Política

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Presidente da Petrobras deve ter “coragem para fazer acontecer”, diz Silveira

Ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira defende prospecção de petróleo na Foz do Amazonas e critica “ambientalistas radicais” que, segundo ele, não “contribuem” com o país


O Globo - Publicado: 22 Mai 2024 - 12:05

O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, afirma esperar que a nova presidente da Petrobras, Magda Chambriard, tenha “coragem para fazer acontecer” na estatal, após a demissão de Jean Paul Prates. A pauta, diz ele, não muda: ampliar investimentos em gás, fertilizantes e refinarias.

Discordâncias sobre a condução dessa política levaram Silveira e Prates a ficarem de lados opostos, embora o ministro negue que uma disputa entre os dois tenha levado à troca no comando da estatal na semana passada. Em entrevista ao Globo, ele afirma que Lula tomou a decisão de demitir Prates “por um conjunto de questões” e que não haverá solavancos na empresa.

Ele negou que haverá loteamento na diretoria e disse que, se fosse presidente da Petrobras, se preocuparia “pouco em falar para fora” e muito em se relacionar bem com o acionista controlador. Esse conselho, completa, não precisa ser dado à Chambriard “até porque ela lê jornal”.

Silveira ainda defendeu a prospecção de petróleo na região conhecida como Foz do Amazonas e criticou os “ambientalistas radicais” que, para ele, não “contribuem” com o país.

O ministro afirmou que não há decisão tomada, pelo governo, quanto ao prosseguimento da tentativa de acordo com a Eletrobras sobre a composição do conselho de administração da empresa. O governo foi à Justiça para aumentar a sua participação no colegiado, já que permanece com mais de 40% das ações e ficou com apenas uma cadeira após a privatização da empresa.

Após ser demitido, Jean Paul Prates escreveu uma nota interna dizendo que foi comunicado na presença “regozijada” do senhor e do ministro Rui Costa, da Casa Civil. Como recebeu isso?
Isso nos deixou perplexos. Para deixar claro: não existia uma disputa entre o ministro de Minas e Energia e o presidente da Petrobras. Todas as vezes em que Prates me abordou no intuito de fazer uma aliança, eu sempre dizia: “você está enganado, você não tem que tratar isso comigo”. O presidente da Petrobras despacha com o presidente da República. A pauta do gás, por exemplo, não é do ministro, é do governo. A Petrobras é monopolista dos gasodutos de escoamento no Brasil e nós precisamos aumentar a oferta. Isso nunca foi uma prioridade da Petrobras. Espero que a Petrobras entenda isso.

Além do gás, quais outros pontos geraram divergências?
Não vou chamar de divergência porque ele participou da aprovação pelo conselho (de administração) de um plano de investimento. Nesse plano de investimento, nós todos, legitimamente, debatemos investimentos em gás, nas refinarias, nas fábricas de fertilizantes paralisadas. O que eu sempre defendi de forma contundente foi mudança da política de preço e celeridade para que a gente pudesse, no mínimo, iniciar os investimentos em fertilizantes, aumentar a oferta de gás para reindustrializar o Brasil. Pautas óbvias. Todo mundo sabe que nós pensamos assim.

Mas havia muita disputa do senhor com o Prates...
Defendo a pauta do governo em uma empresa que é controlada pelo governo. Isso sempre foi natural na relação entre o ministro de Estado e a direção da Petrobras. Dessa vez, isso foi mais explicitado, talvez pela circunstância, talvez pela minha forma de ser, de expressar aquilo que eu penso com contundência.

Houve constrangimento na reunião em que o presidente demitiu Prates?
Constrangimento, não. Não é confortável viver o momento da demissão de alguém. Porém, nenhum de nós tem o direito de constranger o maior líder político do Brasil a fazer a parte da sua equipe por quaisquer motivos.

O senhor se refere ao fato de Prates ter pedido uma “conversa definitiva” com Lula? Foi o que levou à demissão dele?
Não sei se Prates falou isso. Mas um avião não cai por um motivo só. O presidente tomou a decisão por um conjunto de questões. A Petrobras não vai ter nenhum solavanco. Ela vai continuar sendo uma empresa altamente competitiva e altamente atrativa para o investidor nacional e internacional.

O que Magda Chambriard fará diferente de Prates?
Uma pessoa que assume a posição de presidente de uma empresa com a complexidade da Petrobras depois de conhecer tão explicitamente o que pensa o seu acionista controlador está disposta a se esforçar para fazer aquilo (que o controlador defende). As mulheres quando pegam essa missão o fazem com muito zelo, mas com muita autoridade. Percebi nela disposição, sensibilidade e autoridade para executar as coisas da forma que devem ser executadas. E humildade para ouvir todo mundo e dialogar. Deus nos deu dois ouvidos para ouvir, nos deu discernimento para decidir e nos deu – pelo menos, à maioria – coragem para fazer acontecer. E é isso o que a gente espera da presidente da Petrobras. A pauta já é conhecida. Não tem nada de diferente do que sempre defendemos. Não há por que se criar instabilidade e expectativa diferente do que está público.

Há possibilidade de comprar de volta as refinarias que foram vendidas?
Não se descarta nada. Não podemos falar em compra de refinaria como se isso não fosse uma relação comercial. Mas as nossas refinarias não podem ficar sucateadas. Ninguém está falando em novas refinarias, estamos falando, no mínimo, em ter as nossas refinarias.

