Um grupo de montadoras alemãs uniu-se à americana Ford para dar um passo importante no mercado de carros elétricos: elas vão construir uma rede conjunta de postos de recarga de alta tensão para atender suas marcas, na expectativa de ditar o padrão de plugues e protocolos que serão adotados pela indústria.
No momento, as montadoras japonesas, alemãs e a Tesla utilizam plugues diferentes para conectar as baterias de seus carros aos carregadores. Porém, segundo o grupo de empresas que está lançando a nova rede de postos de recarga — indispensáveis para a popularização dos modelos elétricos —, será preciso limitar o número de formatos de plugue utilizados para que os custos se mantenham num patamar razoável.
As montadoras que vencerem essa disputa terão a vantagem de dispor de uma cadeia logística pronta e uma extensa rede de postos, o que deve tornar seus veículos mais atraentes para os motoristas interessados em fazer viagens mais longas, segundo analistas.
Por outro lado, as que saírem derrotadas devem amargar grandes prejuízos: elas podem ver seus investimentos em pesquisa e desenvolvimento não resultarem em nada, e ser obrigadas a adaptar suas linhas de montagem e o design de seus modelos para que os clientes utilizem as redes de carga rápida com maior cobertura.

De acordo com uma estimativa do banco suíço UBS, será preciso investir US$ 360 bilhões em infraestrutura de recarga por todo o mundo para atender à demanda dos novos veículos elétricos. Limitar o número de tecnologias utilizadas será crucial para um bom resultado.
“O mercado de carga rápida pode estar crescendo rápido, mas a questão dos diferentes tipos de conectores e tecnologias de comunicação terá de ser resolvida mais à frente”, diz o estudo publicado este mês.
Visando a criar massa crítica para o sistema mais utilizado na Europa, o Combined Charging System (CCS), a BMW, a Daimler (fabricante da Mercedes-Benz), a Ford e o grupo Volkswagen (que inclui Audi e Porsche), divulgaram em novembro a intenção de construir 400 postos de recarga de alta tensão em estradas importantes de 18 países europeus até 2020.
“No fim das contas, trata-se de uma maneira de proteger os investimentos de quem está apostando na mobilidade elétrica”, afirma Claas Bracklo, chefe de eletromobilidade da BMW e presidente da Charging Interface Initiative (CharIN), que está respaldando o CCS. “Fundamos a CharIN para nos colocarmos numa posição de poder.”
Os elétricos ainda estão engatinhando e é difícil prever qual tecnologia irá vencer a disputa, ou mesmo se continuará havendo várias alternativas para fazer a recarga dos veículos — ao contrário do que acontece com os carros a gasolina, em que há um padrão universal.
Para os fabricantes que estão injetando bilhões de dólares no desenvolvimento de baterias e carros elétricos, porém, há muito em jogo — e esta é uma partida decisiva.


Além do CCS, existem três outros padrões de plugue para carga rápida de baterias: o sistema Supercharger, da Tesla; o CHAdeMO, ou Charge de Move, criado por empresas japonesas (Nissan e Mitsubishi entre elas); e o GB/T, da China, país que é o maior mercado para carros elétricos do mundo.
“Creio que com o tempo o CHAdeMO e o CCS devam convergir, possivelmente para o atual padrão CCS, e só o tempo dirá o que vai acontecer com a Tesla”, diz Pasquale Romano, CEO da ChargePoint, firma do Vale do Silício que administra uma das maiores redes de postos de recarga do planeta.
Até o momento, há 7.000 pontos de recarga CCS espalhados pelo mundo, segundo a CharIN, sendo que mais da metade deles estão situados na Europa. A União Europeia respalda o CCS como plugue padrão para carga rápida, mas não proíbe que outros modelos sejam instalados.
Para efeitos de comparação, os pontos de recarga compatíveis com o CHAdeMO somam 16.639 (a maior parte no Japão e na Europa) e a Tesla possui 8.496 Superchargers (a maioria nos Estados Unidos). Já a China possui 127.434 postos de carga GB/T, segundo a Aliança Chinesa para a Promoção de Infraestrutura de Recarga para Veículos Elétricos.
Tal como em outras disputas para determinar o padrão utilizado em uma indústria, como a que se travou no setor de fitas de vídeo entre os sistemas VHS e Betamax, cada padrão de recarga tem seus prós e contras.
O sistema da Tesla é exclusivo para os clientes da marca, por exemplo, ao passo que o CCS possui um plugue duplo que pode ser conectado em corrente contínua (CC) ou alternada (CA), o que amplia o número de pontos de recarga à disposição dos motoristas.
O sistema CHAdeMO, por sua vez, permite que os motoristas vendam energia da bateria de volta para a rede elétrica, num processo conhecido como carga bidirecional. Isso ajuda a estabilizar as redes elétricas em períodos de pico e pode render alguns trocados para os donos de veículos.
“Se eu fosse a Nissan, ia querer pegar esse padrão e torná-lo o dominante”, diz Gerard Reid, fundador da Alexa Capital, que presta consultoria a companhias elétricas, de tecnologia e de infraestrutura energética. “Isso lhes daria uma vantagem sobre a concorrência.”

