A revisão para baixo de dados envolvendo milhões de toneladas de consumo de milho no Brasil, realizada pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), foi uma medida acertada, avaliou nesta quinta-feira, 9, o CEO do Sindirações, que representa o setor que mais consome o cereal no país.
A mudança impactou números de estoques finais dos últimos anos e nesta safra 2022/23, dando uma folga maior de suprimentos para a indústria local e exportadores.
“Fez sentido a revisão para baixo no consumo”, declarou Ariovaldo Zani, à Reuters, concordando que, antes de serem revisados, os dados indicavam uma demanda local superestimada.
Em relatório divulgado na quarta-feira, a Conab elevou a projeção de exportações de milho da safra 2022/23 e do ciclo anterior em volumes somados de 5,5 milhões de toneladas e reduziu a expectativa de safra do cereal deste ano em aproximadamente 1,3 milhão de toneladas na comparação mensal.
Mesmo assim, a previsão de estoque final desta temporada ainda cresceu em cerca de 700 mil toneladas no comparativo com o levantamento de janeiro. Isso graças a um maior estoque inicial e, também, a uma revisão no consumo.
Dados de consumo e estoques de safras de passadas, desde a temporada de 2016/17, também foram alterados. O estoque final em 2019/20, por exemplo, teve uma revisão para cima de quase 5 milhões de toneladas, após a Conab reavaliar para baixo o consumo, citando números de produção de carne menores.
O Brasil, embora venha aparecendo como grande exportador de milho nos últimos anos – com o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) agora estimando que o país vai superar os norte-americanos em 2022/23 na liderança das exportações globais do cereal –, consome a maior parte do que produz. Da safra total de 123,7 milhões de toneladas, a demanda brasileira é estimada em 79,4 milhões de toneladas, ficando a exportação com 47 milhões de toneladas.
Segundo o executivo do Sindirações, que reúne as indústrias produtoras de rações para aves, suínos e bovinos, entre outras criações, a revisão nos números pode ainda ajudar a afastar especulações recorrentes que aparecem alguns anos no mercado de que “vai faltar milho”.
“Nos últimos cinco a dez anos, nunca faltou milho”, afirmou ele, lembrando que por várias safras havia especulação de que faltaria, o que geralmente impacta em custos para produtores de ração e indústrias de carnes, uma vez que os preços da commodity sobem. “Colocaram o preço lá em cima baseado em teoria de que faltaria, mas não faltou em nenhum desses anos, então, outra vez é mais um fato: o consumo não era tudo aquilo”.
O milho, principal ingrediente da ração, tem uma demanda da indústria de 50 milhões a 55 milhões de toneladas ao ano, seguido pelo de etanol, com pouco mais de 10 milhões de toneladas, afirma Zani. Há ainda o consumo humano, perdas registradas na cadeia, além do uso do grão como semente.
Zani disse não ver preocupação diante dos números revisados de demanda pelo produto do Brasil, mas chamou a atenção para as compras da China, que desde o final do ano passado passou a importar o milho brasileiro. “Se o Brasil passar a exportar de 55 a 60 milhões de toneladas de milho, aí vai faltar”, completa.
O superintendente de inteligência e gestão da oferta da Conab, Allan Silveira, explicou que as principais mudanças no consumo de milho vieram da menor demanda apurada dos segmentos de avicultura a suinocultura, que são os principais consumidores.
“Não se justificava um consumo tão alto como se estava vendo. Por sua vez, isso alterou as demais variáveis do quadro (de oferta e demanda)”, disse Silveira ao apresentar os números.
Ele explicou que a Conab calculou, com base na pesquisa de abates de animais do IBGE, qual seria o consumo efetivo de milho. “E com isso fizemos as mudanças. Houve também ajuste na produção para alimentação humana”, relata.
O diretor da consultoria Pátria AgroNegócios, Matheus Pereira, chamou a atenção para a revisão dos números, em publicação em rede social. Ele questionou se indicações de “esgotamento” de milho brasileiro de 2022 para 2023 trariam “reações nas altas de preços do cereal” e se a mudança teria o objetivo de amenizar preocupações com o abastecimento, em momento que a China se volta ao mercado brasileiro.
O mercado de milho teve poucas alterações na véspera, com os preços ficando praticamente estáveis, segundo indicador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq-USP.
Mas esta não é a primeira vez que a Conab realiza grandes mudanças em seu quadro de oferta e demanda. A estatal revisou em 2020 dados da safra de soja, elevando em mais de 14 milhões de toneladas a oferta da oleaginosa em um período de vários anos que foi revisado.
A empresa declarou anteriormente que estava em processo de refinamento de seus números, que poderia até mesmo mudar dados do quadro do café, além do milho, como acabou acontecendo.
Roberto Samora