Com RenovaBio em vigor, EPE acredita em ganho de mercado para o biocombustível; porém, perspectiva de aumento da produtividade no campo foi reduzida
Para a elaboração de políticas públicas, o governo federal depende de pesquisas e projeções realizadas por órgãos como a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), vinculada ao Ministério de Minas e Energia (MME). Anualmente, a EPE atualiza um estudo com projeções de oferta e demanda de etanol, com o horizonte em 2030. É para este documento que o governo olha antes de tomar decisões que podem afetar o mercado de combustíveis.
Desde a primeira publicação do estudo, no entanto, muitas das perspectivas governamentais para o final da década diminuíram. Uma das principais é relacionada à produtividade dos canaviais.
Em 2017, a EPE acreditava que o rendimento no campo poderia ficar entre 87,1 t/ha e 96,1 t/ha, com o cenário médio calculado em 92,1 t/ha. Na mais recente atualização do estudo, publicada em dezembro de 2019, até mesmo a perspectiva mais otimista está abaixo deste resultado, ficando em 88,3 t/ha.
Assim, para a EPE, os canaviais brasileiros devem produzir, em média, 84,3 t/ha em 2030, um resultado 11,2% superior às 75,8 t/ha projetadas pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) para a safra 2019/20. Mesmo em um cenário de baixo crescimento no mercado de etanol, a produtividade ficaria em 81,7 t/ha em 2030 – número acima dos resultados atuais do setor, mas abaixo dos 87,1 t/ha projetados em 2016.
No texto completo, confira as perspectivas da EPE em relação a:
- Moagem de cana-de-açúcar
- Produção de etanol de milho
- Oferta total de etanol
- Produção de açúcar
- Volume de ATR e qualidade da cana
- Área plantada de cana-de-açúcar
- Demanda por combustíveis e marketshare do etanol
- Impacto do RenovaBio e outras políticas públicas
Para a elaboração de políticas públicas, o governo federal depende de pesquisas e projeções realizadas por órgãos como a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), vinculada ao Ministério de Minas e Energia (MME). Anualmente, a EPE atualiza um estudo com projeções de oferta e demanda de etanol, com o horizonte em 2030. É para este documento que o governo olha antes de tomar decisões que podem afetar o mercado de combustíveis.
Desde a primeira publicação do estudo, no entanto, muitas das perspectivas governamentais para o final da década diminuíram. Uma das principais é relacionada à produtividade dos canaviais.
Em 2017, a EPE acreditava que o rendimento no campo poderia ficar entre 87,1 t/ha e 96,1 t/ha, com o cenário médio calculado em 92,1 t/ha. Na mais recente atualização do estudo, publicada em dezembro de 2019, até mesmo a perspectiva mais otimista está abaixo deste resultado, ficando em 88,3 t/ha.
Assim, para a EPE, os canaviais brasileiros devem produzir, em média, 84,3 t/ha em 2030, um resultado 11,2% superior às 75,8 t/ha projetadas pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) para a safra 2019/20. Mesmo em um cenário de baixo crescimento no mercado de etanol, a produtividade ficaria em 81,7 t/ha em 2030 – número acima dos resultados atuais do setor, mas abaixo dos 87,1 t/ha projetados em 2016.

Para completar, a EPE também reduziu suas projeções em relação à quantidade de Açúcar Total Recuperável (ATR) a ser produzida em 2030. Na projeção de 2017, o cenário médio envolvia 129 milhões de toneladas de ATR, com um rendimento de 147 kg/t. Agora, a expectativa é de 119 milhões de toneladas, com um rendimento de 140 kg/t.
Apesar do valor total ter diminuído, a EPE registrou uma leve recuperação em sua perspectiva para a qualidade da cana; no ano passado, a expectativa era que ela chegasse a 139,2 kg/t em 2030.
Além disso, o relatório centrou seus comentários na elevação do rendimento industrial da cana em comparação com 2018. “Parte do setor, que se encontra com um nível controlável de endividamento, buscará a implementação de boas práticas e tecnologias, e o rendimento da cana atingirá cerca de 140 kg/t em 2030, ligeiramente superior ao observado em 2018. A taxa entre 2018 e 2030 será de 0,2% ao ano”, afirma.

