Os contratos futuros de açúcar demerara voltaram aos níveis anteriores à sessão da última quinta-feira (5), quando a Bolsa de Nova York (ICE Futures US) despencou quase 5%. O déficit na oferta global do produto sustenta as cotações.

O analista João Carlos Botelho, da INTL FCStone, informou que a alta de ontem dos futuros de demerara pode até ser considerada "atípica". Segundo ele, "não se esperava uma recuperação rápida e tão grande dos preços". Botelho argumentou que o Centro-Sul do Brasil, maior região produtora de cana-de-açúcar do mundo, está com ritmo de colheita muito intenso. As usinas têm fabricado mais açúcar do que etanol, o que deveria influenciar negativamente o mercado.
"Os operadores parecem olhar mais à frente, com os sinais de déficit na oferta global nesta e na próxima safra", disse Botelho. A produção deve ser menor do que a demanda na atual safra 2015/16, que se encerra em 30 de setembro, alcançando até 10 milhões de toneladas, dependendo da consultoria. Já existe consenso entre analistas de que a próxima safra 2016/17, que começa em outubro de 2016, também deverá apresentar déficit.

Na Ásia, a situação é crítica. A Índia, maior consumidor mundial de açúcar, deverá registrar consumo maior do que a oferta nesta safra. No próximo ciclo, a expectativa é de que os indianos se tornem importadores líquidos do produto. Já a Tailândia, segundo maior produtor mundial, terá quebra de produção neste ano. Além disso, parte de sua produção acaba indo para a China, via contrabando.
Segundo o analista, o comportamento do dólar também pode ter influenciado a alta de ontem dos futuros de demerara, embora em menor proporção. Nos atuais níveis do câmbio, a fabricação de açúcar remunera muito mais que o etanol.
O dólar acumula desvalorização de cerca de 12% em relação ao real, desde o início do ano. A moeda norte-americana é pressionada, entre outros fatores, pela perspectiva de troca de comando no governo brasileiro, com o impeachment da presidente Dilma. Nem mesmo a intervenção do Banco Central, por meio da realização de leilões de swap reverso, tem sido suficiente para puxar a moeda para cima.
No exterior, o índice do dólar também recua, perdendo cerca de 5% desde janeiro. Ontem, a divulgação da uma inesperada queda de 3,41 milhões de barris nos estoques de petróleo nos EUA (as projeções de analistas indicavam aumento de 400 mil barris), na semana encerrada em 6 de maio, pressionou o dólar e, ao mesmo tempo, impulsionou os futuros de açúcar.
Botelho ponderou, no entanto, que os fundos de investimento estão com saldo comprado recorde em açúcar em Nova York. Nesse sentido, um movimento de correção para baixo, aliviando o peso dessa posição, deverá ocorrer em algum momento.
O mercado de demerara em Nova York trabalhou no terreno positivo ao longo de todo o pregão de ontem, marcando nova máxima no fim da sessão. O vencimento julho fechou em forte alta de 4,68% (75 pontos), a 16,77 cents. A máxima foi de 16,808 cents (mais 78 pontos). A mínima bateu 16,03 cents (1 ponto acima do fechamento anterior).
O valor à vista em reais do indicador do açúcar Esalq fechou ontem a R$ 75,23/saca (+0,01%). Em dólar, o preço ficou em US$ 21,83/saca (+0,69%).
