Investimento

Investimento

Analistas veem custo de capital elevado no setor sucroenergético

Conflito no Oriente Médio e até mesmo recuperação extrajudicial da Raízen deixam investidores alertas; esperança está em novos mercados


NovaCana - Publicado: 16 Abr 2026 - 14:29 | Atualizado: 17 Abr 2026 - 07:22

O conflito no Oriente Médio, a inflação e a curva futura de juros são fatores que podem manter o custo de capital das sucroenergéticas elevado. Outro item que aumenta a atenção dos investidores é o pedido de recuperação extrajudicial da Raízen, protocolado em março. A análise é de fontes ouvidas pelo Valor Econômico.

“A recuperação extrajudicial traz aumento do risco de confiança, os investidores e financiadores passam a olhar o setor com mais cautela e analisar como está a alavancagem da indústria. Isso se combina a um cenário maior que tem recuperações de empresas de outros setores e dúvidas sobre a queda da taxa de juros no Brasil”, afirma o presidente da Organização de Associações de Produtores de Cana do Brasil (Orplana), José Guilherme Nogueira, à reportagem.

Conforme aponta a apuração, as empresas com a relação entre dívida líquida e geração de caixa superior a três vezes estarão mais pressionadas. A reestruturação financeira pode resultar em uma maior seletividade de crédito e cautela nos contratos de longo prazo em um momento que os custos dos insumos – como fertilizantes nitrogenados e diesel – estão pressionados pela instabilidade geopolítica no Irã e no Golfo Pérsico.

Dados recentes divulgados pela Serasa Experian expressam que 2,5 mil empresas chegaram a processos de recuperação judicial no ano passado com os setores agrícola e de serviços concentraram a maioria deles, de acordo com a reportagem. 

Conforme a Orplana, o agronegócio foi influenciado em 2025 por choques de preços de commodities, insumos dolarizados, exposição ao câmbio e um ciclo financeiro mais longo de safra-entressafra, que amplificou a volatilidade de receita e caixa, de acordo com o apontado pelo Valor.

O resultado foi um aperto na margem e na capacidade de pagamento ao longo de toda a cadeia. Além disso, em março, o Banco Central fez a primeira redução da taxa básica de juros desde maio de 2024, com um corte de 0,25 ponto percentual, para 14,75% ao ano.

No começo deste mês, incusive, a expectativa de inflação era de 4,36%, enquanto na primeira semana de março a previsão era de 3,91%, fator que pode desembocar em uma redução da Selic menor que os 12,5% previstos para até o fim de 2026. “O custo do dinheiro mais elevado muda a forma como os investimentos são priorizados”, diz Nogueira.

Novos mercados

O diretor da consultoria Canaplan, Luiz Carlos Corrêa Carvalho, relata que os países asiáticos, os maiores consumidores dos energéticos que circulam pelo Estreito de Ormuz, buscam aumentar mandatos de uso de biocombustíveis e diversificar suas matrizes, dando mais espaço para o etanol mundialmente.

O Vietnã, conforme relembra a reportagem do Valor, quer adotar a mistura de 10% de biocombustíveis a partir de junho, enquanto a Indonésia prevê ampliá-la de 40% para 50% no segundo semestre. Ambos podem encontrar dificuldade para atender à demanda com produção própria.

Além disso, países como o Japão e a Austrália também querem começar a adotar o biocombustível.

Os produtores de biocombustíveis ainda olham para os segmentos de transporte marítimo e aéreo e para biogás. Conforme a reportagem, no primeiro caso, a guerra pode ter impacto sobre o combustível sustentável de aviação.

Responsável por 2% das emissões mundiais, o setor aéreo detém a meta se tornar carbono neutro até 2050. Mas o objetivo não deve ser fácil, considerando que países aumentam orçamentos de defesa, têm políticas fiscais restritas e cortam subsídios, de acordo com as fontes ouvidas pelo Valor.

Segundo estudo da Conferência de Aviação Civil Europeia, o custo é a principal barreira de adoção do SAF, até seis vezes mais caro que o querosene de aviação.

Já o biogás é outra fronteira que pode ser explorada. Estudo da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) alega que o estado poderia produzir cerca de 6,4 milhões de metros cúbicos por dia de biometano, o equivalente a 32% do consumo de gás natural em São Paulo.

“É um mercado que pode ser importante, mas um fabricante de vidro parou de usar por conta do preço. A infraestrutura de transporte é outro ponto de atenção”, disse o presidente da Associação Brasileira da Indústria do Vidro (Abividro), Lucien Belmonte, ouvido pelo Valor.

NovaCana
Com informações Valor Econômico