A organização dos ativos industriais e agrícolas “ajuda a Biosev a se defender de potenciais concorrentes, ao impor altas barreiras de entrada”
A agência de classificação de risco Fitch Ratings analisou a situação financeira da sucroalcooleira Biosev. A companhia, com a segunda maior capacidade de moagem do setor global de açúcar e etanol, apesar da moderada alavancagem, mantém uma fraca posição de liquidez no setor.
Confira a seguir o perfil de risco de negócios da Biosev, as bases da análise e as perspectivas da agência para a safra 2014/15 da companhia, além de considerações sobre:
- Atuação em cluster e escala de produção
- O impacto dos investimentos sobre a operação
- Perfil de dívida
- Nível de alavancagem
A agência de classificação de risco Fitch Ratings atualizou a análise da dívida da sucroalcooleira Biosev. Com a segunda maior capacidade de moagem do setor global de açúcar e etanol, a companhia pertencente à francesa Louis Dreyfus Commodities Holdings Group (LDCH Group) manteve o ratings de probabilidade de inadimplência do emissor (IDRs - Issuer Default Ratings) em ‘BB-’ em moedas estrangeira e local e também o rating nacional de longo prazo, a nota em 'A+(bra)'. A perspectiva das notas é “estável”.
Conforme a Fitch, a avaliação reflete “fortes vantagens competitivas” da Biosev no setor brasileiro de açúcar e etanol, como grande capacidade de moagem, o modelo de negócios baseado em polos industriais e agrícolas em uma mesma região e, especialmente, o fato de ser subsidiária da Louis Dreyfus.
“No entender da Fitch, a filiação traz benefícios operacionais e financeiros à Biosev, além de ampliar as oportunidades para que a companhia aproveite a comprovada experiência do Grupo LDCH no mercado global de commodities agrícolas”, destaca o relatório.
A empresa tem como principais desafios alongar o perfil de vencimento de sua dívida e equilibrar o fluxo de caixa livre, apesar do enfraquecimento no ciclo de commodities.
Avalia-se que através do grupo francês, a afiliada brasileira consegue acessar uma ampla base de dados sobre a situação atual dos mercados globais de açúcar e etanol; os volumes em estoque e a demanda pelos dois produtos; as tendências dos preços; e o desempenho global de moedas estrangeiras, dentre outra informações.
Além de fornecedora de informação, a gigante no mercado de commodities é um dos principais clientes do açúcar produzido pela sua subsidiária. Com a adoção de eficientes práticas de administração de risco, diz a análise, a Biosev obteve “atraentes preços” para o açúcar – de 19,37 centavos de dólar por libra-peso na safra de 2014/2015, em 30 de junho de 2014 –, protegidos por hedge, além de ter ajudado a reduzir o impacto da recente volatilidade cambial.
Para as notas também foram levadas em conta a moderada alavancagem da companhia e sua posição de liquidez no setor, considerada “fraca”. A Fitch define como principais desafios da Biosev o alongamento do perfil de vencimento da dívida e o equilíbrio do fluxo de caixa livre, “apesar do enfraquecimento no ciclo de commodities”.
Investimentos restringem caixa
A agência acredita que para melhorar o desempenho agrícola – tanto em produtividade (TCH) como na qualidade dos açúcares (ATR), que estão abaixo das médias do setor – a sucroalcooleira continuará investindo no plantio e no tratamento de seus canaviais. Assim deve aumentar a utilização da capacidade, “o que se traduzirá em ganhos de margem operacional”.
No entanto, para melhorar a produtividade de seus canaviais e a utilização da capacidade, na opinião da Fitch, a Biosev deverá reportar uma geração de fluxo de caixa (FCF) negativa até a safra 2015/2016, devido aos elevados investimentos necessários.
“No período de doze meses encerrado em 30 de junho de 2014, o fluxo de caixa das operações (CFFO) totalizou R$ 623 milhões, uma queda frente aos R$ 879 milhões registrados em 31 de março de 2014. O CFFO foi impactado pela retenção dos estoques de açúcar, diante da expectativa de melhores preços internacionais até o final da safra 2014/2015”, explicou a agência.
No mesmo período encerrado em 30 de junho, o CFFO não foi suficiente para cobrir investimentos de R$ 1,1 bilhão, o que resultou em um FCF negativo de R$ 496 milhões, frente ao FCF negativo de R$ 247 milhões registrado no ano fiscal de 2014.
