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Insumos agroindustriais devem continuar pesando no bolso do produtor de cana

Segundo análise do Pecege, custos de produção começaram a subir no ano passado e apresentam tendência de alta

NovaCana 12 min de leitura

O mercado de insumos agrícolas e industriais para as plantações de cana-de-açúcar, assim como outras culturas, vem sofrendo com diversos fatores externos que apareceram até mesmo antes do início do conflito entre Rússia e Ucrânia. No quadro atual, os fertilizantes são mais um item na série de incertezas para o setor sucroenergético.

A princípio, 2021 começou com uma esperança de melhora dos números da pandemia de covid-19, que havia paralisado todo o mundo no ano anterior. Além disso, havia uma relativa estabilidade cambial e, ainda, o retorno gradual das atividades econômicas.

Entretanto, com um novo pico da doença, os países tiveram que aumentar novamente suas restrições, impactando todo o mercado e fazendo com que os insumos mais utilizados pelo setor sucroenergético brasileiro tivessem aumentos.

Dentro deste cenário, e considerando também as condições mais atuais, o Programa de Educação Continuada em Economia e Gestão (Pecege) realizou uma edição da Expedição Custos Cana com foco na escalada de preços dos insumos. O evento aconteceu na última quinta-feira, 7.

Em um primeiro momento, os analistas de custos agrícolas do instituto, Danilo Menegatti e Gabriel Casarotti, avaliaram os fatores que, no ano passado, levaram ao aumento do preço dos insumos. De acordo com eles, a relação de troca entre a compra dos fertilizantes e a venda dos produtos fabricados foi descendente no período.

Eles foram seguidos pelo analista Peterson Arias, que destacou projeções de preço para o curto prazo e traçou um panorama de como deve ser esse contexto de compra para a safra que está começando e para a próxima temporada.

Confira no texto completo, exclusivo para assinantes, a análise detalhada do Pecege quanto a alta dos insumos em 2021 e perspectivas para os preços dos fertilizantes e do diesel, além da projeção para a variação cambial nos próximos meses.

O mercado de insumos agrícolas e industriais para as plantações de cana-de-açúcar, assim como outras culturas, vem sofrendo com diversos fatores externos que apareceram até mesmo antes do início do conflito entre Rússia e Ucrânia. No quadro atual, os fertilizantes são mais um item na série de incertezas para o setor sucroenergético.

A princípio, 2021 começou com uma esperança de melhora dos números da pandemia de covid-19, que havia paralisado todo o mundo no ano anterior. Além disso, havia uma relativa estabilidade cambial e, ainda, o retorno gradual das atividades econômicas.

Entretanto, com um novo pico da doença, os países tiveram que aumentar novamente suas restrições, impactando todo o mercado e fazendo com que os insumos mais utilizados pelo setor sucroenergético brasileiro tivessem aumentos.

Dentro deste cenário, e considerando também as condições mais atuais, o Programa de Educação Continuada em Economia e Gestão (Pecege) realizou uma edição da Expedição Custos Cana com foco na escalada de preços dos insumos. O evento aconteceu na última quinta-feira, 7.

Em um primeiro momento, os analistas de custos agrícolas do instituto, Danilo Menegatti e Gabriel Casarotti, avaliaram os fatores que, no ano passado, levaram ao aumento do preço dos insumos. De acordo com eles, a relação de troca entre a compra dos fertilizantes e a venda dos produtos fabricados foi descendente no período.

Eles foram seguidos pelo analista Peterson Arias, que destacou projeções de preço para o curto prazo e traçou um panorama de como deve ser esse contexto de compra para a safra que está começando e para a próxima temporada.

Olhando o passado para projetar o futuro

Os analistas Menegatti e Casarotti trouxeram um diagnóstico das compras de insumos agroindustriais com foco em 2021, ano em que os valores dos produtos começaram a subir vertiginosamente. De acordo com eles, é importante conhecer este contexto para projetar o que está vindo pela frente.

Apesar de ter começado otimista, 2021 trouxe um novo pico da pandemia de covid-19, abalando diversos setores da economia mundial, e inclusive fechando os portos chineses, de onde muitos insumos viajariam até o Brasil.

Entretanto, com o avanço das campanhas de vacinação, a economia apresentou uma nova retomada – e o mercado não estava preparado, o que trouxe um crescimento da demanda enquanto a oferta se manteve limitada. Como consequência, houve uma inflação a nível global.

No segundo semestre do ano, por sua vez, começaram as restrições de importações da Rússia e da China. O país asiático inclusive também estava passando na época por uma crise ambiental e energética, o que dificultou ainda mais o envio de produtos para o exterior.

Também ocorreu uma crise política na Bielorrússia, que resultou em sanções econômicas ao país conhecido pela produção de potássio – um fertilizante importante no setor sucroenergético.

