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Figliolino, do Itaú BBA, fala sobre recuperação, estoques, dívidas e os impactos sobre as usinas

alexandre figliolino itau bba 230315Levando em consideração que 11 instituições bancárias brasileiras foram rebaixadas na esteira do downgrade do rating soberano do Brasil, não restam dúvidas de que dificuldades adicionais ao crédito vão surgir para as usinas

NovaCana 9 min de leitura

Comandando uma carteira de clientes que corresponde a 70% da produção de álcool e açúcar do Centro-Sul, o diretor de agronegócios do Itaú BBA, Alexandre Figliolino, é uma das figuras mais respeitadas do setor. No mercado sucroalcooleiro, suas opiniões repercutem fortemente e ajudam na tomada de decisões de algumas das maiores empresas do ramo.

Em entrevista exclusiva ao portal NovaCana, Figliolino analisou a conjuntura atual, tratando do rebaixamento do rating soberano brasileiro e seu impacto no setor sucroenergético, do endividamento dos grupos e sua relação com a taxa cambial.

Para o executivo o efeito do dólar sobre dívida, acabará compensado por uma receita de exportação maior e há uma brecha que poderá abrir espaço para o aumento da Cide.

Levando em consideração que 11 instituições bancárias brasileiras foram rebaixadas na esteira do downgrade do rating soberano do Brasil, não restam dúvidas de que dificuldades adicionais ao crédito vão surgir para as usinas.

Entre os afetados estão...


Conheça a seguir os argumentos de Figliolino e sua opinião sobre os principais pontos de impacto sobre as usinas:

- Os argumentos que fazem o banco apostar numa recuperação do setor.

- “Dívida é que nem colesterol: há a boa e a ruim.”

- Impacto do cenário atual: efeito imediato (ruim) e de longo prazo (bastante positivo).

- A visão do executivo sobre a estratégia de carregar estoques

- A brecha para a reconsideração da Cide

Comandando uma carteira de clientes que corresponde a 70% da produção de álcool e açúcar do Centro-Sul, o diretor de agronegócios do Itaú BBA, Alexandre Figliolino, é uma das figuras mais respeitadas do setor. No mercado sucroalcooleiro, suas opiniões repercutem fortemente e ajudam na tomada de decisões de algumas das maiores empresas do ramo.

Em entrevista exclusiva ao portal NovaCana, o diretor analisou a conjuntura atual, tratando do rebaixamento do rating soberano brasileiro e seu impacto no setor sucroenergético, do endividamento dos grupos e sua relação com a taxa cambial, até perspectivas futuras para o preço do açúcar, etanol e a elevação da Cide.

Para Figliolino, levando em consideração que 11 instituições bancárias brasileiras foram rebaixadas na esteira do downgrade do rating soberano do Brasil, não restam dúvidas de que dificuldades adicionais ao crédito vão surgir para as usinas.

“Quase todas as empresas do setor sucroalcooleiro que emitiram papel no exterior se saíram muito mal”

Entre os afetados estão inclusive a holding Itaú-Unibanco, que controla o Itaú BBA, além de outros importantes financiadores do ramo canavieiro como BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Social), Bradesco, Banco do Brasil, Santander Brasil e Banco Safra.

“Como uma parte considerável da atividade do setor sucroalcooleiro se financia com alternativas de pagamento de exportação, a exemplo do ACC (Adiantamento sobre Contrato de Câmbio), o dinheiro vai ficar mais escasso e mais caro. E isso vem para agravar ainda mais uma situação que já não era boa”, avaliou.

Em sua leitura, outro impacto direto é na emissão de dívidas e bônus no exterior, que deverá ficar praticamente invibilizada. “Quase todas as empresas do setor [sucroalcooleiro] que emitiram papel no exterior se saíram muito mal. Algumas acabaram em recuperação judicial; outras estão em processo de reestruturação com os credores”, afirmou.

Um exemplo disso é a situação Tonon Bioenergia, cuja alavacagem atingiu tal ponto que a companhia se viu obrigada a efetuar um reescalonamento de dívidas para não entrar em situação de insolvência.

Mais dois fatores na área de crédito representaram empecilhos adicionais ao setor, na avaliação de Figliolino. O primeiro foi a limitação na principal linha do Prorenova, de até R$ 20 milhões com a TJLP (Taxa de Juros de Longo Prazo), e acima desse valor, em condições de mercado.

“Também do lado do crédito rural, houve uma limitação, uma vez que neste último plano safra foi feita uma preferência clara por cooperativas e micro e pequeno produtores. A alternativa que sobrou é tomar linhas comerciais mais caras e isso é evidentemente mais uma dificuldade para o setor”, disse.

O lado bom da mudança na taxa cambial

O especialista afirma que tanto as empresas monitoradas pelas agências de classificação de risco como as sucroalcooleiras de modo geral devem se beneficiar do novo patamar cambial. Embora este, por ora, funcione como uma faca de dois gumes.

“Esse nível de taxa de câmbio (entre R$ 3,5 e 3,9) tende a ser extremamente benéfico para o setor em médio e longo prazos, proporcionando um tremendo ganho de competitividade em relação aos concorrentes globais. Agora, o efeito imediato, principalmente para aquelas [companhias] que tem uma parcela maior de endividamento carregado em dólar, é um salto nas dívidas. Ao longo do tempo, pórem, isso vai acabar sendo compensado por uma receita de exportação maior”, avaliou.