Clusters e escala de produção
Com uma capacidade de moagem de 36,4 milhões de toneladas, distribuída por 11 usinas, a Biosev registra a segunda maior capacidade de moagem do setor, aliada a uma forte estrutura de estocagem para a produção de açúcar e etanol. Segundo a Fitch, a substancial capacidade de armazenagem permite à companhia aguardar momentos mais favoráveis para vender seus produtos.
A organização em clusters gera sinergias operacionais e assegura o abastecimento adequado de cana-de-açúcar às usinas, o que ajuda a Biosev a se defender de potenciais concorrentes
A análise destaca a organização dos ativos industriais e agrícolas da companhia em torno de polos, os clusters, o que gera sinergias operacionais e assegura o abastecimento adequado de cana-de-açúcar às usinas. O modelo “ajuda a Biosev a se defender de potenciais concorrentes, ao impor altas barreiras de entrada”.
A agência faz ainda ponderações positivas à localização das usinas, situadas em regiões com acesso a solo de boa qualidade e próximas aos principais centros de consumo do Brasil, o que assegura uma eficiente logística de acesso a terminais portuários. Também é considerado benéfico o fato de algumas unidades de produção estarem aptas a exportar etanol para os Estados Unidos.
“No entender da Fitch, a Biosev não realizará aquisições a curto e médio prazos. “Após uma série de aquisições, a agência acredita que a nova administração melhorará a rentabilidade dos atuais ativos, antes de buscar oportunidades de crescimento inorgânicas, como no passado. A Fitch considera a atual estratégia de rentabilidade positiva e favorável aos ratings”, diz o relatório.
Perfil de dívida administrável
A Fitch acredita que a Biosev será capaz de melhorar sua fraca posição de liquidez a curto prazo. Segundo a metodologia da agência, em 30 de junho, o caixa e as aplicações financeiras da companhia, de R$ 1,2 bilhão, cobriam 56% da dívida de curto prazo, que somava R$ 2,2 bilhões. O índice é pior do que o registrado um ano antes.
“Este índice de cobertura melhora para 84% quando o fluxo de caixa das operações (CFFO) é adicionado à posição de caixa. Os dois índices se comparam desfavoravelmente aos 83% e 122%, respectivamente, reportados em 31 de março de 2014”, reporta a análise. Por outro lado, a Fitch avalia que a companhia não enfrentou dificuldades para rolar a dívida de curto prazo.
Incluindo os recursos recebidos do grupo controlador, a dívida total da empresa é de R$ 7,8 bilhões. O valor incluiu os adiantamentos da Louis Dreyfus, que são tratados pela agência como empréstimos entre companhias, utilizados no financiamento das necessidades de capital de giro. “Esta dívida apresenta menor risco de refinanciamento frente à dívida bancária regular, devido à sua natureza ‘entre companhias’. Em 30 de junho de 2014, 68,5% da dívida da sucroalcooleira estava denominada em moeda estrangeira, hedgeados por exportações de açúcar e por uma política de hedge conservadora contra oscilações cambiais”, considera a análise.
Alavancagem moderada
Para as notas, a Fitch admite que a Biosev conseguirá manter índices moderados de alavancagem ajustada pelas obrigações relativas às terras arrendadas, de 3,5 vezes a 4,5 vezes nos próximos anos. O indicador, medido pela relação entre dívida líquida e Ebitda, apontava uma média de alavancagem total ajustada de 5,9 vezes no setor, conforme a carteira da Fitch em setembro de 2013.
Na opinião da agência, a capacidade da companhia de reduzir a alavancagem dependerá de sua habilidade em melhorar a qualidade dos canaviais e reduzir a capacidade ociosa de suas usinas, a fim de diluir os custos fixos e beneficiar a geração de fluxo de caixa operacional.
A empresa já vem adotando iniciativas para melhorar a margem Ebitdar (Lucros antes de juros, impostos, depreciação, amortização e reestruturação), com medidas que incluem o fechamento da usina Jardest e o corte de funcionários. No período encerrado em 30 de junho, as receitas líquidas totalizaram R$ 4,1 bilhões e o Ebitdar atingiu R$ 1,5 bilhão, o que resultou na margem Ebitdar de 36,4%.
O relatório pontua ainda que a variação nos preços do açúcar e etanol terão um importante papel nos futuros indicadores de crédito da companhia, que fica exposta às oscilações de mercado e políticas públicas, assim como revezes climáticos.
NovaCana