NovaCana

As implicações das exportações de etanol para os EUA

fig2-EUAA competição de preços, as explicações para o grande volume de etanol exportado para os EUA e uma avaliação das perspectivas
NovaCana 10 min de leitura
Esta análise avalia os impactos do etanol brasileiro de cana no mercado norte-americano.

E ainda:
- A competição do etanol do Brasil com o biodiesel dos EUA: mudanças importantes desde o início do ano
- As tendências recentes das importações de etanol brasileiro.
- O suporte da RFS ao etanol brasileiro
- O que deve ser monitorado para prever o volume de etanol que os EUA importarão

Os pesquisadores do Departamento de Economia Agrícola e do Consumidor da Universidade de Illinois Darrel L. Good e Scott H. Irwin analisam no artigo abaixo os impactos do etanol brasileiro de cana no mercado norte-americano:

O atual mercado interno americano de etanol é dominado pela colisão em curso entre a meta da RFS (Norma para Combustíveis Renováveis) para biocombustíveis renováveis e o teto de mistura do E10 (gasolina com 10% de etanol). Dado o ritmo lento de penetração de mercado do E15 e do E85 nos EUA, é provável que a meta da RFS exceda o teto de mistura do etanol em todas as misturas em 2013. Para lidar com a diferença entre o tamanho da RFS para biocombustíveis renováveis em 2013 (13,8 bilhões de galões) e o teto de mistura efetivo (estimado em 12,9 bilhões de galões), recorrer-se-á ao uso de créditos de mistura acumulados através de adições facultativas prévias de etanol, algum incremento nas misturas maiores, ou possivelmente pela adição facultativa de biodiesel derivado de biomassa, caso as margens de lucro dessas misturas se tornem positivas.

O etanol misturado ao suprimento (oferta interna) de combustível pode ser produzido internamente ou importado do Brasil (ou indiretamente do Brasil através de países caribenhos). Em caso de limitação decorrente do teto de mistura, o etanol produzido internamente é substituído pelo etanol importado do Brasil no suprimento de combustível. O volume de etanol importado, portanto, tem implicações importantes para a indústria de etanol americana e para a demanda de milho. O volume das importações americanas de etanol é determinado tanto por considerações de oferta como de demanda. A oferta de etanol brasileiro disponível para exportação aos EUA é igual à produção brasileira menos o consumo interno brasileiro, menos as exportações para outros países. A expectativa é de que a produção brasileira de etanol em 2013 seja maior do que os 5,6 bilhões de galões dos últimos dois anos, em função de uma safra de cana abundante e dos preços baixos do açúcar. A produção deve ficar mais próxima dos 7 bilhões de galões de 2010. Por outro lado, o teor de etanol no combustível brasileiro aumentou no início do mês. Os Estados Unidos importaram 490 milhões de galões de etanol brasileiro em 2012. O pico de importações foi de 730 milhões de galões em 2006. Levando isso em conta, a oferta de etanol brasileiro disponível para exportação aos EUA este ano não deve limitar as importações.

Um ponto importante que ressaltamos no passado é que a demanda por etanol brasileiro deriva da RFS, que permite o uso de etanol brasileiro para o cumprimento da mistura obrigatória de biocombustíveis avançados. Sem a RFS, é provável que a demanda por etanol brasileiro nos EUA neste momento fosse próxima a zero, já que o preço com que o etanol brasileiro chega aos EUA excede o preço do etanol produzido internamente. A Agência de Proteção Ambiental (EPA) estabeleceu a meta da RFS avançada em 2,75 bilhões de galões para 2013. A mistura obrigatória mínima para o biodiesel de biomassa foi estipulada em 1,28 bilhão de galões, o que equivale a 1,92 bilhão de galões de etanol-equivalentes. Isso deixa um saldo de 830 milhões de galões de biocombustíveis avançados indiscriminados necessários para cumprir a RFS. Esse volume poderia ser cumprido com uma combinação de créditos de mistura (biodiesel D4 e/ou D5 indiscriminado), mais biodiesel de biomassa, outros biocombustíveis avançados indiscriminados (p. ex., biodiesel renovável, etanol de sorgo) e etanol brasileiro.

A proporção do requisito de biocombustíveis avançados indiscriminados cumprida com etanol brasileiro e biodiesel de biomassa doméstico refletirá as margens de lucro relativas de mistura dos dois combustíveis. Tratamos dessa questão em uma postagem de 16 de janeiro e calculamos a margem de lucro de mistura do etanol brasileiro como a diferença entre o preço da gasolina CBOB e o custo do etanol brasileiro, ambos no Golfo americano, em 10 de janeiro de 2013. Também calculamos um custo adicional do etanol brasileiro como o custo de oportunidade da perda de lucro advinda da substituição do etanol doméstico pelo etanol brasileiro. Esse custo de oportunidade foi calculado como o preço da gasolina CBOB menos o preço do etanol doméstico. A margem de lucro de mistura do biodiesel foi calculada como o preço do diesel com teor ultrabaixo de enxofre menos o preço do B100, ambos no Golfo americano, mais o crédito tributário de mistura, de US$ 1,00 por galão. Essa diferença foi dividida por 1,5 para refletir a margem de mistura em termos de etanol-equivalentes. As margens de lucro calculadas foram negativas para ambos os produtos, mas favoreceram o biodiesel face ao etanol brasileiro, o que levou à expectativa de que as importações de etanol brasileiro provavelmente seriam pequenas em 2013.

Desde o começo do ano as relações de preço se alteraram, e consequentemente também as margens de lucro relativas de mistura. Em particular, a Figura 1 mostra que os preços do biodiesel desde o começo de janeiro aumentaram cerca de 40 cents por galão. Atualizamos nossos cálculos das margens de lucro de mistura na Figura 2.

