NovaCana

Governo brasileiro entra na batalha pelo etanol nos EUA

Brasil busca mercado de etanol nos EUAO portal NovaCana analisou um documento enviado pelo Governo Federal aos EUA tratando da polêmica participação do etanol brasileiro no mercado norte-americano
NovaCana 7 min de leitura
No dia 8 de abril um documento de cinco páginas, enviado em nome do governo federal, saiu dos escritórios do Ministério de Minas e Energia (MME) em Brasília direto para a Agência de Proteção Ambiental (EPA) nos EUA. O arquivo, com duas mil palavras, gira em torno do assunto que, nos últimos três meses, dominou as discussões dentro da agência norte-americana: o etanol.

Brasil busca mercado de etanol nos EUA
O texto é assinado por Ricardo Dornelles, diretor do Departamento de Combustíveis Renováveis do MME. Além da importância do cargo que ocupa, Dornelles é conhecido no setor sucroenergético por sua posição dura e, frequentemente, contrária a dos usineiros brasileiros.

No entanto, o conteúdo do documento pode surpreender muitos envolvidos com o setor, não apenas pelas informações enviadas pelo representante do MME à EPA, mas pela posição que o governo federal defendeu em relação ao mercado brasileiro de cana-de-açúcar.

Além disso, o documento apresentado a seguir será analisado pelo órgão do governo nos EUA como a posição oficial do Brasil e ajudará a determinar a política que afetará diretamente as exportações brasileiras de etanol.

Confira abaixo os pontos mais importantes do documento.

E mais:
·    A posição oficial e os argumentos do governo federal enviados à EPA
·    O curioso pedido por agilidade à EPA
·    Para o governo a crise na oferta de etanol em 2011 foi, por um lado, positiva. Veja a explicação
·    O principal objetivo do documento
·    Os preços das RINs: variável mais importante na questão da exportação
·    Governo defende transformação do etanol em commodity

No dia 8 de abril um documento de cinco páginas, enviado em nome do governo federal, saiu dos escritórios do Ministério de Minas e Energia (MME) em Brasília direto para a Agência de Proteção Ambiental (EPA) nos EUA. O arquivo, com duas mil palavras, gira em torno do assunto que, nos últimos três meses, dominou as discussões dentro da agência norte-americana: o etanol.

O texto é assinado por Ricardo Dornelles, diretor do departamento de combustíveis renováveis do MME. Além do cargo que ocupa, Dornelles é conhecido no setor sucroenergético por sua posição dura e, frequentemente, contrária a dos usineiros brasileiros.

No entanto, o conteúdo do documento, ao qual o portal NovaCana teve acesso através do site da EPA, no entanto, pode surpreender muitos envolvidos com o setor, não apenas pelas informações enviadas pelo representante do MME à EPA, mas pela posição que o governo federal defendeu em relação ao mercado brasileiro de cana-de-açúcar.

Além disso, o documento apresentado a seguir será analisado pelo órgão do governo nos EUA como a posição oficial do Brasil e ajudará a determinar a política que afetará diretamente as exportações brasileiras de etanol.

E o MME não economizou nos argumentos para exaltar o etanol brasileiro.

Aproveitando a abertura dada pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA), o documento ressalta que os dois países compartilham a mesma visão sobre o papel da bioenergia no mundo e, juntos, representam 90% de toda a produção de etanol. Por isso, o texto alerta que "qualquer que seja a decisão dos dois países acerca das políticas de biocombustíveis, elas trarão significantes impactos nas políticas do resto do mundo".

O principal objetivo do texto é assegurar ao governo americano que o Brasil tem condições de exportar os 2,51 bilhões de litros (666 milhões de galões) de etanol de cana que a EPA prevê que serão necessários para completar o limite mínimo de combustíveis avançados a serem consumidos nos EUA em 2013. Este volume integra a lacuna de 816 milhões de galões de combustíveis avançados que será aberta devido à diminuição da meta de consumo de combustíveis celulósicos (mais informações sobre esses volumes aqui).

Dornelles argumenta que, desde que o Ato de Independência e Segurança Energética foi estabelecido, em 2007, o etanol de cana brasileiro ajudou os EUA a cumprirem seus objetivos de consumo total de combustíveis renováveis, mesmo com a indústria sucroenergética brasileira passando por uma grande crise no período. Para o governo brasileiro, o biocombustível de cana tem ajudado a garantir segurança energética americana e a reduzir em até 90% as emissões de gases do efeito estufa.

Com a recuperação do setor, comprovada pelo crescimento da produção de cana, de etanol e das exportações em 2012/2013 (o volume de exportações foi 90% maior do que na safra anterior, chegando a 3,36 bilhões de litros), as estimativas para 2013/2014 são bastante positivas. A expectativa é que a moagem de cana cresça 10% e a produção de etanol, 17%. No caso do biocombustível, este aumento deve ser suficiente para suprir tanto a maior demanda doméstica, ligada ao aumento da mistura de etanol à gasolina para 25% a partir de maio, quanto a demanda americana.

O diretor do departamento de combustíveis renováveis do MME atribui essa recuperação não apenas à melhoria nas condições climáticas, mas também ao empenho do governo e do setor em unir forças tanto por meio de liberação de linhas de financiamento para expansão e renovação dos canaviais (US$ 2 bilhões por ano), quanto por meio de reuniões mensais com representantes de ambos os grupos e do monitoramento da oferta, do consumo e das condições do mercado de etanol.

O ano de 2011, crítico para o etanol no Brasil, é lembrado com um olhar positivo. No texto enviado à EPA, o MME informa que, apesar das "restrições de oferta" de etanol por parte das usinas brasileiras, que obrigou a importação de grandes volumes do biocombustível, o governo federal "não tomou nenhuma medida para restringir a exportação de etanol," indicando suporte do Brasil à comoditização do combustível renovável.

No início do ano, o governo brasileiro foi alvo de críticas por demorar para definir a volta da mistura de 25% do álcool na gasolina, mas, curiosamente, o documento pede pressa na definição da EPA. O argumento é semelhante ao utilizado pela usinas contra o governo brasileiro na época. "É importante que a EPA defina, na primeira oportunidade, uma regra final para fornecer sinais de mercado aos produtores de cana e operadores de fábricas no Brasil que já estão tomando as decisões de produção com base na demanda projetada para o etanol de cana nos Estados Unidos."

Dornelles diz ainda que a produção de etanol não seria a grande incerteza com relação à materialização das exportações, mas sim os preços dos RINs. Para ele, a variável mais importante desta "equação de viabilidade" da importação de etanol do Brasil pelos EUA é a diferença entre RIN avançado e convencional.

O texto defende ainda a atitude da EPA de não diminuir a quota de consumo de biocombustíveis avançados, assim como aconteceu com os celulósicos, porque uma redução iria contra os objetivos de segurança energética e queda na emissão de gases do efeito estufa, especialmente considerando que há oferta destes biocombustíveis, o que não é o caso dos combustíveis celulósicos.

O MME destaca, mais uma vez, que o governo brasileiro defende a transformação do etanol em commodity e diz que, de acordo com as estimativas, o Brasil conseguirá também suprir parte do volume de 14,2 bilhões de litros adicionais de biocombustíveis avançados requerido para o ano que vem. Contudo, o cenário ainda pode mudar, sendo então prudente que a EPA aguarde até que as informações sejam mais acuradas para tomar uma decisão sobre o uso de biocombustíveis avançados para 2014.

O documento enviado pelo MME à EPA pode ser acessado na íntegra aqui (.pdf)

Vivian Faria - NovaCana
Compartilhar: