Por Pedro Côrtes*
O embarque de DDG – farelo concentrado do etanol de milho – para a China altera a equação financeira das usinas brasileiras. O movimento não é apenas comercial; é estrutural. Ao ganhar mercado externo e referência internacional de preço, o coproduto deixa de ser acessório industrial e passa a compor o núcleo da geração de caixa.
Até aqui, a receita das plantas de milho era predominantemente ancorada no etanol, altamente sensível ao preço da gasolina, à política tributária e ao consumo doméstico. O DDG, vendido majoritariamente no mercado interno, funcionava como complemento.
Com acesso ao maior polo global de proteína animal, a dinâmica muda: parte relevante do faturamento passa a ser dolarizada e atrelada ao ciclo global de ração.
Do ponto de vista operacional, o efeito aparece no Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização). O DDG carrega custo marginal relativamente baixo – o milho já foi adquirido e os custos fixos industriais estão diluídos no processo de fermentação. Quando exportado com prêmio externo, o coproduto amplia a margem operacional sem exigir capex proporcional.
A diversificação de receitas também reduz a volatilidade do fluxo de caixa. Em cenários de compressão do “crush spread” do etanol – diferença entre preço do combustível e custo do milho – a venda externa de proteína atua como amortecedor. Isso melhora a previsibilidade financeira e pode reduzir a percepção de risco por credores.
Na prática, o perfil de alavancagem tende a ficar mais confortável. Receita em dólar cria hedge natural contra oscilações cambiais e fortalece indicadores de cobertura de dívida. Para empresas com exposição a financiamento indexado, a estabilização do caixa pode influenciar o custo médio ponderado de capital (WACC), sobretudo se o mercado enxergar menor concentração de risco setorial.
Há implicações também para decisões de investimento. A consolidação de demanda externa recorrente eleva a atratividade de projetos de expansão e de otimização industrial. Parte do capex pode ser direcionada a melhorias na secagem, certificações sanitárias e logística de exportação – investimentos com retorno incremental sobre um produto que já nasce do processo principal.
No limite, o modelo de negócio deixa de ser monotemático. As usinas passam a operar como plataformas multiproduto, combinando energia e proteína sob uma mesma estrutura de custos. Essa integração suaviza ciclos e aumenta a eficiência de capital.
Se a China se consolidar como destino regular, o DDG pode assumir peso estrutural na receita bruta das plantas, reduzindo a dependência exclusiva da bomba de combustível e aproximando o setor de um perfil mais resiliente – e financeiramente sofisticado.
Mais do que um novo mercado, trata-se de uma mudança na arquitetura financeira do etanol de milho brasileiro.
* Pedro Côrtes é professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e especialista em clima e meio ambiente
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