A maioria dos plugues usados para carregar veículos em casa usa corrente alternada (CA) e é lenta. Por isso, a construção de redes que possam proporcionar cargas rápidas na rua é considerada fundamental pela indústria, já que muitos consumidores em potencial ainda se mostram preocupados com o problema da autonomia das baterias.
Capazes de transferir uma maior quantidade de corrente contínua (CC), que é mais potente, os carregadores de alta velocidade podem completar a carga de um veículo num tempo até sete vezes menor.
As estações CC mais velozes, que transmitem até 400 kW, podem fazer uma carga completa em menos de 10 minutos — um progresso extraordinário em relação às 10 a 12 horas necessárias em alguns pontos de recarga com corrente alternada.
A expectativa dos fabricantes é que os motoristas se sintam mais confiantes para fazer viagens longas se souberem que é possível carregar o veículo num intervalo pequeno, não muito distante do necessário para encher o tanque com gasolina.
Com isso em mente, a parceria entre as montadoras alemãs e a Ford para instalar postos CCS de carga rápida ganhou a adesão de redes de postos de combustível que atuam na Europa, como a Shell, a OMV, a alemã Tank & Rast e a rede Circle K.
Para as montadoras tradicionais, sair na frente na corrida dos carros elétricos também significa manter a relevância num setor que teve os alicerces abalados com a chegada da Tesla.
A firma de Elon Musk já vale US$ 11 bilhões a mais do que a Ford, muito embora a Tesla só tenha entregue 76.230 carros em 2016, enquanto a pioneira da indústria automobilística americana vendeu 6,65 milhões de unidades.
No entanto, por possuir maior cacife financeiro, o grupo de montadoras alemãs que se aliou à Ford acredita poder alcançar uma posição de vantagem no longo prazo. E elas sabem que a tecnologia usada na recarga é um fator importante nessa briga.
Por ora, os plugues CCS, Supercharger e CHAdeMO continuam sendo instalados na Europa e nos Estados Unidos, enquanto a China segue investindo no sistema GB/T, o que sugere que ainda é muito cedo para dizer quem sairá vencedor nesta guerra de plugues — ainda mais porque nenhuma montadora quer ficar para trás no mercado chinês.
A Tesla, por exemplo, anunciou em outubro que irá modificar seus modelos S e X para o mercado chinês, instalando uma segunda porta de recarga compatível com o padrão GB/T adotado no país.
Os demais concorrentes, em sua maioria, também estão incorporando o padrão GB/T em seus veículos destinados ao mercado chinês. A China tem metas ambiciosas para as vendas de carros elétricos, apesar de alguns executivos do setor ainda acreditarem que o país possa adotar um dos padrões concorrentes no futuro.
Embora continue desenvolvendo sua rede com tecnologia própria, a Tesla se associou às iniciativas CHAdeMO e CharIN. Além disso, ela vende adaptadores para que os clientes residentes na América do Norte e no Japão também possam utilizar postos de recarga CHAdeMO.
A empresa não respondeu se admite a possibilidade de vir a adotar o padrão de algum concorrente no futuro. Tal decisão, dizem os analistas, marcaria um momento decisivo na disputa para instaurar o modelo dominante de plugue.
“Para a Tesla, sempre foi muito importante dispor de uma infraestrutura de recarga para nossos clientes, desde o primeiro dia”, afirmou uma porta-voz da marca. Além disso, acrescentou, a empresa acolheria de bom grado qualquer investimento em tecnologia de recarga.
Para Tomoko Blech, representante do CHAdeMO na Europa, ficar elucubrando qual padrão irá ganhar a briga não leva a nada, porque a indústria de carros elétricos ainda está dando seus primeiros passos e as montadoras precisam travar essa luta com seus modelos.
Há quem diga que sempre haverá várias alternativas para carregar veículos movidos a bateria.
“Se você tem um carro a gasolina, pode abastecê-lo em qualquer lugar do mundo. Situação melhor que essa não há”, diz Nicolas Meilhan, analista-chefe da consultoria Frost & Sullivan. “Com os elétricos, isso não vai acontecer.”