Após série de críticas, governo reduz previsões e explica de onde virá o etanol dos próximos dez anos
Mesmo sem um planejamento estratégico para o etanol no Brasil, o governo federal continua fazendo previsões sobre o futuro do mercado — e recebendo críticas.
É justamente uma dessas previsões do governo que passou por uma revisão. Este mês foi divulgado uma nova metodologia para prever os próximos dez anos do setor sucroalcooleiro.
O novo cálculo reduziu significativamente a perspectiva de produção de etanol. O motivo foi a reconsideração de uma série de premissas, como a expansão da capacidade produtiva, a evolução dos fatores de produção, o ciclo da cana, a produção de açúcar, os custos do etanol e sua competitividade em relação ao adoçante e à gasolina.
Apesar do corte no etanol e da crise que assola o setor produtivo, o cenário apontado para os próximos anos ainda é bastante otimista.
O texto a seguir revela as alterações dos índices agrícolas e industriais do setor que definiram a visão do governo para os próximos de dez anos. As novas apostas vão desde a quantidade de mudas de cana necessárias, até os ganhos esperados com a evolução do processo de fermentação.
Mesmo sem um planejamento estratégico para o etanol no Brasil, o governo federal continua fazendo previsões sobre o futuro do mercado — e recebendo críticas.
É justamente uma dessas previsões do governo que passou por uma revisão. Este mês foi divulgado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) o Plano Decenal de Expansão de Energia 2023 (PDE 2023), com uma nova metodologia para prever os próximos dez anos do setor sucroalcooleiro. O documento está aberto para consulta pública até o dia 05 de outubro.
O novo cálculo da EPE reduziu significativamente a perspectiva de produção de etanol. O motivo foi a reconsideração de uma série de premissas, como a expansão da capacidade produtiva, a evolução dos fatores de produção, o ciclo da cana, a produção de açúcar, os custos do etanol e sua competitividade em relação ao adoçante e à gasolina.
Enquanto no PDE divulgado no ano passado, a expectativa era terminar o decênio com uma produção de 53,8 bilhões de litros de etanol, na revisão o volume caiu para 42,8 bilhões de litros. Ainda assim, a projeção indica quase o dobro da produção esperada para 2014, de 23,4 bilhões de litros.
As previsões do governo sobre etanol são alvos de constantes ataques do setor produtivo, pois estariam descoladas da realidade e da falta de perspectiva. Agora o governo acredita ter chegado em valores “mais dentro da realidade” conforme afirma o presidente da EPE, Maurício Tomalsquim.
Os dados no documento revelam como o governo acredita que os números serão atingidos a partir da recuperação dos índices agrícolas e industriais do setor num horizonte de dez anos.
As apostas da EPE sobre o parque industrial estão disponíveis na reportagem: Governo aposta em 5 novas usinas no Brasil até 2016
Recuperação
Após um período de “dificuldades econômicas”, o segmento vivenciou uma retomada dos investimentos na renovação e expansão dos canaviais. “Entre 2014 e 2016, vislumbra-se o início da recuperação da oferta de etanol, motivado pelo retorno dos investimentos em renovação dos canaviais e em tratos culturais”, aposta a EPE.
Segundo o PDE 2023, ações conjuntas do governo com o setor privado “propiciaram uma recuperação nos indicadores de produtividade do país, que saíram de 67,1 tc/ha na safra 2011/12 para 74,8 tc/ha na safra 2013/14, embora ainda longe do máximo histórico de 81,6 tc/ha em 2009/10”.
Rendimento
Com base nos dados do Mapa, a EPE prevê apenas um pequeno aumento no rendimento da cana colhida entre 2014 e 2016, o qual deve ficar na média de 133 quilos por tonelada de cana (kg/tc), uma vez que “não haverá total adequação do plantio ao sistema de colheita mecanizada”. Já entre 2017 e 2023, “admite-se” um rendimento médio de 141,5 kg/tc.
Produtividade
O plano também assume que, para melhorar sua competitividade, o setor investirá em ganhos de produtividade da cana, a qual deverá atingir 84,5 tc/ha em 2023. No ciclo 2014/15 está prevista uma produtividade de 71 tc/ha.
Neste sentido, o documento prevê a continuação de ações iniciadas na safra 2012/2013 – época em que foi lançado o Prorenova –, como investimentos em tratos culturais adequados, introdução de novas variedades mais produtivas e aumento da área de cana planta, tanto para expansão quanto renovação dos canaviais.
