Relatório do Itaú BBA traz panorama histórico das transações realizadas pelo mercado
O RenovaBio ainda é uma promessa e, apesar de potencialmente positivo, o mercado ainda não se arriscou a projetar os resultados que a iniciativa deve gerar. Assim, o cenário atual permanece pouco atrativo para novos investimentos. Por mais que novos negócios de aquisição e fusão tenham entrado no radar do setor de açúcar e etanol, ainda não há um equilíbrio entre rentabilidade e custos que justifique uma verdadeira retomada. Até mesmo os investimentos estrangeiros, que estavam em alta no início da década, diminuíram devido à baixa rentabilidade.
Uma apresentação sobre acesso a financiamento e endividamento do Itaú BBA, realizada no início de novembro, mostra que as incertezas em relação ao futuro do setor de açúcar e etanol mantêm as atividades de fusão e aquisição reduzidas.
Leia mais:
- Perspectivas em fusões e aquisições no setor de açúcar e etanol para os próximos anos
- O impacto do RenovaBio nas avaliações das empresas
- Histórico das transações da última década por valor e por capacidade de moagem
- Fatores que levaram à queda nas negociações entre sucroenergéticas
O RenovaBio ainda é uma promessa e, apesar de potencialmente positivo, o mercado ainda não se arriscou a projetar os resultados que a iniciativa deve gerar. Assim, o cenário atual permanece pouco atrativo para novos investimentos. Por mais que novos negócios de aquisição e fusão tenham entrado no radar do setor de açúcar e etanol, ainda não há um equilíbrio entre rentabilidade e custos que justifique uma verdadeira retomada. Até mesmo os investimentos estrangeiros, que estavam em alta no início da década, diminuíram devido à baixa rentabilidade.
Uma apresentação do Itaú BBA sobre acesso a financiamentos e endividamento, realizada no início de novembro durante a Conferência Internacional Datagro sobre Açúcar e Etanol, mostra que as incertezas em relação ao futuro do setor mantêm as atividades de fusão e aquisição reduzidas. O padrão, que vem sendo observado nos últimos anos, pode ser esperado para os próximos.

O analista sênior de agronegócios do Itaú BBA, Guilherme Melo, explica que os processos de expansão das empresas atualmente só irão se consolidar quando houver mais confiança no setor. “As incertezas em relação ao futuro e a falta de valorização do papel do etanol na matriz energética brasileira diminuem a frequência das transações”, afirma.
Por enquanto, baixar o endividamento ainda é a prioridade das empresas. Em um setor onde a pressão cambial, a enorme quantidade de débitos e a necessidade de gerar liquidez são constantes no dia a dia das usinas, qualquer medida que ajude a reverter a situação é bem-vinda.
Ainda assim, é possível afirmar que a disparidade financeira entre as companhias – em que algumas estão em uma situação muito boa e outras acumulam dívidas e prejuízos – cria um ambiente propício para que ocorram algumas transações, em que grupos grandes estão interessados em comprar usinas menores, especialmente as que estão próximas das unidades que eles já possuem. Em contrapartida, empresas com problemas ou prestes a falir estão tentando vender suas unidades. “Quando existe uma diversidade muito grande nos resultados da saúde financeira das empresas, acaba surgindo espaço para possíveis processos de consolidação, como o que vimos em 2017”, complementa o analista do Itaú BBA.
“Entraremos em um período com preços do açúcar um pouco mais baixos do que nos últimos anos e continuamos muito sujeitos ao comportamento do preço do etanol. A expectativa, em relação às fusões e aquisições, então, é que não vá ser muito melhor do que em 2017”, Guilherme Melo (Itaú BBA)
Os ânimos estão focados na cautela, mas ainda há espaço para investimentos, dependendo das possibilidades das empresas. O esperado é que as operações continuem acontecendo como de 2012 para cá: moderadas e menos frequentes, mas constantes.
Consolidação do cenário
Nos últimos nove anos, o setor vivenciou grandes mudanças no volume total de capacidade de moagem envolvida nas operações. Entre 2009 e 2011, as transações envolveram 142,3 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, graças ao cenário positivo que se iniciou após a crise de 2008, quando muitas usinas foram colocadas à venda gerando oportunidades de compra para empresas com maior capital.
Em 2009, as transações de fusão e aquisição movimentaram 49,5 milhões de toneladas de cana-de-açúcar. Entre os destaques estão a entrada da Renuka no mercado brasileiro com a aquisição das usinas do grupo Vale do Ivaí e a fusão entre a Louis Dreyfus Commodities Bioenergia (LDC Bioenergia) e a Santelisa Vale (SEV), formando o grupo que hoje é conhecido como Biosev.
Este cenário chegou ao ápice em 2010: o mercado de açúcar e etanol estava aquecido, especialmente com a entrada de importantes empresas multinacionais no setor, o aumento do interesse por automóveis flex e o otimismo com a superação da crise econômica de 2008. Foi neste ano que a Renuka adquiriu metade da Equipav Açúcar e Álcool, e a Shell e a Cosan se uniram na joint-venture que deu origem à Raízen. As transações em 2010 chegaram à marca de 74,1 milhões de toneladas envolvidas, o maior número da última década. A animação, no entanto, durou pouco.

Com o aumento do custo de produção, em função da quebra da safra de cana-de-açúcar em 2011/12, da falta de competitividade do etanol e de investimentos tardios na recuperação de canaviais e na mecanização, a necessidade de empréstimos aumentou, os bancos ficaram mais seletivos e as dívidas se tornaram cada vez mais altas e difíceis de serem quitadas.
Até hoje o setor vive as consequências dessa crise que afetou as usinas de forma distinta, intensificando a disparidade entre elas.
Queda nos valores
Desde 2012, as transações envolveram especialmente as empresas que se encontravam em dificuldades e, em alguns casos, já em recuperação judicial – situação que, em geral, reduz o preço de venda das usinas. Com a deterioração dessas unidades, o resultado é uma diminuição no valor das transações, tendência que tem sido vista nos últimos anos. O foco na redução do endividamento também fez cair a quantidade de transações por ano.
O RenovaBio deve mexer com essa dinâmica, mas os analistas do Itaú BBA ainda evitam se arriscar.
Considerando a intenção do governo ao criar o RenovaBio, parece claro que a iniciativa vai aumentar as diferenças entre as usinas. Aquelas mais eficientes e com capacidade de investir para reduzir as emissões de CO2 terão uma nota melhor, emitirão mais CBios e podem lucrar mais. Já as demais terão mais dificuldade em captar as vantagens do programa.
Dentro do RenovaBio, o valor do CBio dependerá do tamanho da meta de descarbonização a ser estipulada pelo governo. Se seu preço ficar elevado, beneficiará até mesmo as unidades menos saudáveis, oferecendo um respiro maior. Por outro lado, caso haja sobra de CBio no mercado, o preço será reduzido e o lucro potencial ficará menor.
Como o CBio tem validade de três anos, seu valor também pode flutuar devido a uma série de fatores além da meta, como o consumo de combustíveis e os preços do petróleo e do etanol. Com um planejamento de investimento bem feito, muitas usinas poderão aproveitar essa possibilidade e melhorar seus quadros.
Enquanto o RenovaBio ainda não é oficializado, entretanto, estas são questões que o mercado ainda evita analisar. Mas, em 2018, as consequências esperadas do RenovaBio serão determinantes para alterar a dinâmica das negociações de fusões e aquisições.
Rafaella Coury – NovaCana