O mercado reagiu mal diante da percepção de que a Petrobras poderia fazer um retorno ao passado com investimentos que a fizeram ter prejuízos.
A política que o presidente Lula implementou lá atrás na Petrobras estava correta. A Petrobras ficou paralisada por anos por causa da Lava-Jato. O mercado é percepção, ele não busca concretude. Quando perde até 10% do valor da empresa, não passa do capital especulativo se movimentando. A empresa recupera. Não haverá sobressalto. Não trabalhamos com a hipótese de alteração do plano de investimento aprovado. É inadequado querer cumprir o que foi aprovado?

Haverá loteamento de diretorias?
Não existe sequer uma vírgula de diálogo desse tipo. A presidenta esteve comigo aqui durante duas horas e meia sem absolutamente entrarmos em nenhum assunto que se referisse à governança. Ela terá independência para escolher a diretoria. Há natural participação do acionista controlador nas decisões, não é intervenção. Se eu fosse o presidente da Petrobras, eu me preocuparia muito pouco em falar para fora. Eu me dedicaria à gestão da empresa e me preocuparia em me relacionar bem com o acionista controlador. Esse é o desafio.

O senhor deu esse conselho para Magda Chambriard?
Não, até porque ela lê jornal. E eu sempre dei esse conselho para o Jean Paul Prates. É impossível você aceitar um convite pensando diferente de quem te convidou. Não necessariamente precisa estar completamente alinhado, mas tem que ter humildade de saber que quem decide é ele. É o líder quem decide.

Ela conseguirá tocar pesquisa e exploração na Foz do Amazonas?
Os extremos não contribuem. O “passar boiada” do governo anterior ia levar o Brasil à bancarrota. Outro extremo são ambientalistas radicais que não querem praticar a boa política: a que dialoga e, às vezes, perde e entende que faz parte da democracia. Seria cômodo eu embarcar em um discurso politicamente correto, mas eu faria um desserviço ao país. Não podemos tirar o direito do Brasil de conhecer suas potencialidades no setor mineral e no de petróleo.

Mas o senhor entende que Chambriard levará adiante o projeto?
Ninguém em sã consciência aceitaria um desafio conhecendo a visão do governo, incluindo a do ministro de Minas e Energia, se tivesse visão diferente. Quero acreditar que ela vai, sim, se esforçar e terá meu total apoio. Ela vai se esforçar para manter a empresa com credibilidade alta, atrativa para o investidor, mas reconhecendo que a Petrobras não é exclusivamente uma empresa de exploração de petróleo. Ela tem outras obrigações com o investidor e com o Brasil: gás, fertilizante, refino.

E como convencer a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva?
A ministra Marina Silva, nas nossas reuniões sobre o tema, nunca foi textual que é contra. Ela sempre disse que está no Ibama sendo analisado tanto quanto outros processos de licenciamento. Eu não quero acreditar que ela é contra, porque para ser contra a alguma coisa você tem que ter dados objetivos. Esses dados objetivos nunca foram colocados.

No meio dessa tragédia no Sul, a pauta de investir em combustíveis fósseis não vai na contramão da preservação ambiental?
Todos esses projetos são sintonizados. É preciso uma transição energética justa e inclusiva. Ninguém consegue prever em quantos anos nós vamos poder abrir mão dos combustíveis fósseis.

Já há solução para a isenção na conta de luz dos gaúchos?
Pretendo apresentar até segunda-feira. É evidente que quem perdeu tudo não vai ter condição de pagar a conta de energia enquanto não tiver a vida reestabelecida. Se não achar a solução dentro do próprio setor elétrico, tem de achar recursos do Tesouro Nacional.

O senhor já defendeu que parte dos subsídios da conta de luz sejam pagos pela União, o que não foi bem recebido pela Fazenda. O senhor não teme criar um conflito com o ministro Fernando Haddad por isso?
Não chamo nenhum debate de conflito. Essa é uma ideia que eu levei ao ministro Haddad. Não me sinto confortável em participar de qualquer estímulo a qualquer coisa que possa dividir o governo.

O que falta para sair o acordo com a Eletrobras sobre a composição do conselho de administração da empresa, depois que o governo judicializou a questão?
Ainda não há uma decisão tomada se o caminho será acordo ou decisão judicial. Há uma construção ou possibilidade de acordo. E ele não saiu ainda porque o diálogo está em andamento. Nós buscamos fazer justiça. A União é acionista majoritária, tem 43% das ações e só um de nove conselheiros. Não é muito razoável que aumente para onze para dar três ou quatro (essa era uma das propostas em discussão). Tem que discutir a proporcionalidade dentro do número de conselheiros que existem hoje, que são nove.

O senhor acredita que será possível fechar um acordo com Vale e BHP para reparação em Mariana?
É um acordo extremamente complexo, mas eu tenho plena convicção de que ele é possível e, mais do que isso, necessário. Para ambas as partes. Para as empresas, porque elas têm um dano de imagem brutal e um risco econômico nessa ação. E para os brasileiros, porque a morosidade na judicialização desse processo pode ser altamente prejudicial para os danos a serem reparados.

Geralda Doca, Renata Agostini e Manoel Ventura