Setor desperdiça ¾ de seu potencial de produção de energia do bagaço de cana
O potencial técnico de exportação de eletricidade da indústria canavieira, utilizando apenas o bagaço, atualmente, já é cinco vezes maior do que a energia comercializada no ambiente regulado em 2015. O diagnóstico da baixa eficiência na geração de eletricidade pelas sucroalcooleiras consta em um estudo do governo federal divulgado recentemente que deve nortear o planejamento energético do Brasil.
Isso significa que se todas as usinas brasileiras destinassem o bagaço resultante da moagem da safra atual para a produção de energia, poderiam ser adicionados ao sistema elétrico quatro vezes mais do que o 1,4 GW médios assegurados via leilão, totalizando 5,5 GW médios.
Segundo a ANEEL, em 2014 o aumento na capacidade instalada das produtoras independentes de energia (PIE) que utilizam a cana-de-açúcar como matéria-prima foi de 14%. No início do ano passado a capacidade instalada era de 7,9 GW e, em maio deste ano, o número já atingia 9 GW.
Este crescimento, no entanto, não se compara ao gigantesco potencial de cogeração não aproveitado no setor sucroenergético, entre as mais de 370 usinas em operação, cerca de 200 comercializam energia, sendo que apenas 40% o fazem por meio de leilões.
A seguir, o trabalho do governo sobre o potencial técnico máximo de geração de bioeletricidade, as projeções de exportação de energia e os gráficos detalhando o futuro energético previsto para as usinas.
E mais:
- As perspectivas (e disparidades) de eficiência na conversão do bagaço
- O potencial da palha e pontas de cana
- A energia disponível para o mercado livre.
O potencial técnico de exportação de eletricidade da indústria canavieira, utilizando apenas o bagaço, atualmente, já é cinco vezes maior do que a energia comercializada no ambiente regulado em 2015. O diagnóstico da baixa eficiência na geração de eletricidade pelas sucroalcooleiras é um dos assuntos do Plano Decenal de Expansão de Energia 2024 (PDE), aberto para consulta pública neste mês.
Isso significa que se todas as usinas brasileiras destinassem o bagaço resultante da moagem da safra atual para a produção de energia, poderiam ser adicionados ao sistema elétrico quatro vezes mais do que o 1,4 GW médios assegurados via leilão, totalizando 5,5 GW médios.
Segundo informações do Banco de Informação da Geração, em 2014 o aumento na capacidade instalada das produtoras independentes de energia (PIE) que utilizam a cana-de-açúcar como matéria-prima foi de 14%. No início do ano passado a capacidade instalada era de 7,9 GW e, em maio deste ano, o número já atingia 9 GW.
Este crescimento, no entanto, não se compara ao gigantesco potencial de cogeração não aproveitado no setor sucroenergético, entre as mais de 370 usinas em operação, cerca de 200 comercializam energia, sendo que apenas 40% o fazem por meio de leilões.
Em uma estimativa mais conservadora, baseada na curva de conversão histórica do setor, a exportação poderia ser 64% maior do que o 1,4 GW médio contratado para 2015, alcançando 2,3 GW médio (veja gráfico abaixo).
Até o final do decênio as projeções do potencial técnico e da curva de conversão atingem patamares ainda maiores, respectivamente, de 7,1 GW médio e 3,7 GW médio.

Para o governo fazer as projeções de geração energética a partir do bagaço de cana, foi realizada a análise das usinas vencedoras de leilões de energia e se obteve um fator médio de exportação de 73,8 kWh/t de cana processada. Para isso, a premissa considerada é de que todo o bagaço gerado seria utilizado para geração de energia. O crescimento adotado nas duas situações teve como base o menor crescimento encontrado de 2007 a 2014.
O PDE baseou-se também nos dados de oferta de etanol e açúcar estimados no mesmo estudo. Além disso, níveis já estimados de produção e características técnicas das usinas também foram levados em conta para calcular o potencial técnico e a curva de conversão baseada no comportamento histórico do setor.
Eficiência na conversão
Grande parte das sucroalcooleiras utiliza caldeiras de baixa pressão, com pouca eficiência de geração energética, o que limita o potencial de geração de energia. Dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) mostram que o fator médio de exportação é de 76 kWh/t cana, índice melhor que a média das usinas vencedoras de leilões de energia de 73,8 kWh/t.
No entanto, é possível dobrar esse número com tecnologias modernas. O que pode ser observado mesmo entre os projetos vencedores dos leilões, em que há uma grande disparidade de eficiência, desde usinas com excedentes entre 60 kWh/t até 130 kWh/t de cana.
Estudos recentes apontam que com caldeiras de maior pressão e temperatura e não concorrência do bagaço com a produção de etanol lignocelulósico, pode se chegar a excedentes de energia elétrica de até 160 kWh/t de cana.
Palha e pontas
Outro número apresentado foi o potencial técnico para se gerar energia com uma fração até pouco tempo ignorada pelas usinas. A palha e as pontas da cana, que pode servir também para a indústria de etanol de segunda geração, tem condições de dobrar a geração de energia mais otimista projetada para o final do período decenal.
Com base na disponibilidade de palhas e pontas para as usinas do Centro-Sul – responsável por 90% do total de cana no país –, visto que a maior parte do Nordeste não estará utilizando colheita mecanizada, seria possível ampliar em 7,4 MW médio a geração em 2024, de acordo com o PDE
Para esse cálculo, o estudo utilizou dois valores encontrados em outras publicações: 500 kWh/tonelada de palha e 787,5 kWh/tonelada de palhas e pontas. Os resultados indicam que os potenciais técnicos de exportação de energia ao SIN a partir destas biomassas seriam de 7,4 GWméd e 11,7 GW médios, respectivamente, ao fim do período decenal.

Energia de sobra
“A energia comercializada no ambiente regulado representa apenas uma pequena parcela do potencial do setor”, avalia o trabalho realizado pela EPE. Como a energia elétrica contratada das usinas vencedoras dos leilões é inferior à sua garantia física total, que representa a quantidade máxima permitida de energia que a térmica pode comercializar, ainda existe um montante extracertame que pode ser comercializado no mercado livre.
Atualmente os projetos geradores de energia com bagaço têm condições de vender no spot cerca de 760 MW médios e, estes mesmos, poderão oferecer quantidade superior a 900 MW médios, em 2020.
Somados os totais de energia contratada e o extracertame, em cincos anos é previsto crescimento de pouco mais de 20%. Para 2020, espera-se um total de 2700 MW médio ao ano disponíveis, que serão alcançados entre leves incrementos e períodos de estabilidade.

Até maio deste ano foram realizados 16 leilões com participações de usinas sucroenergéticas, resultando um total contratado de 1,8 GW médio até 2020.
Dentre os principais fatores que inibem a maior contribuição da bioeletricidade no cenário nacional, conclui a EPE, “destaca-se a localização de algumas usinas, longe dos pontos de distribuição de energia e os problemas de licenciamento, por descasamento entre os prazos de leilões e as respostas dos órgãos ambientais”.
O estudo salienta, por outro lado, uma significativa vantagem para as indústrias do setor com a venda bioeletricidade por leilão, que garante aporte financeiro constante e contratos de longo prazo, em contraposição à sazonalidade da produção de cana.
O estudo completo da EPE pode ser acessado aqui: PDE 2024.
Jorge Mariano – NovaCana