O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, consegue influenciar as bolsas e os mercados de energia com simples mensagens de texto em sua rede social Truth Social.
Os mercados de ações reagiram positivamente após a declaração de Trump na segunda-feira, 23, de que os EUA estariam travando negociações com o Irã e que a Casa Branca adiaria por cinco dias sua ameaça de destruir as usinas de energia iranianas. O preço do petróleo chegou a cair brevemente abaixo de US$ 100 por barril.
No final da semana passada, em contraste, Trump havia provocado uma forte alta nos preços do petróleo após anunciar que atacaria as usinas de energia do Irã se o regime não reabrisse o Estreito de Ormuz, no Golfo Pérsico.
Em comparação com o mês passado, não apenas o petróleo bruto e o gás natural estão sofrendo aumentos rápidos de preços, mas um total de 15 grupos de commodities, conforme relatou pelo jornal alemão de economia Handelsblatt após uma análise de dados.
De acordo com a reportagem, produtos químicos básicos, fertilizantes, plásticos, gases nobres e alguns metais ficaram mais caros entre 10% e 50%. “Os aumentos de preços serão sentidos em toda a cadeia produtiva industrial”, afirmou o CEO da empresa química Lanxess, Matthias Zachert.
Fertilizantes básicos como enxofre, amônia e ureia são produzidos em grandes quantidades na região do Golfo. A previsão de escassez está elevando os preços no mercado mundial.
A Qatar Energy, por exemplo, interrompeu a produção de ureia. Fábricas de fertilizantes na Índia, Paquistão e no Brasil vêm tendo que reduzir sua produção. A ureia já está em falta no mercado atacadista dos EUA.
O quadro também se aplica ao gás hélio, sendo que 40% da produção mundial desse gás, necessário para a fabricação de semicondutores, é gerada a partir do gás natural do Golfo Pérsico. Se houver uma escassez, a produção de chips na Ásia será paralisada.
“O hélio é um problema real se a situação se prolongar, se tornar problemática”, disse o especialista em comércio do Instituto de Economia Mundial de Kiel, Julian Hinz.
Mas o que significa “prolongar”? O especialista acredita que não há escassez física de matérias-primas no momento, mas a mera expectativa de escassez já provoca aumento de preços, explica o economista: “Há incerteza sobre o que pode acontecer. O que de fato aconteceu não é tão crucial”.
Ele observa que os pronunciamentos erráticos da Casa Branca não são particularmente úteis nesse sentido.
Os efeitos da guerra contra o Irã já são sentidos na África, segundo a organização de ajuda humanitária Pão para o Mundo.
Os preços dos fertilizantes nitrogenados artificiais subiram drasticamente; situação semelhante à ocorrida após o início da invasão russa da Ucrânia em 2022. Naquela época, as entregas de fertilizantes ucranianos foram interrompidas por vários meses.
Sem uma quantidade suficiente desses produtos, as colheitas e a segurança alimentar em alguns países africanos ficarão comprometidas, temem os especialistas da ONG, que preferem permanecer anônimos.
Embora alguns países africanos possuam reservas de petróleo e gás natural, eles são severamente afetados pelo aumento dos preços dos derivados de petróleo. Isso ocorre porque a gasolina, o diesel e o querosene muitas vezes precisam ser comprados no mercado global devido à falta de refinarias na África.
Os países que subsidiam a gasolina precisam aumentar significativamente seus gastos governamentais para compensar o aumento dos preços. Isso, segundo os especialistas da Pão para o Mundo, leva ao crescimento da dívida pública e da inflação.
Senegal, Benin, Eritreia, Burkina Faso e Zâmbia serão provavelmente os mais afetados pela atual crise energética, de acordo com a organização.
O diretor-geral da Agência Internacional de Energia (IEA), Fatih Birol, lançou um alerta em tom dramático sobre uma “grande ameaça” à economia global. Nenhum país, seja na África, Ásia ou Europa, escapará dos efeitos da crise se ela continuar a se desenvolver nessa direção. O cenário, segundo Birol, é pior do que a soma das duas crises do petróleo da década de 1970.
Como os próprios EUA também estão sendo afetados por um enorme aumento no preço dos combustíveis para a população e para o setor de entregas, é possível que o fim às hostilidades esteja próximo, especulam funcionários da IEA que preferem permanecer anônimos.
A agência é uma organização intergovernamental composta por 32 nações industrializadas desenvolvidas do Hemisfério Norte.
A interrupção dos principais centros de tráfego aéreo em Dubai e Doha é um problema para muitas companhias aéreas internacionais.
Os horários de voos de passageiros e de carga foram reduzidos. Conexões diretas da Europa para a Ásia, sem escalas no Golfo, estão agora em maior demanda e, consequentemente, estão ficando mais caras, explicou um porta-voz da companhia aérea Lufthansa.
O aumento dos preços dos combustíveis pode elevar os preços das passagens aéreas em todo o mundo a longo prazo. Cerca de 2 mil navios estão atualmente parados no Golfo Pérsico. As cadeias de suprimentos estão interrompidas. Os prêmios de seguro para transporte marítimo estão aumentando.
Embora o Brasil não esteja entre os países mais prejudicados pela guerra Irã, alguns setores da economia, como o agronegócio, se veem em situação vulnerável.
O Oriente Médio é um mercado importante para a exportação de produtos brasileiros como soja, milho, carne bovina, frango e açúcar, sendo que o próprio Irã importa grãos e derivados do Brasil.
O Brasil depende fortemente da importação de fertilizantes e insumos agrícolas, sendo que os países do Oriente Médio estão entre os principais fornecedores de fertilizantes nitrogenados como a ureia.
A guerra no Irã tem potencial de encarecer significativamente esses insumos, especialmente no caso de um prolongamento do conflito. Dos 7,1 bilhões de dólares em produtos que o Brasil importou do Oriente Médio em 2025, 2,2 bilhões de dólares eram de fertilizantes, o que representa mais de 14% das importações brasileiras desse tipo de produto.
Além disso, analistas também alertam para o fato de os países produtores de fertilizantes estarem suspendendo as exportações para proteger o mercado interno, como fizeram recentemente China e Rússia; sendo que esta última fornece 25% dos adubos químicos importados pelo Brasil.
Bernd Riegert