Segundo dados do Pecege, 94% do potássio necessário para o agronegócio é importado, com boa parte vindo da Rússia e Bielorrússia. Juntos, os dois países europeus representam cerca de 37% do volume total do fertilizante de potássio, KCI, produzido mundialmente.

O mercado de fertilizantes

Em relação aos fertilizantes, apontados como maiores vilões dos custos por Casarotti e Menegatti, a alta de preços começou no segundo semestre de 2021. A ureia, por exemplo, começou custando R$ 2 mil por tonelada, mas chegou a ficar próxima dos R$ 5 mil/t ao final do ano. Enquanto isso, o sulfato de amônio saiu, na média, de R$ 1 mil/t para algo próximo dos R$ 4 mil/t.

Os analistas do Pecege afirmaram que, nesse cenário de aumentos, a alternativa biológica para os fertilizantes nitrogenados representou, entre outubro e dezembro, 73% de todo o volume comercializado em 2021. De acordo com eles, isso demonstra que os produtores buscaram outras opções para diminuir seus custos de produção.

Outro substituto apontado por Menegatti e Casarotti foi o esterco de galinha. Entretanto, eles explicam que essa opção tem um efeito a longo prazo na qualidade do solo e deve ser adotada com planejamento prévio de aplicação. Apesar de também ter subido de preço, esse fertilizante se mostrou mais viável, custando pouco mais de R$ 300/t nos últimos meses de 2021.

Já os preços do MAP, principal representante dos fertilizantes fosfatados, e do cloreto de potássio subiram mais de 200% no período. Eles foram influenciados por fatores como o choque na oferta, com as sanções econômicas impostas aos países produtores, e por um dólar altamente valorizado.

No caso do cloreto de potássio, a alternativa apresentada pelos analistas seria a aplicação de vinhaça localizada, subproduto da fabricação de açúcar e etanol das usinas. O método atualmente já vem sendo adotado pelas companhias – a Raízen prevê uma queda de 20% no uso de fertilizantes na próxima safra com uso desses resíduos orgânicos.

Defensivos químicos e biológicos

Na linha dos defensivos químicos, os herbicidas também seguiram a tendência de alta nos preços. O glifosato, que segundo os analistas foi a molécula mais representativa da amostra feita pelo Pecege, teve um aumento brusco devido aos problemas de inflação vivenciados pela China, principal fornecedor brasileiro. O país priorizou seu próprio estoque, o que afetou a oferta global do defensivo.

Em uma estratégia dos produtores, a demanda diminuiu quando o preço subiu – muitos aguardavam uma estabilização que não veio. “Quem não comprou em agosto, teve que comprar mais caro depois”, explica Casarotti. Enquanto isso, os substitutos do glifosato mantiveram uma média de preços e viram o volume comercializado crescer conforme o preço do herbicida avançava ao longo do ano.

Entre os inseticidas, o preço se manteve mais estável, porque, como explicam analistas do instituto, são produtos com procuras pontuais no controle de pragas como a broca e a cigarrinha-da-raízes. Neste caso, os preços acompanharam a movimentação da própria população das pragas e a necessidade de aplicação do produto nos canaviais.

Da mesma forma, os fungicidas seguiram o nível pluviométrico do ano, com picos de preço nos períodos de maiores chuvas, quando ocorre o aumento dos fungos. Os analistas ressaltam que o Brasil ainda não tem suficiência na produção de moléculas, com a maior parte sendo importada. Desta forma, a cotação do dólar impacta diretamente o preço final dos fungicidas.

Por fim, os nematicidas químicos tiveram uma linha estável de preço, com suas alternativas biológicas mantendo as mesmas oscilações do ano.

Os analistas apontam que essas alternativas biológicas estão crescendo no Brasil, o que consideram interessante, afinal, são opções mais baratas e com benefício de médio a longo prazo. Além disso, os inseticidas biológicos não apresentam tanta dependência de importação e isso poderia ser o “pontapé” para o crescimento desse setor no Brasil.

Insumos industriais

Dentro dos insumos industriais, as maiores altas vistas em 2021 foram registradas pelo ácido sulfúrico, a soda caustica e o diesel.

Em relação ao ácido, os analistas do Pecege avaliam que houve uma escalada de preços atípica por conta da retomada da economia e alta do dólar, especialmente sendo um produto ligado ao petróleo.

Enquanto isso, a soda caustica teve um aumento de preços a partir da segunda metade do ano. A tendência, de acordo com Casarotti e Menegatti, é que os valores continuem se elevando para o produto, ou ao menos mantenham uma estabilidade em um patamar mais alto do que o usual.

Já o preço do diesel é influenciado pela dependência de importação por parte do Brasil, o que fez com que os produtores sofressem com os choques de oferta mundial e a taxa de câmbio no ano passado. O óleo, usado em máquinas agrícolas pesadas, chegou a custar R$ 5 por litro.

