Ampliação ou redução da cana no terreno brasileiro depende do desenrolar da crise, de fatores de mercado externos e da pressão exercida pela pecuária e por outras culturas
Com um crescimento de 35% no período entre 2008 e 2014, a área plantada de cana-de-açúcar no Brasil ocupa cerca de 9 milhões de hectares, ou 14% de toda a terra destinada à agricultura no país. Mas o futuro de todo esse cultivo ainda é incerto.
O etanol segue à mercê de políticas públicas e o preço do açúcar nas alturas é só um momento do mercado na busca pelo equilíbrio entre produção e consumo.
A ampliação ou redução da cana no terreno brasileiro depende do desenrolar da crise vivida pelo setor nos últimos anos, de fatores de mercado externos e da pressão exercida pela pecuária e por outras culturas.
Sem se limitar ao curto prazo, um estudo avaliou diferentes cenários para apontar perspectivas sobre o futuro da cana-de-açúcar. E, como não poderia deixar de ser, do agronegócio brasileiro como um todo.
O resultado são as possibilidades de mudanças no uso da terra no país e por qual áreas a cana avançaria. “O foco está nos determinantes econômicos para o uso da terra com propósitos agrícolas. O objetivo ainda incorpora a dinâmica dos cultivos e da criação de gado que causam conversão do pasto em área cultivada”.
Saiba mais:
- Histórico e potencial de crescimento da área plantada de cana-de-açúcar nas diferentes realidades regionais.
- Impactos da cana-de-açúcar na pecuária e em outras culturas
- Perspectivas para exportações de açúcar e outras commodities no médio prazo.
Com um crescimento de 35% no período entre 2008 e 2014, a área plantada de cana-de-açúcar no Brasil ocupa cerca de 9 milhões de hectares, ou 14% de toda a terra destinada à agricultura no país. Mas o futuro de todo esse cultivo ainda é incerto. A crise vivida pelo setor nos últimos anos, a dependência de fatores de mercado externos e a pressão exercida pela pecuária e por outras culturas podem reduzir ou ampliar a importância da cana em terras brasileiras.
Os dados são do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, na sigla original). Consciente da importância da cana para o agronegócio brasileiro, o órgão elaborou um estudo que examina as possibilidades de mudanças no uso da terra no país.
Foram considerados aspectos como os preços do petróleo e do etanol, possíveis mudanças tecnológicas e características do mercado de commodities agrícolas. “O foco está nos determinantes econômicos para o uso da terra com propósitos agrícolas. O objetivo ainda incorpora a dinâmica dos cultivos e da criação de gado que causam conversão do pasto em área cultivada”, justifica.
A incógnita do preço do petróleo
Os cálculos do USDA que chegaram às projeções de ocupação da terra foram realizados com base em dois cenários: no primeiro, os preços do petróleo teriam um grande aumento e permaneceriam em alta até 2024; no segundo, haveria uma queda seguida pela continuidade dos preços baixos.

