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Evolução do etanol passa pela indústria baseada na biomassa

usina-futuro-171013Especialista afirma que o setor precisa captar dinâmica de inovação para diversificar produtos e atuar em novo modelo de negócios
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Seminário UFRJ José Vitor Bomtempo Martins
O cenário mudou e a indústria dos biocombustíveis precisa mudar. A mensagem do pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) José Vitor Bomtempo Martins é inequívoca. Ele defende a existência de um ambiente de transformação no setor de etanol, no qual as respostas convencionais não atendem mais às demandas. Isso significa que os aumentos de produtividade, como uma resposta à perda de competitividade do etanol frente à gasolina, por exemplo, é uma medida insuficiente.

Veja a seguir:
- As quatro variáveis fundamentais deste novo modelo para o setor
- As incertezas sobre matéria-prima e tecnologia de conversão
- As novas possibilidades de produtos e modelos de negócios

O cenário mudou e a indústria dos biocombustíveis precisa mudar. A mensagem do pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) José Vitor Bomtempo é inequívoca. Ele defende a existência de um ambiente de transformação no setor de etanol, no qual as respostas convencionais não atendem mais às demandas. Isso significa que os aumentos de produtividade, como uma resposta à perda de competitividade do etanol frente à gasolina, por exemplo, é uma medida insuficiente.

Para Bomtempo, a resposta aos desafios está na transição da indústria de biocombustíveis para um novo modelo de negócios, baseado no aproveitamento da biomassa e na diversificação de seus produtos. A essa nova forma de atuação, o pesquisador chama de indústria baseada em biomassa, equivalente a biobased economy ou biobased industry no inglês.

O tema foi debatido na semana passada durante o Seminário GEE - Desafios da Energia no Brasil, evento promovido pelo Grupo de Economia da Energia (GEE) da UFRJ, ao qual Bomtempo é pesquisador associado.

Entretanto, a indústria baseada em biomassa ainda não está formatada e não possui modelos seguros e prontos. "A ideia central é que esta é uma indústria em processo de estruturação, onde tem diversidade de soluções colocadas que tentam resolver os problemas e se valer das oportunidades oferecidas, mas que ainda se colocam como um processo em construção", explica.

Para se mover nesse terreno, Bomtempo aponta quatro variáveis fundamentais: matérias-primas, tecnologias de conversão da biomassa, produtos e estratégias de negócios. "Esses quatro elementos estão se movendo em diversas direções e o casamento entre eles vai conformando a indústria".

As incertezas sobre matéria-prima e tecnologia de conversão

Como a matéria-prima dessa nova indústria é a biomassa e não os açúcares do caldo, a cana, para esse negócio, poderá ter características diferentes das atuais. Conforme o pesquisador, ao invés de perguntar qual o futuro da cana, a questão seria desvendar qual a cana do futuro. Isso porque o açúcar do caldo seria substituído pelos açúcares celulósicos, portanto as variedades do campo também podem passar por uma transição.

Outro ponto é agregar e adaptar conhecimento para trabalhar com essa matéria-prima de um jeito ainda inexplorado. A transformação da biomassa passa pela engenharia química, uma área pouco acostumada a lidar com matérias-primas verdes. "Toda a base de conhecimento e todos os conceitos da engenharia química vieram do petróleo, e raramente se trabalhou com matéria-prima como um pé de cana-de-açúcar com caldo, bagaço e palha", exemplifica.

Já as tecnologias de conversão – que transformam o açúcar ou a biomassa, dependendo do processo a ser usado, em produtos de interesse – são outra questão em aberto. Há muitas alternativas e não existe uma opção vencedora por enquanto. "Embora em determinados momentos pareça que algumas alternativas estão perdendo espaço e outras ganhando, você vai encontrar centenas de empresas apostando em maior ou menor grau nessas diversas opções", avalia.

As novas possibilidades de produtos e modelos de negócios

"Chamei o etanol de um substituto imperfeito, afinal de contas, cumpre o objetivo de encher o tanque e o carro rodar, mas tem um conteúdo energético inferior, tem problemas de distribuição, de adaptação dos equipamentos", afirma Bomtempo. Na indústria baseada em biomassa os produtos possíveis se multiplicam e os novos biocombustíveis têm possibilidades de superar as desvantagens que existem hoje em relação aos derivados de petróleo.

O pesquisador explica que houve uma evolução dos produtos drop-in, que podem ser utilizados na estrutura e equipamentos de distribuição já existentes. Ao lado disso, há produtos como o farneseno, uma molécula capaz de ser processada de forma a virar desde combustível até químicos para cosméticos. São substâncias assim que "se candidatam a ser plataforma de árvores de aplicação de novos produtos, não fazendo a distinção entre biocombustíveis e bioprodutos". Esta é a tese do pesquisador da UFRJ: a indústria de biocombustíveis e a de bioprodutos será uma coisa só.  "As interfaces são extremamente importantes e, provavelmente, muita gente hoje acha que vai conseguir melhores resultados pensando em produtos que não sejam biocombustíveis, em um primeiro momento".

Portanto, Bomtempo defende um tratamento no mesmo sentido da convergência de atuação da indústria, no caso das políticas públicas, por exemplo. "Incomoda muito que os biocombustíveis ainda sejam frequentemente tratados diferente dos demais produtos". Acompanhando a palestra estava o gerente setorial do Departamento de Biocombustíveis do BNDES, Artur Yabe Milanez, que ouviu o pedido por políticas de financiamento e apoio que também considerem esse perfil de sinergias.

Agenda de inovação e a internacionalização original

Como um campo novo, Bomtempo explica que é necessário convergir conhecimentos de segmentos diferentes, já que inexiste um setor com todas as competências necessárias a essa indústria. Por isso, boas parcerias são importantes para o êxito dos empreendimentos. "Saber namorar e casar bem sempre foi uma condição importante, dado o ambiente de complementaridade entre as tecnologias, produtos e saberes de diversas empresas", recomenda. "Juntando-se às matérias-primas, tecnologias e produtos, há a dimensão dos negócios e a extraordinária biodiversidade de empresas tentando estruturar estes espaços", completa.

Conforme Bomtempo, as demandas relacionadas a áreas diversas fomentam um processo de internacionalização que já está acontecendo e faz parte da estruturação dessa indústria. Uma agenda de inovação aparece como um fator importante para sustentar o desenvolvimento e consolidar o Brasil, país com a melhor condição de matéria-prima competitiva, como um dos líderes desse processo. "Temos o direito, a razão e a obrigação de sermos extremamente ambiciosos na posição que essa indústria deve ter daqui 20 ou 30 anos".

O pesquisador admite que ainda é preciso transformar "vantagens comparativas", oferecidas pelas indústria baseada em biomassa, em "vantagens competitivas". Isso deve acontecer à medida que agentes entrarem no jogo e participarem do processo de inovação. "A síntese sugere que empresas, governo e agências devem compreender esse jogo e fazer uma agenda cujo foco seja inovação", conclui.

Amanda SchArr – NovaCana
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