Um excedente de meio bilhão de litros. Em uma comparação com o etanol importado ao longo de todo o ano de 2016, os sete primeiros meses de 2017 apresentam um resultado transbordante. No acumulado do ano já foram 1,35 bilhão de litros, contra 821,58 milhões no total do ano passado. O valor, inclusive, é superior ao recorde anual anterior de 1,15 bilhão de litros, registrado em 2011.

Considerando apenas o período de janeiro a julho, o valor de 2017 é 284,2% maior que os 351,5 milhões de litros vistos no ano passado. Nesse caso, o recorde anterior foi registrado em 2012, com 500,77 milhões de litros.

Ainda assim, julho representou uma desaceleração considerável nas importações. O montante importado no período – 72,9 milhões de litros – é o menor desde novembro de 2016, mesmo mês em que os volumes adquiridos pelo Brasil começaram a chamar atenção no mercado.

Apesar dessa diminuição, o volume ainda é considerado alto para o período. Considerando os últimos 20 anos, o recorde anterior de importações de etanol em julho foi em 1997, com 60,71 milhões de litros. Além disso, julho também trouxe uma queda no valor médio pago pelo etanol, que foi de US$ 486/m³, contra US$ 501/m³ em junho. Por sua vez, em julho de 2016, o etanol era negociado a US$ 513/m³.

A principal origem desse combustível é os Estados Unidos, responsáveis pela venda de 72,87 milhões de litros em julho. No acumulado de 2017, o total soma 1,349 bilhão de litros, a um preço médio de US$ 501/m³.
Para efeito comparativo, a segunda principal origem é a África do Sul, com apenas 564,63 mil litros. Nesse caso, o etanol foi comercializado a um preço médio de US$ 745/m³.
A preocupação com o volume importado nos últimos meses levou o setor de etanol a concentrar esforços e solicitar do governo a volta de uma taxação para o combustível importado. Inicialmente, representantes do Nordeste solicitavam um imposto de 20%, enquanto a União das Indústrias de Cana-de-açúcar (Unica) pleiteava 16%. Eventualmente, o Ministério da Agricultura sugeriu a tarifa de 17%, que estava sendo pleiteada junto à Câmara de Comércio Exterior (Camex).
A decisão, entretanto, tem sido constantemente adiada pelo governo. A mais recente justificativa da Camex é que não houve consenso sobre o tema. Os oito ministros participantes teriam pedido mais tempo para analisar uma proposta do Ministério da Agricultura, que sugeriu a criação de uma cota de importação de 500 milhões de litros de etanol por ano com imposto zero. Acima disso, a importação seria taxada em 20%.
A medida é vista por muitos como um protecionismo do Brasil. Uma das vozes mais respeitadas do mercado no que se refere ao etanol no mundo é a do ex-representante da Unica em Washington (EUA), Joel Velasco. Ele liderou os esforços da entidade para expandir os mercados de biocombustíveis no passado e disse que o retorno das tarifas é uma política errada no momento errado.
"Os movimentos protecionistas são míopes em qualquer clima, mas especialmente agora, quando a atual administração dos Estados Unidos provavelmente retalharia desproporcionalmente", afirmou o especialista.
A situação fica ainda mais problemática com a Unica se manifestando a favor de um imposto de importação similar ao sugerido pelo Ministério da Agricultura, mas com uma cota de 600 milhões de litros. Inicialmente, quando pediu por um imposto de 16%, o argumento da entidade se alicerçava em questões ambientais. Agora, com esta nova proposta, a justificativa se tornou mais frágil, evidenciando o caráter protecionista.
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