Mudanças significativas nas barreiras comerciais devem redesenhar o cenário de um dos mercados mais protegidos entre as soft commodities, o mercado global de açúcar. Com diversos países produtores protegendo a indústria doméstica com políticas de preço mínimo, restrições à produção e cotas de importação, um processo gradual de liberação pode derrubar as cotações. Tal perspectiva tem feito com que produtores e exportadores trabalhem para acessar e entender como competir em mercados recém-abertos.
A maior alteração será feita na União Europeia (UE) que, a partir de outubro de 2017, irá remover cotas de produção e a política de preço mínimo aos produtores de açúcar derivado da beterraba. A expectativa é que os produtores negociem parte da produção adicional no mercado externo, o que deve tornar a UE um concorrente internacional.
Além disso, a Organização Mundial do Comércio (OMC) está avaliando se a Tailândia, o segundo maior produtor global, está violando as regras de comércio internacional ao subsidiar a produção local. O caso foi apresentado pelo Brasil, o maior fornecedor global e defensor da liberação. Barreiras na África também têm sofrido pressão de acordos regionais.
"Todo o mercado de açúcar será afetado", afirma Hartwig Fuchs, CEO da Nordzcucker AG, a segunda maior produtora de açúcar na UE. O executivo estima que o continente tem potencial para exportar mais 3,5 milhões de toneladas por ano, equivalente a 6% do volume negociado globalmente.
As mudanças apresentam incertezas num período de volatilidade do mercado. O consumo deve superar a oferta em 2016, após cinco anos de excedente e preços estáveis. Nos últimos meses, o mercado ainda foi impulsionado por secas, que atingiram lavouras em várias regiões produtoras. Ainda assim, analistas avaliam que os preços podem ser pressionados pelo avanço da produção no longo prazo.
A liberação do mercado de açúcar é tardia em comparação com outras commodities. O governo norte-americano, que tem taxado a importação de açúcar desde 1789, segue oferecendo preço mínimo aos produtores locais, impõe cotas de produção e taxas de importação. Ainda assim, o mercado deve observar importantes mudanças nos próximos anos.