Incerteza em relação à área plantada
Enquanto as projeções de produtividade e ATR caíram, a de área plantada permaneceu a mesma. No documento mais recente, a EPE manteve a perspectiva de que, em 2030, os canaviais devem ocupar 10,1 milhões de hectares. O valor representa um avanço de 18,8% em relação aos 8,5 milhões de hectares contabilizados pela Conab.
Contudo, a EPE ampliou sua “margem”. A projeção para um cenário de baixo crescimento caiu de 9,7 milhões para 9,6 milhões de hectares; já no cenário de alto crescimento, o valor subiu de 10,4 milhões para 10,5 milhões de hectares. Ainda que as diferenças sejam pequenas, a distância entre as projeções mínima e máxima aumentou 200 mil hectares – uma área superior à do município de Iguape, o maior do estado de São Paulo.

Com a queda na produtividade e a estabilidade na área plantada, a projeção da EPE para a moagem de cana-de-açúcar em 2030 também diminuiu. Enquanto o valor para o cenário médio se manteve o mesmo nos estudos de 2017 e 2018 – 880 milhões de toneladas –, ele caiu 3,3% na versão mais recente, para 851 milhões de toneladas.
O valor, ainda assim, representa um crescimento em relação aos resultados atuais. De acordo com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), a maior moagem já registrada até o momento foi na safra 2015/16, com 668,96 milhões de toneladas.

Juntamente com a redução da perspectiva para a moagem em 2030, a EPE espera também uma queda na produção de açúcar. Em relação ao valor projetado em 2018, a diminuição prevista é de 2,2% – um valor inferior à redução na projeção da moagem.
Ainda assim, a expectativa é que o país alcance 45 milhões de toneladas ao final da década, um aumento de 17,8% em relação ao recorde do setor. Em 2010/11, a produção nacional da commodity chegou a 38,19 milhões de toneladas.

“A projeção de exportação da commodity foi estimada a partir da premissa de que a participação do Brasil no fluxo de comércio mundial será crescente e atingirá cerca de 43% em 2030”, justifica a EPE.
Etanol de milho “segura” a oferta
Com a queda nas projeções para o rendimento dos canaviais e para a própria produção de cana-de-açúcar, a EPE também modificou sua perspectiva para a oferta de etanol. Segundo o relatório, em 2030, o país deve produzir 48,8 bilhões de litros; um ano antes, a perspectiva era de 49,4 bilhões de litros.
Nos cenários de crescimento baixo e alto de mercado, no entanto, a EPE ampliou suas projeções. Com isso, a perspectiva é que a oferta varie de 43 bilhões a 54,4 bilhões de litros – ante uma projeção anterior que ia de 42,8 bilhões a 54 bilhões de litros.

Uma resposta para a manutenção do otimismo governamental na oferta de etanol pode estar longe da cana-de-açúcar.
Enquanto os estudos de 2016 e 2017 sequer mencionam o etanol de milho, a edição de 2018 afirma que a expansão do uso da matéria-prima se daria por meio de unidades do tipo flex, ou seja, que também operam com a moagem de cana-de-açúcar. Naquele momento, a perspectiva era a entrada de nove unidades até 2030, com a produção anual variando entre 1,5 e 3,4 bilhões de litros.
Na mais recente atualização do estudo, no entanto, a EPE observa que a produção de etanol a partir do milho cresceu “expressivamente” em 2019/20. De acordo com números da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica), o volume foi de 1,14 bilhão de litros entre 1º de março de 2019 e 16 de janeiro de 2020.
Conforme a EPE, a capacidade de processamento de milho em 2030 deve ficar entre 11 milhões e 14,7 milhões de toneladas. Já a capacidade de produção de etanol foi projetada entre 4,5 bilhões e 6 bilhões de litros.

Com isso, a perspectiva para 2030 foi recalculada para uma produção anual entre 4,1 bilhões e 5,4 bilhões de litros. Assim, até mesmo no cenário de baixo crescimento do mercado, a produção deve ser superior ao volume máximo esperado um ano antes. Além disso, o número de novas unidades deve variar entre 15 e 24.
Desta forma – e considerando também a projeção para etanol celulósico, que caiu de 2 bilhões para 1 bilhão de litros –, é possível perceber que a real perspectiva da EPE para o etanol de cana-de-açúcar em 2030 caiu 10,8%, em relação à projeção de 2017, e 3,1%, ante 2018.
Ou seja, da oferta total de 48,8 bilhões de litros atualmente previstos no cenário de crescimento médio do mercado, 5,1 bilhões de litros têm origem no milho ou na segunda geração (etanol celulósico ou E2G). Resta, assim, uma oferta de 43,7 bilhões de litros a ser atendida pelas usinas tradicionais de etanol de cana ou por volumes importados, que não são explicitados no relatório.