Para alcançar este ganho de produtividade, o segmento deve expandir a capacidade instalada de cana-de-açúcar das usinas existentes, “a fim de atender a quantidade total de cana produzida”, alerta a EPE.

Fermentação
O estudo também sinaliza para um aumento na eficiência da área industrial, a qual deverá ocorrer, principalmente, no processo de fermentação, “a partir da disseminação do uso da tecnologia de alto teor alcoólico e da viabilização da fermentação a vácuo”.
É esperado que ao longo da década o fator de conversão do hidratado oscile entre 1,667 a 1,653 kg de ATR (Açúcares Totais Recuperáveis) por litro (ATR/litro). Para o anidro, a estimativa é que esta taxa fique entre 1,744 e 1,729 kg ART/litro. “Já o fator de conversão do açúcar permanecerá constante, em 1,049 kg ART/kg”, informa o documento.
Área plantada
Se as projeções da EPE e do MME se confirmarem, o ganho de produtividade (tc/ha) e de qualidade (ATR/tc) da cana-de-açúcar será suficiente para atender o crescimento da produção do adoçante sem, contudo, aumentar a área destinada à produção.
Segundo projeções, a área colhida aumentará de 9,1 milhões de hectares (Mha) em 2014 para 10,6 Mha em 2023, numa taxa de crescimento de 1,9% ao ano.

Cana colhida e mudas
Visualizando uma produção mais alcooleira, a EPE projeta um mix para a fabricação do combustível de cana que irá subir de 53,7% em 2014 para 60,9% em 2023. Este aumento será puxado principalmente por uma maior taxa de crescimento da demanda por etanol.
O documento destaca ainda a produção de mudas de cana. Considerando a área de cana plantada e a quantidade de mudas utilizadas no sistema manual (12 t cana/ha), a produção de mudas poderá atingir 20,4 milhões de toneladas em 2023. A mecanização total do plantio (18 t cana/ha), no entanto, deverá elevar esse número para 30,6 milhões de toneladas.
Os dados reforçam a ideia de que o setor precisa avançar não apenas na colheita, mas também no plantio mecanizado.
Nos dados registrados até setembro de 2013, 88,3% da cana processada no Centro-Sul, a principal região produtora, foi colhida mecanicamente. O rendimento do corte mecânico atingiu 505,2 t/dia, enquanto o corte manual ficou em 8,3t/dia.
“Esse avanço na colheita não foi devidamente acompanhado pela mecanização do plantio, que evoluiu de 33% em 2009, para 57% em 2012, no Centro-Sul. Para que se alcancem os resultados desejados de produtividade e concentração de açúcar, é necessário o aumento desse percentual”, sugere a EPE.
Produção de açúcar
Segundo a EPE, até o final da década, as exportações brasileiras do adoçante deverão atender de 46% a 50% do fluxo de comércio mundial. Esse número considera o crescimento da demanda nos países importadores, com destaque para a África e a Ásia.
Levando em consideração a evolução do consumo per capita do país, relacionado ao aumento da renda e ao envelhecimento da população, o documento estimou uma taxa média de crescimento da produção do açúcar em 2,6% ao ano.
A projeção é mais otimista que a estimativa de crescimento de 1,7% ao ano feita pela FAO e OCDE. No entanto, a expectativa quanto à produção do adoçante no país é quase a mesma das duas agências internacionais. Segundo a EPE, até o final da década, a produção deverá alcançar 48,4 milhões de toneladas, número similar aos 49 milhões estimados pela FAO e OCDE.
Produção de etanol
Em relação ao etanol anidro, na visão da EPE a produção deve sair de 11 bilhões de litros em 2014 para 14 bilhões de litros em 2023 – uma taxa média de crescimento de 3,7% ao ano. A mistura de 25% do biocombustível seria mantida por todo o período.
Já o hidratado teria um crescimento expressivo da demanda. De 12,4 bilhões de litros nesta safra, o consumo saltaria para 28,8 bilhões de litros em 2023 – um aumento estimado de 7,6% ao ano.
O documento completo com a previsão da EPE para todo setor energético brasileiro pode ser acessado aqui (.pdf 12,5mb — 433 páginas).
Comentários e sugestões podem ser enviados para o governo até o dia 05 de outubro pelo e-mail pde2023@mme.gov.br
Leonardo Siqueira - NovaCana