NovaCana

Expectativa X realidade: o avanço das mudas pré-brotadas nos canaviais do Brasil

muda-pre-brotada-250216Já se passaram sete anos desde que a tecnologia de MPB ganhou notoriedade no setor sucroenergético. A promessa era que o sistema revolucionaria o modo de se plantar cana-de-açúcar no Brasil

NovaCana 6 min de leitura

Já se passaram sete anos desde que a tecnologia de mudas pré-brotadas (MPB) ganhou notoriedade no setor sucroenergético. A promessa era que o sistema revolucionaria o modo de se plantar cana-de-açúcar no Brasil.

Quando o Instituto Agronômico (IAC), em São Paulo, começou a divulgar mais intensamente a técnica, desenvolvida desde 2009, a expectativa era de que o novo método elevaria em até 40% a produtividade da cana-de-açúcar. A notícia foi considerada um alento para o agronegócio canavieiro em momento de crise.

No entanto, o tempo passou e os problemas no campo permaneceram. As empresas ainda precisam melhorar muito os resultados e a produtividade média dos canaviais apresentou queda nas últimas cinco safras.

Dois importantes centros de pesquisa com a cana no Brasil confirmam que, apesar do aumento da procura pelo método em anos mais recentes, as mudas pré-brotadas ainda têm participação pouco expressiva no modo de produção do campo.

A razão que restringe a progressão dessa tecnologia para escala comercial é a mesma que faz a técnica ser tão promissora. Veja os detalhes na reportagem abaixo.

Já se passaram sete anos desde que a tecnologia de mudas pré-brotadas (MPB) ganhou notoriedade no setor sucroenergético. A promessa era que o sistema revolucionaria o modo de se plantar cana-de-açúcar no Brasil.

Quando o Instituto Agronômico (IAC), em São Paulo, começou a divulgar mais intensamente a técnica, desenvolvida desde 2009, a expectativa era de que o novo método elevaria em até 40% a produtividade da cana-de-açúcar. A notícia foi considerada um alento para o agronegócio canavieiro em momento de crise.

No entanto, o tempo passou e os problemas no campo permaneceram. As empresas ainda precisam melhorar muito os resultados e a produtividade média dos canaviais tem apresentado queda desde 2009.

À despeito de todos benefícios, o avanço no campo da MPB não aconteceu na mesma intensidade com que suas benfeitorias foram alardeadas.

O IAC confirma, assim como Centro Tecnológico Canavieiro (CTC), que, apesar do aumento da procura pelo método em anos mais recentes, as mudas pré-brotadas ainda têm participação pouco expressiva no modo de produção do campo.

A razão que restringe a progressão dessa tecnologia para escala comercial é a mesma que faz a técnica ser tão promissora: o plantio de cana precisa ser repensado completamente.

A execução é complexa, mas a técnica em si é bastante simples, consiste em transformar a gema da cana-de-açúcar em planta, que substitui os colmos tradicionalmente usados. Mas, para encaixar esse método de multiplicação no campo, é preciso um novo sistema de produzir cana.

Antes, não se lidava com uma planta na hora do plantio. A partir do momento que isso ocorre, é preciso repensar todo o manejo da cultura. “Imagino a MPB como uma engrenagem dentro de um nova realidade de produção”, pontua o pesquisador do IAC, Mauro Alexandre Xavier.

Está embutido no sistema, ainda que acidentalmente, uma pressão para que o setor ataque os problemas do plantio desde a estrutura.

“Quando começo o jogo no ‘zero a zero’ e corrijo um problema na base do processo, imagine o que isso traz de possibilidades para as próximas etapas produção?”, indaga o pesquisador. Para ele, a contribuição da MPB vem nessa direção atualmente, considerando que técnica permite a rápida multiplicação de viveiros sadios, associando um alto padrão de fitossanidade e corrigindo problemas de falta de uniformidade no plantio, entre outros benefícios. Uma das mais conhecidas vantagens do sistema é a redução no consumo de mudas e o aumento de pés de cana que “vingam” no campo.

“Precisamos inserir uma série de outros manejos que permitam que esse ‘zero a zero’ no início signifique um ganho lá na frente. Não dá para acreditar que mudando apenas um elemento se obterá resultado. O ganho vem do conjunto de ações, não existe milagre”.

Xavier acrescenta que isso não significa que os manejos atuais não se apliquem ao método de plantios das mudas pré-brotadas, mas ainda existe uma necessidade de revisão nos mesmos. É essa possibilidade de mudança no processo inteiro que pode dificultar a adoção da técnica em escala comercial. “O sucesso da técnica depende do andamento do sistema inteiro para que de fato se traduza em ganho de produtividade”.

Questão financeira

O diretor de produção do CTC, Erich Stingel, acredita que dentro dessa visão integrada, onde um processo inteiro precisa ser revisitado, é necessário ponderar também o “momento de ajuste” pelo qual passa o setor dentro da realidade econômica do país. Para ele, se por um lado é preciso melhorar os números de produtividade, por outro, a implantação das mudas pré-brotadas no campo exige um investimento que não obterá resposta em um curto prazo.

Mas a visão do profissional ainda é otimista, devido ao aumento da procura de usinas pela técnica. Stingel afirma que, nos últimos três anos, as empresas têm registrado avanços. “O indicativo das empresas de mercado é que elas estão estudando bastante essas questões. Quando discutimos o tema, as companhias tem mostrado boas perspectivas”, defende.

Ele ainda acrescenta que, justamente, por já terem ciência dos principais pontos de melhoria para que a tecnologia avance com mais força para a escala comercial, “provavelmente as empresas devem estar projetando um mercado e já devem ter em desenvolvimento soluções, mesmo que estas ainda não estão disponíveis totalmente”.

Do que se tem histórico, alguns grupos já informaram o desenvolvimento de viveiros de mudas pré-brotadas, entre elas Raízen e São Martinho. Mais recentemente, o grupo Coruripe anunciou o estudo para viabilizar a tecnologia.

Apesar das boas perspectivas consideradas pelo gerente do CTC em relação às empresas que já investiram na tecnologia, não se sabe de fato o quanto efetivamente a técnica avançou no canavial.

As informações de quem já investiu são escassas e sugerem que as possibilidades para implantação deste novo conceito traz muitas dificuldades que elas não estão abertas a compartilhar.

Xavier conclui que “ainda há muita coisa para ser desenvolvida”. Toda a esperança depositada no sistema só será alcançada depois de se encontrar a forma adequada para extrair os ganhos que a técnica oferece. Algo que ainda não aconteceu.

Marina Gallucci – NovaCana

Compartilhar: