Começa a se firmar a percepção de que o setor sucroenergético está no início de uma retomada, alavancada pelas empresas que vêm cuidando bem das atividades agrícolas e industriais
Começa a se firmar a percepção de que o setor sucroenergético está no início de um processo de retomada, alavancado pelas empresas que vêm fazendo a lição de casa e cuidando bem das atividades agrícolas e industriais.
No entanto, fora deste grupo de usinas bem estruturadas estão muitas empresas com problemas estratégicos. A falta de cuidado com o campo, com as máquinas e com as dinâmicas do mercado podem levar quem já estava mal a situações ainda piores.
O desleixo na lida com o campo e a ânsia em processar a maior quantidade de cana possível traz consequências que as usinas nem sempre avaliam plenamente.
“O usineiro fala que tem de reduzir ociosidade da planta, moer, moer, moer. Mas não está olhando para a otimização dos processos e nem sob a ótica do dispêndio agrícola.”
A seguir:
- A falta de sinergia entre o campo e a indústria
- Expectativa inicial sobre o encerramento da próxima safra (2016/17)
- A estratégia de compra de suprimentos e a influência do preço do petróleo
Começa a se firmar a percepção de que o setor sucroenergético está no início de um processo de retomada, alavancado pelas empresas que vêm fazendo a lição de casa e cuidando bem das atividades agrícolas e industriais.
No entanto, fora deste grupo de usinas bem estruturadas estão muitas empresas com problemas estratégicos. A falta de cuidado com o campo, com as máquinas e com as dinâmicas do mercado podem levar quem já estava mal a situações ainda piores. Por um lado, é um cenário que aponta para o fim da atividade de algumas empresas. Por outro, estimula o retorno das fusões e aquisições.
Falta de sinergia
De qualquer maneira, a indústria canavieira nacional como um todo deve sentir os efeitos da movimentação intensa nos canaviais e da falta de manutenção nos equipamentos, gerada por esta safra mais longa.
A necessidade de continuar trabalhando na entressafra, como estão fazendo muitas usinas, deve trazer problemas para quem não desenvolveu planos de manutenção ao longo do ano, já que sobrará pouco tempo de máquinas paradas – no campo e na indústria – para realizar os reparos e checagens necessárias.
“A percepção que temos para o início da safra 2016/17 é que o custo industrial vai ter um crescimento superior ao da safra passada, porque as usinas estão fazendo manutenção de baixa qualidade no período de entressafra”, explica o economista e gestor de projetos do Pecege, Haroldo Torres. A falta de manutenção adequada ao longo da safra deve causar baixa disponibilidade mecânica, prejudicando a eficiência das fábricas.
No campo, as consequências serão graves. Segundo Torres, como muitas usinas trabalharam sem parar nos últimos meses, mesmo durante os períodos de muita chuva, deve haver alto índice de falhas nas plantações ocasionado pela falta de descanso dos campos e de manutenção nas máquinas, que levam a colheitas mal realizadas. “Alguns arrancaram quase a soqueira inteira”, diz, surpreso.
Responsável por uma das pesquisas mais abrangentes do setor, o Pecege, programa especializado em economia e gestão de empresas da Esalq/USP, em Piracicaba (SP), avalia números correspondentes a mais de um terço da moagem nacional, envolvendo mais da metade dos maiores grupos do País.
Dados do Pecege apontam que entre setembro e outubro já haverá unidades encerrando as atividades
Como tudo é um ciclo, essa colheita ruim reflete na indústria, que receberá mais impurezas minerais e vegetais, comprometendo ainda mais a qualidade do caldo e da extração, demonstrando a falta de sinergia agroindustrial. Quem não parou de colher já deve estar observando esse incremento.
O desleixo na lida com o campo e a ânsia em processar a maior quantidade de cana possível traz consequências que as usinas nem sempre avaliam plenamente.
“O usineiro fala que tem de reduzir ociosidade da planta, moer, moer, moer. Mas não está olhando para a otimização dos processos e nem sob a ótica do dispêndio agrícola”, critica o economista.
Ele aponta que, em um setor desesperado por recuperação, muitas empresas acabam não criando estratégias claras. Na análise do coordenador do Pecege, algumas das empresas que não pararam de processar cana o fizeram para honrar compromissos, causando os comprometimentos agrícolas e industriais mencionados.
Outro ponto que ele diz precisar de atenção é a compra de suprimentos. Como acompanham o preço do petróleo, é possível que sofram quedas acentuadas nos preços nos próximos meses. Ou seja: muita gente pode ter feito a decisão errada em adiantar a compra desses produtos. O Pecege realiza um acompanhamento constante dos preços dos produtos utilizados pelas usinas ao longo do ano.
Para piorar a situação, outros fatores também terão forte influência na quantidade de cana colhida por hectare: aumento do índice de falhas nos canaviais, redução das áreas de reforma e uma estiagem proveniente dos efeitos no El Niño. “Não digo direto nessa safra. Mas para a próxima vai haver comprometimento de produtividade”, alerta Torres.
A estiagem também deve influenciar o término da safra 2016/17 um pouco antes do normal. Os dados do Pecege apontam que entre setembro e outubro já haverá unidades encerrando as atividades.
Etanol X açúcar
Os dados preliminares apontam para uma tendência de melhoria da situação do setor. Torres explica que a melhora no preço do açúcar vai colocar algumas empresas em patamar melhor. Ainda assim, não deve ser o momento de passar para um mix muito mais açúcareiro, visto que a liquidez do etanol assegura geração de caixa rápido para as usinas.
Porém, em termos financeiros, deve ser uma safra de melhor geração de receita. Muitas empresas já têm a maior parte da safra comercializada com câmbio favorável. Isso deve fazer que mesmo com maior desembolso em relação às dívidas em dólar, o efeito seja mais fraco, iniciando um movimento de recuperação.
“Uma tendência que eu espero, não no curto, mas no médio prazo, é uma retomada dos processos de fusões e aquisições”, analisa. A visão é a mesma de outros analistas do setor, onde os grupos com bons desempenhos operacional e financeiro vão atrás de empresas em recuperação judicial ou passando por grave crise financeira.
Jorge Mariano – NovaCana