Na possibilidade de continuidade dos preços baixos, haveria uma queda nos custos de produção agrícolas de forma geral. Para a cana-de-açúcar, no entanto, isso seria acompanhado de uma diminuição na demanda por etanol e de um significativo declínio nos retornos das vendas. Nesse cenário, o preço da cana-de-açúcar cairia 3,6% ao ano entre 2015 e 2024, gerando quedas anuais de 10% na receita das usinas.
“Em ambos os cenários de preços altos e baixos de petróleo, o maior impacto é para o etanol” (USDA)
Consequentemente, o interesse pelo cultivo de cana diminuiria. Entre 2015 e 2024, a área média da colheita seria de 9,8 milhões de hectares, com o equivalente a 4,5 milhões de hectares destinados ao açúcar e 5,3 milhões ao etanol. Segundo o USDA, isso representa uma perda de aproximadamente 80% no crescimento em relação ao potencial estimado dentro de um cenário para preços estáveis do petróleo. Essa diminuição se daria na chamada região tradicional (saiba quais são os estados abaixo).
Já no panorama que considera preços altos para o petróleo, a área cultivada no Brasil teria uma queda inicial causada pelo aumento dos custos. Contudo, a ampliação na demanda por etanol causaria a expansão da produção de cana-de-açúcar em 11%, com o acréscimo de 946 mil hectares até 2024. Nesse cenário, a média do período 2015-2024 seria de 10,3 milhões de hectares, com o equivalente a 4,3 milhões de hectares destinados ao açúcar e 5,9 milhões ao etanol.
Essa ampliação aumentaria a produção de cana em 7,5 milhões de toneladas por ano, chegando a 926 milhões de toneladas em 2024. Além disso, as usinas dariam preferência por um mix com maior presença de etanol, com foco no consumo doméstico do combustível.
O USDA alerta que, nesse caso, as mudanças seriam sentidas de forma mais bruscas pelo agronegócio brasileiro, provocando alterações já no curto prazo. As novas áreas para a cana-de-açúcar viriam de regiões de pasto, de outras culturas temporárias e, também, de áreas paradas que voltariam a produzir.
Região tradicional x região de fronteira
Para o estudo, as áreas de cultivo foram divididas de uma maneira diferente do que normalmente é realizado no Brasil, pois o USDA levou em consideração características geográficas e de bioma em detrimento de fatores mercadológicos.
Uma das regiões consideradas é chamada de tradicional e envolve os estados São Paulo, Paraná, Alagoas, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Ceará, Paraíba, Rio Grande do Norte e Sergipe. A outra é a região de fronteira, englobando Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Bahia, Maranhão, Piauí, Acre, Amazonas, Amapá, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins.

A região tradicional, dessa forma, traz 69% do total da área cultivada de cana, registrando crescimento de 0,3% entre 2010 e 2014 – um dado puxado principalmente pelo acréscimo de 162 mil hectares em São Paulo. “Durante esse período, a área de pasto de São Paulo caiu em 37 mil hectares; também caíram as áreas de milho (34,411 mil hectares), soja (54,981 mil hectares), café (5,634 mil hectares) e destinadas a cultivos permanentes, como a laranja (29,828 mil hectares)”, enumera o USDA.
Já na região de fronteira, a expansão da cana-de-açúcar foi mais significativa, com um crescimento anual de 9,9% entre 2010 e 2014. Nesse caso, os maiores destaques foram Goiás, com 359 mil hectares adicionais, e Minas Gerais, com 274 mil hectares.

Potencial de crescimento por região
Para os próximos anos, a projeção do USDA dentro de um cenário de referência (com crescimento moderado dos preços do petróleo ao longo do tempo) é de uma expansão contínua do setor sucroenergético brasileiro. Tendo como base o valor de 8,8 milhões de hectares para 2014, o órgão projeta o valor médio de 10,2 milhões de hectares para o período de 2015 a 2024, com a maior parte da expansão acontecendo na região tradicional, que também seria a mais produtiva.
O USDA ainda aponta que, no cenário de preços altos para o petróleo, a área poderia chegar a 11,1 milhões de hectares em 2024. O número é bastante similar ao previsto pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), que calculou um cultivo de 11,07 milhões de hectares de cana para a safra 2023/24 e 11,29 milhões de hectares para 2024/25. Ou seja, a aposta do governo brasileiro dependeria de um aumento – imediato – nos preços do óleo cru.
“A área de 11,1 milhões de hectares em 2024 reflete a duplicação da taxa de expansão da área em 2015-24 na comparação com o registro histórico de 2010-14”, informa o USDA, ressaltando o impacto dessa projeção. Entre 2010 e 2014, a área de cana-de-açúcar cresceu 2,8% no país. “Embora aumentos na área de cana-de-açúcar ocorram em ambas as regiões, a região tradicional deve representar 70% da área que será adicionada à produção”, complementa.
Com relação à moagem, em 2024, a área tradicional produziria 675,9 milhões toneladas de cana-de-açúcar dentro de um cenário de preços altos do petróleo, que valorizaria a produção de etanol hidratado em substituição à gasolina valorizada. Em contrapartida, um cenário de preços baixos diminuiria o crescimento anual da moagem, que atingiria 631,8 milhões de toneladas em 2024.