Menos etanol, mais marketshare
Ainda que a projeção de oferta de etanol para 2030 tenha sofrido uma leve redução, a EPE aposta em uma participação de mercado ainda maior para o biocombustível. Em 2018, a perspectiva era que entre 33% e 50% do volume abastecido com combustíveis do Ciclo Otto fosse de etanol – agora, esses números subiram para 37% e 53%.
“Tais percentuais são inferiores aos observados no período de 2007 a 2010, que variou de 53% a 71%”, complementa a ANP. Já em 2019 – ano com recorde no volume consumido do biocombustível –, esta relação ficou em 29,5%.

De acordo com o relatório, a mudança na projeção de marketshare em 2030 se deve principalmente à diminuição na perspectiva de demanda geral, que passou de 69,1 bilhões para 67,2 bilhões de litros de gasolina equivalente.
“A demanda de combustíveis é projetada por meio de um modelo contábil desenvolvido pela EPE que considera, além do cenário econômico, diversos outros aspectos, como o licenciamento de veículos leves, a oferta interna de etanol, o preço doméstico da gasolina e a preferência do consumidor entre gasolina e etanol, no abastecimento de veículos flex fuel”, detalha o documento.
Assim, por mais que o marketshare projetado para o etanol em 2030 tenha aumentado, a demanda em volume do biocombustível caiu, indo de 35,4 bilhões de litros na perspectiva de 2018 para 35,1 bilhões de litros nos cálculos mais recentes (valores em gasolina-equivalente).
Com isso, a maior parte da queda na demanda foi computada pelas projeções para a gasolina, que passaram de 33,7 bilhões para 32,1 bilhões de litros no mesmo intervalo – uma redução de 4,7%.

Além disso, em um cenário mais otimista para o mercado de etanol, a demanda pelo combustível fóssil pode cair para 28,1 bilhões de litros em 2030. Este volume seria mais baixo que o montante consumido em 2009 – 21 anos antes –, quando o país demandou 25,4 bilhões de litros do combustível.
RenovaBio entra na conta, mas reforma tributária fica de fora
As reduções nas perspectivas surgem em conjunto com a implantação do RenovaBio, programa governamental que visa aumentar a participação dos biocombustíveis na matriz energética brasileira. A partir de 2020, as distribuidoras que atuam na comercialização de combustíveis fósseis devem cumprir metas de aquisição de créditos de descarbonização (CBios), a serem emitidos pelas produtoras de combustíveis renováveis.
“Com as metas de descarbonização definidas, haverá um estímulo para a produção e o consumo de biocombustíveis”, afirma o relatório, que segue: “Espera-se que as usinas se sintam impulsionadas a produzir mais biocombustíveis e de forma mais eficiente, aumentando a oferta deste certificado e regulando seu preço no mercado, onde ele será comercializado. Esse mecanismo deverá garantir a segurança necessária para investimentos em novas usinas, uma vez que os CBios irão oferecer maior receita para os produtores”.
Assim, de acordo com o documento da EPE, os resultados do programa foram considerados nos cálculos. A receita obtida com a venda de CBios, inclusive, foi considerada como um dos “fatores distintivos” dos cenários, que preveem crescimentos de mercado nos níveis baixo, médio e alto.
Também entrou na conta a manutenção de uma série de ações governamentais, ou seja, não estão previstas variações tributárias ou políticas públicas adicionais, que possam vir a prejudicar ou beneficiar os biocombustíveis. Entre os pontos levantados estão: o percentual de 27% de etanol anidro na gasolina; a alíquota da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) sobre a gasolina em R$ 0,10/litro; e a tributação atual de PIS/Cofins sobre os combustíveis.
A EPE relata que também levou em conta os reflexos da situação financeira das usinas. “Nos últimos anos, algumas empresas do setor sucroenergético reduziram seus investimentos e despesas, o que trouxe reflexos negativos para a manutenção e aprimoramento do ativo biológico (renovação dos canaviais, desenvolvimento e inserção de novas variedades, entre outros fatores), afetando a produtividade e o rendimento industrial”, detalha.
Ainda assim, a entidade pondera que as mudanças nas políticas da Petrobras em relação à precificação da gasolina e a alta nos preços internacionais do petróleo “contribuíram para a melhoria da rentabilidade do negócio”, o que teria minimizado os efeitos da queda nos preços internacionais do açúcar. “O setor está passando por um período de ajustes, buscando equacionar sua situação financeira”, conclui.
No cálculo de suas projeções, a EPE considera que a Petrobras deve manter o alinhamento do preço da gasolina em relação às cotações internacionais.
Renata Bossle – NovaCana