O preço da gasolina é um assunto que domina a pauta de reclamações do brasileiro. Em grande parte porque o Brasil experimenta um movimento diferente do resto dos países do globo.
Enquanto a queda dos preços do petróleo aliviou o peso da gasolina no bolso do consumidor mundo afora, por aqui os preços andam mais resistentes.
Com os preços dos combustíveis a mercê do político da vez, o consumidor brasileiro tem sido espectador nas flutuações do preço do petróleo mundo afora. Por aqui os gastos com a gasolina têm doído mais no orçamento do motorista médio.
Saindo de um período de forte manipulação na cotação, o país agora vive um momento de certa indefinição sobre quais serão as políticas adotadas em relação à gasolina. Até o momento, a postura sugere que não haverá mudanças e a elevação da Cide, que incide sobre combustíveis, está praticamente descartada.
Ainda assim, o fato é que o Brasil não tem a gasolina mais cara do mundo.
A constatação foi feita a partir de dados apresentados por um estudo da Bloomberg, que listou os preços em 61 países, cruzando três indicadores. A partir dos dados verifica-se quais lugares têm a gasolina mais acessível e quem compromete a maior parte do orçamento com o uso do combustível fóssil no mundo.
O Brasil aparece como o 40º colocado no ranking, com um litro da gasolina saindo, em média, US$ 1,07 (o equivalente a R$ 3,64) de acordo com o levantamento.
Já quando o assunto é o impacto na renda da população, o cenário do Brasil não é tão positivo, e são dois os fatores que influenciam o comprometimento do orçamento do brasileiro.

O ponto primordial, segundo a Bloomberg, foi que os valores cobrados pela gasolina se mantiveram artificialmente baratos por tempo demais no país. As manobras da ex-presidente Dilma Rousseff em relação aos preços nas bombas, como medida de contenção da inflação, não deram muito certo. E as consequências são que o país sofre tanto com a alta e persistente inflação quanto com a gasolina mais cara.
Soma-se a isso o fato de que a renda média diária do motorista brasileiro também caiu. Em 2014, brasileiro ganhava cerca de US$ 32,66 por dia; em 2015, US$ 23,75 e, agora, em 2016, US$ 20,35.
O resultado disso é que, enquanto o resto do mundo se beneficia da queda no petróleo, o brasileiro, desde o final do ano passado, tem gasto mais do seu salário para comprar gasolina.

Na segunda quinzena de 2016, o brasileiro se tornou o 6° colocado no ranking dos motoristas que tem a renda mais comprometida com o abastecimento com a gasolina. Há dois anos, no mesmo período de 2014, o Brasil era o 17º colocado nessa lista, com uma porcentagem dos ganhos destinados ao uso do combustível fóssil em 2,17%.
Por ano, agora, o brasileiro compromete cerca de 2,44% da sua renda na compra de gasolina. Os motoristas do país veem a sua renda mais comprometida do que os motoristas do Irã, por exemplo, país que tenta recuperação após anos de sanções econômicas.


Segundo os resultados da pesquisa, o país com o maior preço para a gasolina é Hong Kong. Um litro de gasolina no país custa em média US$ 1,88/litro, o equivalente a R$ 6,38. O país ultrapassou a Noruega que mantinha o topo da lista há alguns anos.
Em média, os residentes de Hong Kong pagam quase o dobro do que os seus vizinhos na China, onde o governo define o preço do combustível fóssil. Apesar de ter os preços mais caros no ranking, com os seus rendimentos urbanos mais altos, os motoristas do país pouco sentem o impacto no orçamento, ficando apenas atrás da China e da Venezuela.
O segundo país na lista é a Noruega. Com uma economia baseada no petróleo, o país é um produtor que não subsidia a gasolina na bomba. A estratégia é utilizar a riqueza do petróleo para financiar serviços nacionais e melhorias de infraestrutura. O preço médio da gasolina na bomba do país é US$ 1,73 – o equivalente a R$ 5,86. Com ganhos elevados, de cerca de US$ 190,47, o consumo compromete apenas 0,59% do orçamento dos noruegueses.
Na outra ponta da lista, está o quase surreal cenário da Venezuela. Os números deixam claro o que distancia países com gasolina muito cara e nenhuma intervenção, e outros onde o combustível é barato e o governo manobra a variação de preços.
A Bloomberg ironiza a situação do país ao citar que, em geral, “os países têm ideias diferentes de quais os direitos que são inalienáveis e a Venezuela está sozinha em considerar a gasolina ‘quase’ gratuita um direito de nascença”.
Destaca-se que, em 2016, o presidente Nicolas Maduro levantou os preços nas bombas agressivamente, mas encher um tanque gasolina ainda custa menos do que uma xícara de café no país. O preço da gasolina em média é um centavo de dólar nos postos venezuelanos. Mesmo comprometendo pouco da renda, os ganhos médios diários de um motorista venezuelano são de um pouco mais de US$ 16.
Na sequência vem o Kuwait que tem um dos maiores subsídios da gasolina do mundo. O estudo destaca que o FMI advertiu que o país vai esgotar suas economias de petróleo considerávelmente se continuar a subsidiar gasolina e programas sociais na taxa atual. Além disso, os kuwaitianos são os terceiros maiores consumidores de gasolina após os Estados Unidos e Canadá.
Por lá, um litro de gasolina custa US$ 0,23 – o equivalente a R$0,79 centavos. Mas a renda média diária no país é de quase US$ 70, o que leva consumo médio anual de 1.057,51 litros comprometer apenas 0,97% dos ganhos por ano.
Marina Gallucci – novaCana.com