Aproveitando o aumento da gasolina, que foi reajustada em 6% na refinaria desde o dia 1º deste mês, as usinas elevaram o preço do etanol hidratado em 12,3% na semana passada, a maior alta semanal em cinco anos e meio, segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP. O anidro, que é misturado na gasolina, subiu 10,2% entre 28 de setembro e 2 de outubro. O aumento se refere ao reajuste nas usinas e deve chegar ao consumidor, embora o percentual não seja, necessariamente, o mesmo.
Segundo o Cepea, além do aumento da gasolina, dois outros fatores foram determinantes para o reajuste: as chuvas que atingiram São Paulo na semana passada — interrompendo a colheita de cana-de-açúcar — e a corrida das distribuidoras para comprar etanol antes que ele se valorizasse mais. Conforme levantamentos do Cepea, o volume de negócios de hidratado captado no mercado spot foi o quarto maior já registrado pelo Cepea em uma semana desde 2002.
Conforme publicado pela Agência Estado, na avaliação de alguns agentes do mercado, a expressiva valorização da última semana representa uma recuperação dos preços. Isso porque a atual temporada tem sido caracterizada por ritmo de negócios mais acelerado em função da necessidade de venda e de capitalização de algumas usinas.
Somente no dia da divulgação do reajuste da gasolina, o Indicador diário do hidratado ESALQ/BM&FBovespa, posto Paulínia (SP), subiu 7,05%, a maior alta já registrada em um único dia. Variação de mesma magnitude, mas refletindo movimento de queda, ocorreu apenas no dia 5 de março de 2011. A média da última sexta, de R$ 1.431,00/m3 (sem impostos), superou em 16,1% a da sexta anterior.
Nas bombas do estado de São Paulo, o aumento do etanol hidratado foi de 2,1% na média entre os dias 27 de setembro e 3 de outubro, na comparação com a média da semana anterior, segundo dados da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis). A relação entre etanol e gasolina segue favorável para o biocombustível no estado, em 64%. Outros estados também mostram vantagem para o etanol: Goiás (62,1%); Mato Grosso (56,2%); Mato Grosso do Sul (69,0%); Paraná (66,9%) e Minas Gerais (64,2%).
Do ponto de vista das unidades produtoras de açúcar e etanol, cálculos do Cepea mostram que o açúcar cristal remunerou 21% a mais que o anidro e 22% a mais que o hidratado na semana passada. Comparando-se os dois tipos de etanol, o anidro remunerou apenas 1% a mais.
O preço médio do etanol anidro que seria equivalente ao do açúcar cristal foi calculado em R$ 1,9038/litro (sem impostos) na última semana. Para obter equiparação com o açúcar, o hidratado precisaria ter tido média de R$ 1,7763/litro (sem impostos) e, com o anidro, de R$ 1,4813/litro (sem impostos).
No mercado internacional, o contrato de etanol anidro combustível desnaturado (primeiro vencimento – Outubro/15), na Bolsa de Chicago (CME/CBOT), subiu 2,94% na última semana de setembro; a média semanal foi de US$ 1,5492/galão (US$ 409,30/m3). Na New York Mercantile Exchange (Nymex), o contrato futuro de crude oil com vencimento em Novembro/15 teve média de US$ 45,01/barril na última sexta-feira, baixa de 0,35% sobre a sexta anterior.
Para Amaryllis Romano, economista da consultoria Tendências, os preços do setor estão defasados desde 2009, quando a crise atingiu em cheio os produtores. A isso somou-se a política da Petrobras de segurar reajustes da gasolina para tentar controlar as pressões sobre a inflação. Segundo dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP), o consumo de álcool hidratado nas bombas cresceu 41,4% este ano.
“A redução do Imposto sobre Circulação de Mercadorias (ICMS) sobre o etanol em estados como Minas Gerais já vinha tornando a relação com a gasolina mais favorável. A queda da renda das famílias impulsionou o consumo”, diz Amaryllis.
Ao mesmo tempo, lembra Amaryllis, o diesel, que também foi ajustado, em 4%, é um insumo importante na produção e colheita da cana, e no transporte do etanol, tendo peso importante na cadeia de custos. Com o reajuste, tornou-se um item a mais a pressionar as margens dos produtores. Mesmo com a alta da semana passada, o etanol hidratado acumula queda real de preço de 6,1% na média da safra atual.
E o aumento da demanda, acrescenta a economista da Tendência, não se restringiu à semana passada, mas vem desde o início do ano. Dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP), mostram que o consumo de etanol hidratado nas bombas cresceu 41,4% este ano, contra uma queda de 5,9% na demanda de gasolina comum.
“A redução do Imposto sobre Circulação de Mercadorias (ICMS) sobre o etanol em alguns estados, como Minas Gerais, já vinha tornando a relação com a gasolina mais favorável. Isso em um ambiente de queda da renda das famílias impulsionou o consumo”, observa a economista.
São Paulo responde por 60% da produção nacional de etanol, e o movimento de alta nos preços se reflete em outras regiões produtoras. Segundo o Cepea, em Goiás o preço do etanol hidratado subiu 10,6% na semana passada, enquanto o para comercialização para fora do estado, 11,4%. Em Mato Grosso, na semana o litro do etanol hidratado teve alta de 2,4%.
Ronaldo D’Ercole
Com informações adicionais da Agência Estado e edição novaCana.com