“Dívida é que nem colesterol: há a boa e a ruim”

De acordo com Figliolino, o peso da variação cambial no endividamento das empresas de açúcar de álcool varia bastante, indo de um intervalo de zero de impacto a 75% no total dos empréstimos e financiamentos.

“Dívida é que nem colesterol: há a boa e a ruim. A boa é de juro barato e eventualmente com prazo longo. O melhor colestoral que tivemos no setor nesses últimos anos foi do BNDES, para financiar a aquisição de ativos fixos e o Prorenova (Programa de Apio à Renovação e Implantação de Novos Canaviais). Agora quem se financiou em prazo curto, com taxas que encareceram, seja em real, seja em dólar, vai enfrentar uma situação bem complicada”, afirmou.

O reflexo disso tem sido visto com uma frequência cada vez mais comum na divulgação de balanços de uma série de grupos, que estão atribuindo seus resultados financeiros negativos ao dólar elevado. No caso das dívidas, o salto pode ter atingido até 30%, conforme algumas previsões.

Confiança na melhora do açúcar

Embora os níveis de cotações do açúcar em Nova York não sejam nada brilhantes, na avaliação do executivo do Itaú BBA, a taxa de câmbio atual indica a possibilidade de selar contratos de exportação que oferecem rentabilidade total acima de R$ 1.200 por tonelada.

“Esse valor cobre o custo da maioria dos grupos e ainda gera um excedente de receita”, afirmou.

Comentando sobre a sinalização de redução de oferta que a cotação do açúcar dava ao mercado, à qual Figliolino se referiu em entrevista ao NovaCana em março, o executivo apontou que importantes produtores globais de açúcar estão no vermelho, o que deve levar à redução da produção.

“Eles enfrentam custos de produção muito acima das cotações. Já o Brasil, graças ao câmbio, conta com uma condição mais favorável. Esse cenário já está provocando redução na expectativa de plantio de cana-de-açúcar e do cultivo de beterraba no mundo”, disse.

Dessa forma, o executivo afirma que acredita numa tendência de alta dos preços de açúcar. “Depois de um período em que os astros estiveram totalmente desalinhados, essa combinação de um provável aumento do açúcar em Nova York, somada à sinalização de redução de produção, pode levar a um ensaio de recuperação do setor. Estamos contando com isso”, disse.

Os que continuaram perdendo

A melhora parcial leva Figliolino a prever que esta safra terá uma grande diferença de desempenho entre as usinas, a depender da estratégia adotada na venda do açúcar, etanol e cogeração.

Sua previsão se apoia na constatação de que há usinas que, além de endivididas em dólar, realizaram a comercialização em um patamar cambial abaixo de R$ 3. Em relação ao açúcar, várias empresas com dificuldade sofreram para escolher o melhor momento de fixação de preço e ainda anteciparam os contratos de exportação com o dólar em níveis bem menores do que os atuais, aponta.

“Num período como foi o do ano passado para cá, em que a cotação [de açúcar] só caiu, muitas não tinham disponibilidade nem oferta de linha de crédito para a fixação por meio de bancos, corretoras, ou tradings. Então foram forçadas a fixar a exportação muito perto da data de embarque, com preço baixo. Acrescentando a isso a antecipação com dólar ruim, vamos ter casos extremos de pé trocado. E às vezes isso não acontece por erro de estratégia, mas por absoluta falta de condição de mercado”, esclarece.

Etanol: “Carregar os estoques vai ser decisivo”

Em contraste, Figliolino é cético em relação a uma retomada da rentabilidade já nesta safra, especialmente em razão do baixo preço do etanol. De acordo com ele, o biocombustível está sendo vendido abaixo dos custos de produção por muitas empresas.

“Apesar da demanda forte, bem maior do que a observada em 2014, os preços [de etanol] estão num patamar muito baixo”, disse.

Para driblar o período de preços de etanol enxutos, a estratégia de algumas empresas tem sido carregar estoques, à espera de um aumento na entressafra, tática semelhante à que já havia sido adotada na temporada passada.

“Carregar os estoques nesta safra vai ser decisivo. Isso porque, mantido esse ritmo de consumo, o equilíbrio só vai ocorrer se os preços se elevarem. Não obstante o custo de carregar estoques ser muito elevado agora por causa da taxa de juros, o diferencial de preço deve mais que compensar esse carregamento. Mas só conseguirá fazer isso as empresas que têm fôlego financeiro, crédito e estrutura de tancagem, porque as outras vão ter de produzir e vender imediatamente, como já observamos. Infelizmente, quando as empresas entram em situação de aperto financeiro, tudo acaba jogando contra”, disse.

A brecha para Cide

Esperança que tem se mostrado mais distante a cada dia, um novo aumento da Cide (Contribuição sobre Intervenção de Domínio Econômico) para os combustíveis fósseis, favorecendo o etanol, seria uma oportunidade para o governo devolver ao setor tudo o que lhe foi retirado nos últimos anos, avalia o executivo do Itaú BBA.

“Com a Cide você mata dois coelhos numa paulada só: tem um impacto positivo do lado fiscal para o governo e ajuda a o setor a se recuperar”, afirma. A restrição do Planalto, que jogou um balde de água fria na animação em relação ao retorno da Cide, é a previsão de forte impacto na inflação.

Para Figliolino, o peso de uma importante componente da inflação atual, o preço da energia elétrica, deve se estabilizar agora após os consecutivos reajustes e com a volta das chuvas, o que pode abrir uma brecha para a reconsideração da Cide.

Felipe Vanini Bruning (in memoriam) – NovaCana

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