Índice de relação de troca

Com o aumento vertiginoso dos insumos agrícolas e industriais, o Pecege destacou a mudança na relação de troca entre custos e vendas. Para o cálculo foi usado como base o açúcar total recuperável (ATR) da cana-de-açúcar.

Os analistas explicam que houve uma valorização do ATR, com a quebra da safra e elevação do petróleo Brent, o que impulsionou também os preços do etanol. O cenário também foi afetado pelo câmbio, com o real desvalorizado perante o dólar.

Como a valorização dos insumos foi superior à do ATR, a relação de troca foi pressionada para baixo. Os fertilizantes, por exemplo, representaram 60% dos gastos agrícolas.

Casarotti aponta que os produtores que fizeram uma estratégia de compra e adquiriram insumos ainda no começo de 2021 conseguiram aproveitar um ATR mais elevado e preços mais baratos, mantendo, desta forma, um nível excedente para o final do ano.

Insumos no contexto internacional

Considerando o contexto internacional para relacionar o quadro atual e as perspectivas para os custos de produção do setor, Arias aponta que o conflito no Leste Europeu agravou ainda mais o cenário dos preços já elevados dos fertilizantes. E, com a resistência demonstrada pela Ucrânia, ele não vê a possibilidade de encerramento da guerra em um curto prazo.

Além disso, mesmo com o fim eventual do conflito, as sanções econômicas impostas ainda tendem a continuar por “um tempo considerável”, segundo ele.

O analista também relata que, levando em conta os fertilizantes mais utilizados no setor sucroenergético, o Brasil ainda precisa importar mais de 90% de potássio, 55% de fósforo e 76% de nitrogênio.

Arias ainda aponta para outros fatores externos, como a evolução futura do petróleo Brent. De acordo com projeções do Pecege, para os próximos meses é possível que o preço decline um pouco, mas ele deve permanecer acima de US$ 90 por barril.

Já o câmbio pode experimentar oscilações, com a relação risco-retorno do Brasil se tornando mais favorável. Ainda assim, o ano de eleições presidenciais pode impactar a moeda conforme os riscos relacionados às políticas fiscal e monetária aumentam. A expectativa do instituto é que, até janeiro de 2023, o dólar fique acima dos R$ 5.

Arias também considera o gás natural, produto importado pela Europa diretamente da Rússia e que enfrenta maior resistência quanto a suspensão das aquisições. Os países do hemisfério norte tendem a usar o gás como aquecimento central dos domicílios durante o rigoroso inverno do continente.

Como os valores do gás natural também estão subindo, isso pressiona os preços dos fertilizantes a base de nitrogênio, afinal, essas moléculas são derivadas da amônia obtida a partir da transformação do gás. Esses fertilizantes, Arias aponta, são muito importantes para o desenvolvimento dos canaviais.

Expectativas para os próximos meses

O Pecege projeta que, levando em conta a demanda, os preços globais das commodities agrícolas tendem a permanecer em alta. Assim, o consumo de insumos se manterá mesmo com os altos preços.

Nesse ponto, Arias também trouxe as expectativas em relação aos preços futuros do etanol e do açúcar. O biocombustível, que em março apresentou aumentos de 8,64% segundo o instituto, deve se manter em alta na temporada 2022/23: a estimativa do Pecege é de que o preço fique, em média, a R$ 3,39 por litro no período.

Em contrapartida, o valor do adoçante VHP caiu durante os últimos meses, “motivado pela percepção de boas safras nos principais países produtores”, aponta. Mas, como o avanço do conflito na Europa favorece a fabricação de etanol e, atualmente, avalia-se uma redução na oferta de açúcar, o instituto acredita que o preço médio da commodity para a safra 2022/23 fique em torno de R$ 100 por saca de 50 quilos.

Sobre os insumos, a expectativa é que o diesel caia, podendo voltar a um valor próximo de R$ 3,50/L. Já os fertilizantes e defensivos apresentam uma tendência mais estável, com preços praticamente estabilizados e um impacto menos significativo nos custos de produção do setor sucroenergético. Ainda assim, existe a possibilidade de elevação por parte dos fertilizantes.

Quanto a relação de troca entre custos e venda de produtos, o Pecege acredita que o índice tende a cair quase pela metade durante o ano de 2022, apesar de ter acontecido uma queda no poder aquisitivo das sucroenergéticas.

Em termos de ganho, os produtos podem apresentar um preço um pouco mais limitado, de acordo com Arias.

De acordo com ele, o cenário atual é de incertezas. Assim, conclui que os desafios para o setor neste começo de safra reforçam a “necessidade do aprimoramento constante das estratégias de compra e das práticas no campo”.

Giully Regina – NovaCana

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