2ª Geração

2ª Geração

Investidores desapareceram do etanol celulósico, mas, ainda assim, mercado verá nova onda de expansão


NovaCana - Publicado: 07 Abr 2017 - 10:33 | Atualizado: 24 Jul 2020 - 11:33

As usinas de etanol celulósico estão vivendo anos difíceis, não apenas pela falta de domínio da tecnologia, mas também porque os investimentos secaram. A expectativa dos pioneiros não se misturou muito bem com a realidade e a indústria no mundo todo acabou caindo em um certo descrédito.

Mas, para quem observa esse mercado nascente de perto, a dura realidade atual deve dar lugar a uma retomada gradual. Gradual mas intensa, conforme um recente estudo realizado pelos mesmos especialistas que fizeram uma das análises mais interessantes sobre o estado da arte do etanol celulósico no mundo. 

A Lux Research, consultoria com base em Boston (EUA), se debruçou sobre a o futuro dos biocombustíveis no mundo (incluindo etanol de 1ª geração e biodiesel) para, entre outros motivos, determinar se as usinas atuais terão mercado aquecido e se vale a pena colocar mais dinheiro na produção. Os pontos relacionados ao etanol de primeira geração podem ser acessados na reportagem “Etanol é a melhor opção para investimentos em biocombustíveis no curto e médio prazo”.

Especificamente com relação ao etanol de segunda geração, a Lux Research destacou que, desde que Beta Renewables e Novozymes saíram na frente com seus projetos de etanol celulósico, essa tecnologia acabou perdendo força e, atualmente, menos de 5% da capacidade produtiva está sendo utilizada. “Embora isso não signifique que a tecnologia tenha falhado comercialmente, sua incapacidade de produzir em larga escala após dois anos prejudicou os futuros investimentos no etanol de segunda geração”, afirma o estudo.

Em entrevista ao novaCana, o pesquisador que liderou o estudo, Runeel Daliah, disse que, “mesmo com o início da produção de E2G, os problemas para chegar à escala comercial fizeram cair o apetite dos investidores para expansões”.

Apesar disso, o E2G deve continuar se desenvolvendo. A consultoria projeta que ele terá um crescimento anual de 18,1% até 2022. Com isso, a capacidade produtiva deve chegar a 4,9 bilhões de litros no mundo.

Considerando diferentes matérias-primas, atualmente existem 95 plantas de etanol de segunda geração em 19 países, sendo que a maior parte delas é de pequena escala ou de demonstração, totalizando uma capacidade anual de 1,5 bilhão de litros.

Para os próximos cinco anos, a expectativa é que China, Estados Unidos e Índia vejam os maiores crescimentos, com 75 novas unidades e aumentos de, respectivamente, 1,1 bilhão, 757 milhões e 566 milhões de litros em suas capacidades. Isso significa que o tamanho médio dessas novas unidades, na expectativa dos especialistas, ficará em torno de 32 milhões de litros por ano, ou seja, ainda serão de pequeno porte.

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“Dois problemas afetam não apenas o E2G, mas a indústria de biocombustíveis avançados como um todo: disponibilidade de matéria-prima e tecnologia comercialmente viável”, aponta o pesquisador.

Runeel Daliah faz questão de destacar que o Brasil tem um potencial já estabelecido para a indústria de açúcar e etanol, o que gera muitas oportunidades para a biomassa e combustíveis avançados. Ele ressalta que o Brasil já conta com uma grande quantidade de bagaço de cana-de-açúcar, o que beneficia o etanol celulósico – a única barreira, então, é a tecnologia. “Entretanto, é comum que novas tecnologias demorem de três a cinco anos para se tornarem comercialmente viáveis”, comenta.

Apesar dos problemas da tecnologia nessa fase inicial, a consultoria está mesmo otimista em relação ao potencial futuro envolvendo o E2G. “Embora o governo esteja apoiando mais o crescimento dos combustíveis avançados, esse atraso está impedindo o Brasil de alcançar seu verdadeiro potencial para uso da biomassa”, completa.

“O Brasil é o mercado mais estabelecido para o etanol no mundo. Por ser quimicamente igual ao E1G, a distribuição do E2G já está dada”, Runeel Daliah

Biomassa celulósica irá além do E2G

Seguindo essas tendências, matérias-primas como cana-de-açúcar, milho e trigo devem representar cerca de 40% das expansões realizadas nos próximos cinco anos, enquanto óleos vegetais e resíduos devem vivenciar uma desaceleração. Ainda assim, a biomassa celulósica permanece com perspectivas positivas e, segundo a Lux Research, ela deixará de representar 10,1% do mercado e passará para 18,8% até 2021.

Conforme explica Daliah, o crescimento na produção de cana-de-açúcar também resulta no aumento da disponibilidade de biomassa no Brasil. “No mundo, o país continuará sendo o líder sucroenergético, com países como Índia e Tailândia se espelhando em seus resultados para moldar sua própria indústria e sua bioeconomia”, afirma.

Considerando apenas os biocombustíveis avançados, a biomassa celulósica representa 8% da capacidade de produção mundial, com 1,5 bilhão de litros anuais – a China está na liderança por meio de uma capacidade de 757 milhões de litros. A expectativa é que o número mundial avance para 4,5 bilhões de litros até 2022, com os Estados Unidos assumindo a primeira posição com uma capacidade de produção de 1,9 bilhão de litros anuais. Nesse cenário, a China teria 1,5 bilhão de litros de capacidade de produção em 2022.

Outro país de destaque seria a Índia, que atualmente não possui uma capacidade de produção significativa, mas possui potencial para assumir a terceira posição. A perspectiva da Lux Research é de uma expansão acelerada no país, que alcançaria a capacidade de 757 milhões de litros em cinco anos.

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Ainda de acordo com a consultoria, embora a biomassa seja frequentemente associada ao etanol de segunda geração, sua abundância mundial fará com que ela também atraia interesse de processos termoquímicos de conversão, como gaseificação e pirólise. Entretanto, independentemente da tecnologia, a biomassa celulósica enfrenta questões de custo e disponibilidade que ainda precisam ser enfrentadas quando o assunto é uma produção em escala comercial.

“À medida que a logística for otimizada, haverá um crescimento da competição pela biomassa entre processos bioquímicos e termoquímicos”, afirma o estudo, que continua: “Apesar das plantas de E2G em escala comercial que temos hoje, a tendência é que os processos bioquímicos percam espaço rapidamente para os termoquímicos, que oferecem produtos com potencial de alta performance e flexibilidade mercadológica”.

Renata Bossle – novaCana.com