Açúcar: Mercado

Açúcar: Mercado

[Opinião] E se a Índia oferecer mais açúcar e o Brasil ampliar a produção?


hEDGEpoint - Publicado: 20 Jul 2023 - 15:29

Por Lívea Coda*

Existem dois principais “e se” que estão incomodando o mercado de açúcar e, neste texto, pretendo explorar o que aconteceria com os fluxos comerciais se um deles pudesse acontecer. Ou ainda, quais seriam os possíveis efeitos de sua combinação?

Sem mais delongas, as duas principais perguntas a serem respondidas são: E se a Índia surpreender e oferecer mais disponibilidade? E se o Brasil também produzir mais?

Para começar, primeiro precisamos esclarecer nosso caso base. Ainda estamos sendo conservadores em relação às safras do Hemisfério Norte. A má previsão do tempo em safras já penalizadas por adversidades nos faz apostar em uma estagnação ou, no máximo, em uma recuperação marginal para muitos produtores, como Índia e Europa.

A Tailândia é a única que já nos permitimos considerar com uma quebra relevante para 2023/24. O motivo é que o clima já afetou o desenvolvimento da cana, além de ter trazido uma redução de área de pelo menos 4% devido aos preços mais altos da mandioca.

Além disso, também consideramos que as chuvas no Centro-Sul brasileiro podem impedir que o ritmo de moagem continue acelerado até o final da safra 2023/24, limitando a produção.

Essa visão conservadora parece ser precificada pelo mercado, já que o aumento da disponibilidade brasileira de curto prazo induz os preços do contrato de outubro a permanecerem abaixo dos de março, o principal contrato para a entrega incerta do Hemisfério Norte.

E se o Centro-Sul produzir mais?

Atualmente, consideramos que o Centro-Sul brasileiro irá moer 595 milhões de toneladas de cana e produzir 37,6 milhões de toneladas do adoçante. Mas, e se o clima continuar favorável para a moagem?

Até agora, os dados do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) mostraram que os rendimentos da cana estão melhorando ano a ano. Supondo um cenário de estresse em que a região consiga moer 610 milhões de toneladas de cana e produzir 38,5 milhões de toneladas de açúcar, a disponibilidade internacional também aumentaria, principalmente no segundo semestre de 2023.

Como resultado, neste cenário, o contrato de outubro enfrentaria uma tendência de baixa, possivelmente negociando em uma faixa inferior (de 21 a 23 centavos de dólar por libra-peso). No entanto, março pode permanecer com suporte, pois é o principal contrato para entrega no Hemisfério Norte e a disponibilidade da região permanece incerta – adicionando pressão ao spread.

Lembre-se que, para entender a possibilidade de uma maior recuperação da cana no Centro-Sul, a produtividade realizada de julho é essencial. Para que esse cenário se concretize, o clima deve ficar mais seco do que o previsto atualmente. Portanto, um inverno e uma primavera mais chuvosos ainda devem adicionar um limite à moagem total dentro de 2023/24, impedindo que a cana atinja 610 milhões de toneladas mesmo com melhorias significativas de produtividade, além de comprometer sua qualidade.

E se a disponibilidade na Índia for maior?

A temporada de chuvas começou na Índia e, embora menor do que nos anos anteriores, a cana parece estar melhorando. Enquanto estimamos 31,4 milhões de toneladas de produção de açúcar em 2023/24, o mercado está começando a considerar uma visão mais otimista. Se o país conseguir chegar a produzir 33,5 milhões de toneladas, em termos de estoque, seria possível exportar cerca de 4 milhões de toneladas, um aumento de 1,5 milhão de toneladas em relação à nossa estimativa atual.

Porém, a decisão não cabe apenas ao mercado e às usinas. Os estoques domésticos estão baixos e devem terminar 2022/23 abaixo do nível de consumo de três meses. Portanto, o governo pode demorar antes de decidir sobre as cotas de exportação. Até que o governo se sinta confortável o suficiente para tomada de decisão, as usinas já teriam iniciado sua moagem e reabastecido uma quantidade relevante.

Em nosso caso-base, também permanecemos conservadores quanto ao ritmo de exportação, assumindo que algum volume pode ser exportado no final do primeiro trimestre e no início do segundo trimestre de 2024. Mas, nesse caso de estresse, vamos supor que, embora o volume de exportação seja maior, as cotas só sejam liberadas no final de fevereiro. Nesse caso, o açúcar indiano só chegaria ao mercado internacional no final do segundo trimestre, início do terceiro trimestre.

Este comportamento não alteraria o spread, apenas daria suporte à inversão da curva de março em diante, significando que o carrego é restrito aos dois primeiros contratos. Esse comportamento é um reflexo do fato que, nesse exercício, a Índia estaria pronta para inundar o mercado no segundo trimestre – derrubando o contato de maio de 2024.

Se, no entanto, o governo permitir cotas antes de fevereiro, em parte poderemos ver um pequeno aperto em todos os fluxos comerciais, aliviando o déficit de 993 mil toneladas no primeiro trimestre de 2024 e o superávit de 1,2 milhão de toneladas no segundo trimestre de 2024. Nesse caso, a curva encontraria estabilidade, mas em uma faixa muito menor. Os preços podem finalmente cair abaixo do nível de 20 centavos de dólar por libra-peso.

E se ambos acontecerem?

Se o Brasil conseguir atingir 610 milhões de toneladas de moagem e o governo indiano permitir a exportação de 4 milhões de toneladas até o final de fevereiro, a frente baixista ganha força. Nesse cenário, o Brasil manteria os preços em uma faixa inferior e o único contrato com algum suporte seria março de 2023 – considerando apenas a safra 2023/24.

Claro, esta análise considera muitos “ses”. Por exemplo, qualquer antecipação da liberação de cotas do governo da Índia poderia aliviar os picos de fluxos comerciais e induzir uma visão muito mais suavizada, assim como quaisquer mudanças marginais na sazonalidade ou disponibilidade de outros países.

Se estiverem mais próximos de apertados, os preços podem ser negociados em uma faixa inferior à atual, mas ainda é bastante difícil imaginar que possam voltar aos níveis de 2019. Ainda mais considerando que o consumo continua crescendo, o clima está mudando e os investimentos estão cada vez mais caros.

* Lívea Coda é coordenadora de inteligência de mercado da hEDGEpoint Global Markets. Ela também será uma das palestrantes da Conferência NovaCana 2023, que acontece em São Paulo (SP) nos dias 4 e 5 de setembro.


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