como as limitações de captação de recursos, continuam dificultando que as notas de empresas saiam do patamar especulativo. Ainda assim, a Fitch avalia que modelo de negócios da Jalles Machado está acima da média do setor, sendo fortalecido pela construção de mais uma unidade de produção de açúcar ligada à usina Otavio Lage.
Fluxo de caixa positivo – mas nem tanto
Pelas projeções da Fitch, a companhia goiana ficará próximo ao ponto de equilíbrio financeiro no ano fiscal encerrado em 31 de março de 2018, mesmo com um fluxo de caixa livre negativo em R$ 102 milhões. Para o ciclo seguinte, o saldo será positivo na casa dos R$ 19 milhões.
A manutenção de uma fraca posição de caixa no terceiro trimestre do exercício fiscal de 2018 foi, segundo a Fitch, motivada em grande parte pela estratégia de aumentar os estoques diante da expectativa de elevação dos preços do açúcar e etanol na entressafra. “A estratégia deu certo, uma vez que os preços do etanol aumentaram substancialmente no último trimestre do exercício de 2018”, afirma o relatório.
Com isso, caixa e dívida de curto prazo totalizaram R$ 162 milhões e R$ 402 milhões, respectivamente, no terceiro trimestre do ano fiscal de 2018, e a companhia reportou uma posição de estoques tida pela agência como “robusta”, de R$ 347 milhões, a valores de mercado.
Por sua vez, o fluxo de caixa operacional totalizou R$ 285 milhões no período de 12 meses encerrado em 31 de dezembro de 2017 – um aumento de 13% em relação aos R$ 252 milhões do mesmo período do ano anterior.
O montante, contudo, foi insuficiente para cobrir os investimentos de R$ 387 milhões da Jalles Machado na Usina Otavio Lage, que foram direcionados para a nova unidade de produção de açúcar – já concluída – e para a expansão da área dos canaviais, com o objetivo de aumentar a capacidade de moagem da usina de 1,8 milhões de toneladas para 2,2 milhões de toneladas de cana-de-açúcar por safra.
Modelo de negócios é um ponto forte
Conforme a Fitch, a Jalles Machado oferece uma carteira de produtos diversificada, que contribui para margens de Ebitdar que chegam a superar a média de 75% vista no setor. No período de 12 meses encerrado em 31 de dezembro de 2017, as receitas líquidas diminuíram cerca de 2%, indo para R$ 692 milhões, e o Ebitdar totalizou R$ 545 milhões, com margem de 79%.
“A produção de itens de alto valor agregado da companhia inclui açúcar orgânico e açúcar cristal de marca, que detêm relevante participação no varejo das regiões Norte e Nordeste do Brasil”, aponta o documento. O relatório detalha que os preços desses produtos são elevados em relação ao açúcar bruto (VHP). Outros produtos da companhia incluem ainda etanol hidratado, anidro e industrial, além de saneantes e fermento seco.
As altas margens operacionais também refletem os incentivos fiscais concedidos pelo estado de Goiás para venda de açúcar e etanol. No período entre abril e dezembro de 2017, os incentivos do poder público estadual somaram R$ 42 milhões ao Ebitdar da Jalles Machado.
A Fitch ainda levantou que, após a conclusão dos investimentos na nova fábrica de açúcar, em 2017, a companhia registrou proporções de produção mais equilibradas entre seus principais produtos, com 46% de açúcar e 54% de etanol na safra 2017/2018. Em 2016/17, esses índices foram de 38% e 62%, respectivamente. “A companhia agora é capaz de oferecer um mix de produtos mais equilibrado”, aponta o documento.

Outro fator são os baixos custos de arrendamento de terras na região de Goianésia, especialmente se comparados à média do estado de São Paulo. Segundo a agência, a autossuficiência em cana-de-açúcar tem impacto contábil positivo nas margens da Jalles Machado e, como as despesas referentes aos canaviais são contabilizadas como investimentos e não como custos, quanto maior a parcela de cana própria na produção, maiores serão os investimentos e menor será o impacto sobre o Ebitdar.

Para fins de comparação, a Fitch cita a Tereos Unión de Cooperatives Agricoles a Capital Variable, uma companhia estrangeira com nota BB e perspectiva estável, situada um patamar acima da Jalles Machado (BB-).
Segundo o documento, a empresa francesa tem uma classificação melhor devido ao modelo sólido de negócios sustentado pelo alto grau de diversificação geográfica e de produtos, além da capacidade de usar matérias-primas de diferentes fontes e países, principalmente da Europa Ocidental e do Brasil, mas também da região do Oceano Índico e da Ásia. A gama de produtos também é variada: açúcar de beterraba, cana de açúcar, adoçantes e amidos.

Alavancagem em queda e dívida estável
O texto traz, ainda, perspectivas de que a Jalles Machado reportará alavancagem líquida ajustada em torno de 2,0 vezes em 2018 e de 1,9 vez em 2019, uma ligeira melhora frente às 2,1 vezes de março de 2017 e às 2,5 vezes em 31 de dezembro de 2017.
A redução do índice de alavancagem na safra atual, de acordo com as projeções da Fitch, reflete a expectativa de um Ebitdar mais elevado e níveis estáveis para a dívida líquida. Ao final de 2017, a dívida consolidada ajustada, incluindo obrigações relativas ao arrendamento de terras, era de R$ 1,5 bilhão, sendo que os débitos em dólar respondiam a 20% deste montante. “Os pagamentos de principal e juros até 2020/2021 estão protegidos por uma combinação de ativos denominados em dólares e derivativos”, completa o documento.
A agência acredita que a Jalles Machado reportará caixa e dívida de curto prazo de R$ 420 milhões e R$ 4.270 milhões, respectivamente, no exercício fiscal encerrado em 31 de março de 2018, resultando em um índice caixa/cobertura da dívida de curto prazo de 1,5 vez, considerado robusto pela Fitch.
“Isto reflete o bom acesso da companhia a financiamentos de longo prazo nos mercados domésticos de capitais e bancário e se compara favoravelmente ao índice caixa/cobertura da dívida de curto prazo de 1,0 vez do exercício fiscal de 2017”, aponta o relatório.
Nicholle Murmel – NovaCana