Um movimento começa a ganhar espaço no mercado internacional: a mudança no perfil de compra de alguns grandes importadores de açúcar brasileiro
Por Carlos Murilo Barros de Mello*
Os fundamentos da oferta continuem sendo o principal fator para a formação dos preços do açúcar, mas um movimento menos evidente começa a ganhar espaço no mercado internacional: a mudança no perfil de compra de alguns dos maiores importadores do produto brasileiro.
Embora o mercado siga atento ao clima na Índia, às perdas na produção europeia e ao ritmo da safra no Centro-Sul brasileiro, alterações nos padrões de importação de países como Indonésia, China e Emirados Árabes Unidos vêm ganhando relevância na redefinição dos fluxos globais de açúcar.
Apesar de o Brasil ter embarcado 12,3 milhões de toneladas entre janeiro e junho, volume apenas 500 mil toneladas inferior ao registrado no mesmo período de 2025, esse desempenho precisa ser analisado à luz da maior disponibilidade de açúcar nesta safra.
Com uma produção significativamente superior à do ano passado, esperava-se um avanço mais consistente das exportações. A diferença entre o crescimento da oferta e o ritmo dos embarques sugere uma demanda internacional mais lenta do que o esperado.
Oferta continua sustentando o mercado
Nas últimas semanas, os preços do açúcar foram influenciados principalmente pelo cenário macroeconômico e pelas tensões geopolíticas, especialmente no Oriente Médio. Ainda assim, os fundamentos seguem sendo determinantes para as perspectivas do mercado.
A Índia continua sendo o principal fator de alta para os preços. A previsão de um período de chuvas mais fraco em agosto e os baixos níveis dos reservatórios nos principais estados produtores mantêm o mercado atento à evolução das condições climáticas.
Apesar disso, o cenário-base da Hedgepoint ainda não considera a necessidade de importações indianas, já que as chuvas de julho foram satisfatórias e será necessário acompanhar o comportamento das precipitações nas próximas semanas.
Por sua vez, a Comissão Europeia reduziu sua estimativa de produção para 14,1 milhões de toneladas, uma queda de aproximadamente 15% em relação à safra passada. Ainda assim, a projeção permanece acima da estimativa da Hedgepoint para Europa e Reino Unido, de 13,8 milhões de toneladas.
No Brasil, a disponibilidade de cana permanece elevada. Apesar das chuvas terem provocado atrasos na moagem, as condições da lavoura continuam favoráveis e a produção segue robusta. A principal preocupação está na redução do açúcar total recuperável (ATR) e no mix açucareiro menor, fatores que podem limitar a produção de açúcar e reduzir as exportações ao longo da safra.
A demanda começa a mostrar novos sinais
Se, do lado da oferta, a produção brasileira segue em patamar elevado, a demanda apresenta dinâmicas distintas entre os principais mercados consumidores. Apesar dos sinais de desaceleração observados em algumas regiões, as exportações brasileiras de açúcar mantiveram um desempenho relativamente resiliente ao longo da safra.
Os embarques brasileiros seguem próximos da média histórica, demonstrando que nem as chuvas nem as tensões geopolíticas conseguiram comprometer significativamente o desempenho das exportações até o momento. Contudo, quando a análise é feita por destino, percebe-se que cada mercado está respondendo a fatores específicos.
Além dos fatores específicos de cada mercado, a demanda global também tem sido influenciada por mudanças estruturais no consumo. As tensões no Oriente Médio afetaram temporariamente o fluxo comercial para importantes compradores da região, por exemplo.
Já as tendências de longo prazo incluem a maior preocupação dos consumidores com saúde e alimentação e o avanço gradual de medicamentos para controle de peso (GLP-1), que começam a influenciar as perspectivas de consumo de açúcar. Embora ainda não existam estimativas consolidadas para mensurar esse impacto, trata-se de uma tendência acompanhada cada vez mais de perto pelo mercado.
A Indonésia, tradicionalmente um dos principais compradores de açúcar brasileiro, reduziu significativamente suas importações. O movimento está relacionado à diminuição das cotas de importação pelo governo, ao aumento da disponibilidade doméstica e ao crescimento mais moderado do consumo interno.
Enquanto isso, na China, a queda das compras ocorreu por outro motivo: a maior oferta doméstica reduziu a necessidade de importações neste momento. Além disso, as altas importações em 2025 pela janela favorável contribuiu para o incremento dos estoques.
Embora as tensões envolvendo EUA e Irã tenham aumentado a volatilidade dos mercados nas últimas semanas, seus efeitos sobre o fluxo de exportações de açúcar brasileiro foram limitados. Entre os principais importadores da região, apenas os Emirados Árabes Unidos registraram uma redução significativa nas compras em relação aos anos anteriores.
Vale notar que uma das maiores refinarias de açúcar é localizada em Dubai, a Al Khaleej Sugar. Assim, a dificuldade de importar açúcar bruto brasileiro para refino pode ter impacto na disponibilidade regional de açúcar branco, possivelmente contribuindo para seus altos prêmios.
Já o Irã também importou menos açúcar do Brasil, mas esse movimento faz parte de uma tendência observada há vários anos e, portanto, não pode ser atribuído exclusivamente ao atual cenário geopolítico.
O consumo doméstico também tem apresentado ritmo mais lento ao longo de 2026, reforçando a percepção de uma demanda mais moderada tanto no mercado interno quanto nas exportações. Esse ambiente contribui para reduzir a velocidade de escoamento da produção ao longo da safra.
Como consequência desse ritmo mais lento de comercialização, os estoques nas usinas tendem a permanecer mais elevados do que o esperado para esta época do ano. Esse aumento do volume armazenado gera custos financeiros adicionais em um ambiente de juros elevados e reduz a velocidade de geração de caixa das empresas.
O que observar daqui para frente
Na data em que escrevo este artigo, observo um dia de fortíssima alta, fechando com uma valorização do açúcar bruto em 5,9%, como pouquíssimas vezes visto na história do contrato de açúcar, e com o preço indo testar a resistência do contrato de outubro de 2027 a 16,62 centavos de dólar por libra-peso.
Pela força do movimento e pelo volume negociado no dia, acreditamos que possa ter ocorrido uma grande compra por parte de alguns fundos.
Há que se observar duas características interessantes nesta recente alta. A primeira que o Open Interest dos contratos aumentou, denotando compras novas e não apenas recompra de posições vendidas pelos fundos. E, segundo, que a alta de preço e volume foi notadamente forte em todos os contratos mensais, mostrando que talvez não tenham sido apenas fundos que efetuaram as compras.
Contudo, não percamos de vista que o trade flow mundial apresenta um superávit acumulado de 1,5 milhões de toneladas no período até o terceiro trimestre de 2027. E que, mesmo com o superávit, não vemos aceleração nas demandas internacional e doméstica, nem mesmo quando o açúcar estava a 15 centavos de dólar por libra-peso.
Depois de uma subida tão forte nos preços o açúcar passou a remunerar 20% acima do etanol e, portanto, podemos esperar uma mudança brusca no mix de produção brasileiro em direção da maximização da produção do adoçante.
Ou seja, se a demanda internacional já estava aquém da expectativa, depois deste desestímulo de preço ao consumo e deste estímulo de preço ao aumento da produção brasileira de açúcar, podemos esperar que a demanda se ressinta ainda mais, o que pode trazer implicações ainda mais potentes para o volume de açúcar a ser entregue na expiração de outubro de 2026 em Nova York.
* Carlos Murilo Barros de Mello é economista e chefe de açúcar nas Américas na Hedgepoint Global Markets
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