Segundo estudo da Agroicone, saldos das operações em atraso há mais de 90 dias saltaram de R$ 3,8 bilhões para R$ 38,4 bilhões
A deterioração do crédito rural avançou de forma acelerada nos últimos três anos no Brasil e fez a inadimplência dos produtores com instituições financeiras crescer cerca de dez vezes no período.
A alta é resultado do “agravamento” da situação de financiamentos “problemáticos” ao longo do tempo, com a piora na capacidade de pagamento de agricultores e pecuaristas brasileiros. Os saldos das operações em atraso há mais de 90 dias saltaram de R$ 3,8 bilhões, em julho de 2023, para R$ 38,4 bilhões em abril de 2026.
Estudo da consultoria Agroicone com base em dados do Banco Central, antecipado à Globo Rural, mostra que houve “diferentes sinais de deterioração” pelo caminho.
O documento aponta a evolução do montante de recursos sob risco de inadimplência, com reflexos na saúde financeira do campo, e o número de pessoas que podem ser excluídas da política de crédito por conta dessa degradação. A combinação dos dois indicadores dá um “termômetro” da situação.
“A inadimplência é uma fotografia das operações que já chegaram a um estágio mais grave de descumprimento, mas ela é parte de um processo mais amplo de deterioração da qualidade do crédito, que também aparece antes disso, em atrasos, prorrogações e renegociações”, afirma Cleyton Candeira Pimentel, pesquisador da Agroicone e autor do estudo.
No período analisado, os valores das operações identificadas como problemáticas (em atraso, prorrogadas, renegociadas ou inadimplentes) passaram de R$ 34,1 bilhões para R$ 188,8 bilhões. Os saldos inadimplentes se multiplicaram por dez.
Os financiamentos em renegociação formam o maior bloco, com mais de R$ 100 bilhões atualmente e 410,4 mil operações, e avanço de 630% no período. Parcelas prorrogadas ou em atraso aumentaram três vezes.
De acordo com a Agroicone, a trajetória de deterioração revela que a inadimplência do crédito rural saiu de uma situação “controlada” para “sistêmica” em pouco tempo. A análise indica uma mudança de “estágio” das operações que já estavam com problemas, com o agravamento contínuo.
Por isso, o número de operações problemáticas avançou em velocidade menor que os valores, saindo de 464,5 mil em julho de 2023, cerca de 12% do total, para 893,2 mil em abril de 2026, quase 20%. Cada produtor pode ter mais de um financiamento.
O ritmo mensal de crescimento dos valores com algum problema se acelerou na segunda metade do período analisado, enquanto o de novos financiamentos problemáticos diminuiu. O movimento reforça que o agravamento mais recente pesa mais sobre o valor financeiro do que sobre o número de contratos, diz a consultoria.
Segundo a Agroicone, a composição do problema também mudou de perfil ao longo do tempo. Em julho de 2023, a taxa de inadimplência era de 3,9% em número de contratos e de apenas 0,7% em valor financeiro. O retrato mudou em abril de 2026, quando os índices ficaram em 5,4% e 4,3%, respectivamente.
“O avanço mais acentuado veio do lado financeiro, sinal de que a exposição em valor cresceu mais rápido que a simples frequência de contratos com problema”, diz o estudo.
Perfil
A situação afeta produtores de todos os portes, mas de formas diferentes. “Os grandes produtores concentram o problema no valor financeiro, os médios aparecem com o maior risco relativo e os pequenos carregam a dimensão mais contratual, muitas vezes ligada ao risco de exclusão da política de crédito”, afirma Leila Harfuch, sócia da Agroicone e autora do documento.
Os grandes concentravam 53,8% do saldo inadimplente em abril deste ano, cerca de R$ 20,5 bilhões, com apenas 8% dos contratos problemáticos. Pequenos agricultores e pecuaristas apresentavam padrão inverso, responsáveis por 76,7% das operações com atrasos superiores a 90 dias e somente 11% dos valores, pouco mais de R$ 4 bilhões.
Entre os médios produtores, chamou a atenção a taxa de inadimplência por valor, a maior entre os públicos avaliados, de 6,1% na época. Eles respondiam por 35,2% do saldo inadimplente, de R$ 13,4 bilhões, em abril de 2026.
O nível de deterioração e exposição também muda de acordo com a região do país. Na média, 3,97% dos contratos de crédito rural no sistema financeiro e 5,2% dos valores estavam inadimplentes em abril deste ano. No Rio Grande do Sul, onde produtores enfrentam problemas climáticos extremos há seis anos, as taxas de inadimplência são menores, de 1,3% na quantidade de operações e 3,1% em saldo financeiro.
“Não existe uma resposta uniforme para todos os produtores, a política de crédito precisa considerar o porte do produtor, a região, o momento no tempo e se o problema é mais de quebra de contrato ou de exposição financeira”, defende Harfuch.
A questão é que o crédito problemático do Rio Grande do Sul, que soma operações em atraso, prorrogadas, renegociadas e inadimplentes, chegou a 34,55% dos contratos ativos em instituições financeiras em abril e 28,8% dos valores.
“O caso do Rio Grande do Sul mostra bem por que crédito problemático e inadimplência não podem ser tratados como sinônimos. O estado tem muito atraso, prorrogação e renegociação, mas isso ainda não virou inadimplência na mesma proporção”, afirma Lauro Vicari, pesquisador da Agroicone e também autor do estudo.
Rafael Walendorff