Por sua vez, a região de fronteira viveria um problema similar com os baixos preços do petróleo, com a produção chegando a 236,3 milhões de toneladas – 13,8 milhões a menos que as 250,1 milhões de toneladas previstas no cenário de preços altos. Contudo, na comparação com 2014, o cenário menos otimista traz um crescimento de 38,3% na produção. A região tradicional, por sua vez, teria um aumento de 34,7%.

Impactos no agronegócio brasileiro
As mudanças na área do cultivo de cana-de-açúcar devem influenciar a alocação de terras e a competição entre outras culturas que, por sua vez, também serão influenciadas pelo preço do petróleo a partir de diversas maneiras – as mais notáveis são os custos de transportes e da operação do maquinário. “Dependendo da commodity, os custos de produção podem variar de acordo com o preço do petróleo, o salário mínimo, as taxas de juros e os preços dos fertilizantes”, enumera o USDA.
Para a cana-de-açúcar, em específico, o cálculo considera os maiores custos com sendo relativos aos fertilizantes e à força de trabalho. Em um cenário de preços altos para o petróleo, que estimula a ampliação do cultivo, a competição por terras disponíveis para a agricultura se intensifica.
Segundo o USDA, os preços altos do petróleo aumentariam os custos de produção agrícolas e diminuiriam os rendimentos da maior parte das culturas, diminuindo o espaço de áreas destinadas a alimentos em 12,3 mil hectares por ano, em média, até 2019 – a exceção seria a cana-de-açúcar, devido à valorização do etanol no mix das usinas. A continuidade da demanda mundial por alimentos, no entanto, traria uma recuperação após 2019, com um adicional de 293 mil hectares até 2024.
“Com uma menor produção interna de açúcar, milho, soja, arroz e algodão devido aos preços altos do petróleo, as exportações brasileiras dessas commodities devem cair”, afirma o documento, que completa: “Dada a posição de dominância global do Brasil nos mercados de açúcar, soja e milho, isso levará a preços mais altos para essas commodities no período”.

Assim, a cotação elevada do petróleo também influenciaria a produção agrícola internacional. Nos Estados Unidos, as principais culturas afetadas seriam o milho e o trigo – ambas utilizadas no país para a fabricação de etanol.

Já preços baixos de petróleo teriam o efeito inverso, prejudicando as perspectivas para a cana-de-açúcar ao diminuir o crescimento do mercado interno e desestimular a produção e a exportação de etanol. Ao mesmo tempo, eles estimulariam a ampliação da terra arável, aumentando as perspectivas para as exportações brasileiras – o que também incluiria o açúcar. Segundo o USDA, a área de campo cresceria 2,5 milhões de hectares, com a pecuária ganhando 1,1 milhão de hectares e culturas permanentes com 46 mil hectares até 2024.
“Com custos mais baixos de energia, incentivos econômicos encorajariam a plantação e a maior produção de grãos e sementes no Brasil e em outros países pelo mundo, o que levaria a uma queda nos preços mundiais”, aponta o USDA.
Segundo o documento, a combinação de uma alta produção e exportação no Brasil e nos Estados Unidos – atualmente o maior produtor e exportador dessa commodity – levaria a uma redução de até 2,94% no preço mundial do milho. Nos Estados Unidos, a produção aumentaria a uma média de 2,41% anualmente até 2024, com as exportações crescendo em 2 milhões de toneladas (+3,82%).
Os diferentes cenários para o preço do petróleo também trariam impactos para a pecuária e para outras culturas, como soja, algodão, trigo e arroz.
Para acessar o estudo completo elaborado pelo USDA, clique aqui (em inglês).
Renata Bossle – NovaCana