Enquanto a seleção não entra em campo, companhias brasileiras aproveitam os ventos favoráveis no mercado externo para fazer emissões de bônus. Ontem, o Grupo Virgolino de Oliveira (GVO) captou US$ 135 milhões e há pelo menos mais quatro empresas com operações em andamento nesta semana.
O Banco do Brasil (BB) conclui hoje uma rodada de encontros com os investidores com o objetivo de emitir bônus subordinados elegíveis a compor o capital de nível 1 da instituição sob as regras de Basileia 3.
A Odebrecht Óleo e Gás também se prepara para lançar bônus perpétuos (sem prazo de vencimento), provavelmente entre hoje e amanhã, apurou o Valor. O volume da operação ainda não está definido.
Também são esperadas captações do frigorífico Marfrig e da Votorantim Participações, que têm ofertas em andamento para recomprar bônus antigos. Ambos devem anunciar emissões de novos títulos, aproveitando para alongar prazos e melhorar o perfil de suas dívidas.
Gestores que operam no mercado de dívida e banqueiros que atuam na estruturação de ofertas de bônus veem na concentração de operações nesta semana uma tentativa das empresas de se antecipar à Copa do Mundo, que começa na quinta-feira.
Embora o Mundial não deva afetar o volume de negócios no mercado de dívida, algumas companhias avaliam que o melhor é evitar disputar a atenção dos investidores nesse período.
"Existe uma preferência por fazer [as operações] antes da Copa", afirma um banqueiro que atua na área. "Primeiro porque ninguém quer ficar trabalhando muito na Copa, mas também porque há uma preocupação com os possíveis protestos."
Obviamente, a principal razão para a fila de captações nos próximos dias passa longe dos gramados. As companhias tentam se beneficiar da farta liquidez e do cenário que tem mantido as taxas dos Treasuries (os títulos do Tesouro americano) mais baixas que o esperado. "As condições têm melhorado bastante e isso animou as empresas", afirma um banqueiro. "Houve uma melhora no fluxo e no spread de risco do Brasil."
Como as condições no mercado de bônus mudam muito rapidamente, alguns emissores consideram melhor aproveitar o bom cenário atual. Quando o torneio terminar, estarão próximas as férias de verão no Hemisfério Norte, que praticamente paralisam as operações.
"Devemos ver bem menos emissões nas próximas semanas, mas não acho que é por falta de apetite", diz esse banqueiro. Segundo ele, há uma forte demanda por bônus brasileiros, inclusive os "high yield", que pagam retornos maiores em função do risco mais alto.
GVO
O Virgolino de Oliveira - grupo que compra, cultiva e esmaga cana para a produção de açúcar e álcool - é um exemplo da categoria. Na tarde de ontem, os bônus da companhia com vencimento em 2017 eram negociados no mercado secundário com rendimento de 17% ao ano, mas a empresa conseguiu fechar uma captação mais curta, para 2020, com retorno bem menor, de 11%. O cupom ficou em 10,875%.
Segundo uma fonte que participou da operação, a redução no custo ocorreu porque os novos títulos possuem garantias reais. "Sem dúvida, isso ajudou bastante", diz. "Isso mostra a capacidade dessas empresas de captar em novos mercados."
A demanda dos investidores pelos papéis do GVO ultrapassou duas vezes o valor da oferta, mas o volume captado foi limitado pelas dívidas que a companhia pretende refinanciar com os novos recursos. "[O volume da oferta] foi basicamente o da dívida que era possível refinanciar com essa garantia. Não podia aumentar", afirma essa fonte.
A agência de classificação de risco Fitch atribuiu nota "B-" aos novos bônus do Virgolino de Oliveira. Os bancos HSBC, Morgan Stanley, Nomura e Pine coordenaram a captação.
Em maio, a Tonon Bioenergia fez uma operação parecida: captou US$ 230 milhões em bônus de dez anos, oferecendo como garantia real ativos da Paraíso Bioenergia, usina que adquiriu no ano passado. Anteriormente, os ativos garantiam empréstimos bancários que seriam quitados após a emissão dos papéis.
Por Talita Moreira e Aline Oyamada