
Secretário de energia dos Estados Unidos, Chris Wright, discursa na edição de 2026 do evento CeraWeek
Na segunda-feira, 23, alguns dos principais executivos do setor petrolífero e ministros da energia do mundo expressaram, em Houston, crescente preocupação com os efeitos a longo prazo da guerra entre os Estados Unidos e Israel contra o Irã na economia global, enquanto o secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, minimizou a crise.
A guerra causou uma das maiores perturbações para o fornecimento de energia na história depois que o Irã efetivamente fechou a importante rota de navegação do Estreito de Ormuz, e os ataques no Oriente Médio causam danos a longo prazo à infraestrutura de produção em diversos países.
O petróleo Brent, referência global, ainda estava cotado a US$ 99 o barril na tarde de segunda-feira, mesmo após uma onda de vendas impulsionada pelas declarações do presidente Donald Trump de que estava em negociações com autoridades iranianas para pôr fim ao conflito.
“A consequência não se limita aos altos preços da energia. Isso prejudicará outras cadeias de suprimentos”, disse o presidente-executivo da TotalEnergies, Patrick Pouyanne, apontando também para as interrupções nos embarques de hélio do Oriente Médio. O hélio é essencial para semicondutores e suprimentos médicos.
Wright, falando na conferência anual CeraWeek em Houston, disse que os preços do petróleo ainda não subiram o suficiente para prejudicar a demanda. Os preços da gasolina dispararam mais de 30%, atingindo seu nível mais alto desde 2022, a quase US$ 4 por galão, desde o início do conflito. Mas Wright afirmou que os EUA não tiveram outra escolha a não ser entrar em guerra com o Irã.
“Este é um conflito que simplesmente não podíamos adiar”, disse Wright. Ele afirmou que o governo tomou medidas para acalmar os mercados de energia, incluindo liberações da reserva estratégica de petróleo e auxílio no direcionamento de barris para locais específicos na China.
Analistas do JP Morgan, no entanto, disseram na segunda-feira que as paralisações já “se traduziram rapidamente em escassez total de petróleo bruto e produtos refinados em toda a Ásia”.
Mais de 10 mil participantes de mais de 80 países se reuniram na conferência anual, a segunda vez nos últimos cinco anos que o evento ocorre em meio a uma grande crise energética global. O evento estava tão lotado que alguns participantes sequer conseguiram acessar os amplos salões de baile para assistir a palestras específicas.
O encontro de 2022 ocorreu poucas semanas após a invasão da Ucrânia pela Rússia, que também fez os preços do petróleo dispararem.
Pouco depois da fala de Wright, Sultan Al Jaber, presidente-executivo da ADNOC, a estatal petrolífera de Abu Dhabi, alertou que a alta nos preços do petróleo estava desacelerando o crescimento econômico globalmente.
“Isso está aumentando o custo de vida para aqueles que menos podem arcar com ele e desacelerando o crescimento econômico em todos os lugares. Das fábricas às fazendas, passando por famílias em todo o mundo, o custo humano está aumentando a cada dia”, disse Al Jaber.
Já o presidente e presidente-executivo da empresa de trading Vitol Americas, Ben Marshall, alertou que o mundo veria uma grave queda na demanda se o petróleo atingisse US$ 120 por barril. Os contratos futuros do Brent chegaram a subir brevemente para US$ 119 por barril no início de março.
A guerra praticamente fechou o Estreito de Ormuz, usado para o trânsito de um quinto do suprimento mundial de petróleo e gás, enquanto infraestruturas essenciais no Oriente Médio, incluindo a enorme usina de gás natural liquefeito da QatarEnergy, foram atingidas e levarão anos para serem reparadas.
Economistas começaram a prever uma piora da inflação como resultado das perturbações, com o BNP Paribas elevando sua previsão de inflação subjacente para 2026 de 2,9% para 3,2%.
“Levará tempo para sairmos dessa situação”, disse o presidente-executivo da Chevron, Mike Wirth, na segunda-feira, durante a conferência. Segundo ele, a escassez no mercado de energia devido ao fechamento do Estreito de Ormuz ainda não foi totalmente precificada nos contratos futuros de petróleo.
O esforço dos membros da Agência Internacional de Energia para liberar um recorde de 400 milhões de barris de reservas estratégicas não foi suficiente para acalmar os mercados, disse o vice-ministro de Assuntos Internacionais do Japão, Takehiko Matsuo.
O Japão, que depende de importações, contribuiu com cerca de 80 milhões de barris de petróleo para essa liberação, ficando em segundo lugar, atrás dos Estados Unidos, com 172 milhões de barris.
Sheila Dang e Stephanie Kelly