Fig 1. - Preço semanal do biodiesel no Golfo americano e do etanol brasileiro em Santos
fig1a-eua

Fig. 2 – Margens de lucro semanais de mistura do biodiesel e do etanol brasileiro no Golfo americano
fig2-EUA
*Eixo X: margem de lucro de mistura

Para proporcionar uma melhor perspectiva, também estendemos as margens de lucro até o começo de 2012 (as margens de lucro de mistura do biodiesel durante 2013 não incluem o crédito tributário de US$ 1,00, apesar da reinstauração retroativa). Note que as margens de lucro de mistura calculadas para o etanol brasileiro são mostradas com e sem o cálculo do custo de oportunidade descrito anteriormente. Há várias observações relevantes a se fazer. Primeiro, com raras exceções, as margens de lucro de mistura para ambos os produtos se mantiveram negativas. Isso significa que nenhum dos produtos teria sido misturado nos EUA caso a demanda se guiasse exclusivamente por relações de preço de mercado. Segundo, mesmo a reinstauração do crédito de US$ 1,00 para a mistura de biodiesel a partir de janeiro de 2013, embora tenha causado uma notável melhora nas margens de lucro de mistura, não foi suficiente para tornar positivas as margens de lucro de mistura do biodiesel. Terceiro, desde a subida íngreme inicial das margens de lucro do biodiesel em janeiro, as margens de lucro do etanol brasileiro se tornaram relativamente mais favoráveis. Esta reversão recente (março) das margens de lucro relativas de mistura se deve ao preço em ascensão do biodiesel e ao aumento dos preços do etanol nos EUA em relação aos preços do etanol brasileiro. Esta última mudança nas relações de preço fez diminuir o custo de oportunidade de mistura do etanol brasileiro para quase zero nas últimas semanas, como mostra a convergência das duas linhas do etanol brasileiro. A implicação disso é que as importações de etanol brasileiro em 2013 serão provavelmente maiores do que esperávamos anteriormente caso as atuais relações de margem de lucro de mistura persistam.

A próxima questão interessante é saber se a influência da alteração das relações de mistura pode ser detectada nas tendências recentes das importações de etanol brasileiro. A Administração de Informações Energéticas (EIA) relata as importações de etanol americano semanalmente (Figura 3). As importações semanais são altamente variáveis e também sazonais. O maior volume de importações tende a ocorrer após o auge da colheita de cana e produção de etanol no Brasil, no segundo semestre.

Embora o ano ainda tenha avançado pouco, as importações deste ano foram maiores do que as de um ano atrás. Até 26 de abril, as importações totalizaram 100 milhões de galões, contra apenas 23 milhões de galões no mesmo período do ano passado, quando as importações foram em parte limitadas por uma produção menor no Brasil. Aparentemente houve, sim, um salto ascendente no nível médio de importações desde o começo de fevereiro, consistente com as mudanças nos aspectos econômicos de mistura.

Fig. 3 – Importações semanais de etanol nos Estados Unidos
fig3-EUA

Numa postagem de 10 de abril, projetamos as importações ao longo de 2013 em apenas 200 milhões de galões. Agora parece que as importações talvez sejam bem maiores, excedendo as do ano passado. Com a ampla oscilação nas margens de lucro relativas de mistura, não é possível fazer uma previsão de importações com muita certeza. Expectativas próximas a 600 milhões de galões parecem ser comuns entre analistas de mercado. Será preciso monitorar atentamente as margens de mistura e as estimativas semanais de importação da EIA em busca de pistas quanto ao volume final de importações de etanol brasileiro este ano. Além disso, as estimativas mensais de produção de biodiesel derivado de biomassa proporcionarão pistas sobre se a produção irá exceder o mínimo de 1,28 bilhão de galões, de forma a reduzir a necessidade de importações de etanol brasileiro. Uma das dificuldades dessa análise, porém, reside na diferença substancial entre as estimativas de produção da EIA e da EPA, conforme ilustra a Figura 4. Desde agosto de 2011, as estimativas mensais de produção de biodiesel da EPA mantiveram-se, em média, 16,5 milhões de galões acimas das estimativas da EIA. O motivo dessa diferença não se mostra óbvio.

Fig. 4 – Produção mensal de biodiesel derivado de biomassa nos Estados Unidos
fig4-EUA

Se assumirmos que as exportações de etanol americano este ano ficarão próximas dos 500 milhões de galões que previmos anteriormente, e que o consumo interno de etanol em 2013 ficará próximo dos 12,9 bilhões de galões, a importação de 600 milhões de galões de etanol brasileiro implicaria uma produção interna de etanol de apenas 12,8 bilhões de galões. Isto é 400 milhões de galões a menos do que a nossa projeção anterior, e requereria somente 4,665 bilhões de bushels de milho americano, em vez dos 4,8 bilhões projetados anteriormente. Naturalmente, todas essas projeções podem mudar caso as margens de lucro de mistura voltem a se alterar favoravelmente ao biodiesel.

Implicações

A importação de 600 milhões de galões de etanol brasileiro em 2013 é 400 milhões de galões superior à nossa previsão anterior, implicando:

1- Uma produção interna de 400 milhões de galões de etanol a menos;

2- Um consumo de 145 milhões de bushels de milho a menos;

3- Um esgotamento mais rápido dos créditos de mistura de etanol.

Esta análise ressalta também a importância da taxa de crescimento no consumo do E85. Uma taxa de crescimento mais veloz aumentaria o teto de mistura do etanol, permitindo maior produção interna de etanol e maior consumo de milho.

Scott Irwin e Darrel Good
Department of Agricultural and Consumer Economics
University of Illinois
Tradução e adaptação: NovaCana
Compartilhar: