O esforço do presidente Donald Trump para ampliar a produção de biodiesel e cumprir promessas feitas a agricultores e comunidades rurais está esbarrando na realidade do mercado: as usinas americanas não estão conseguindo acompanhar as metas estabelecidas pelo governo.
A diferença entre as metas e a produção efetiva traz riscos políticos e econômicos. Uma escassez prolongada pode elevar fortemente os preços dos créditos de combustíveis renováveis e obrigar o governo Trump a recorrer a um dispositivo raramente utilizado, que permite reduzir as metas previamente definidas para adequá-las às condições do mercado.
Uma eventual revisão das metas representaria um recuo incomum e poderia desagradar agricultores e produtores de biocombustíveis, que pressionaram por cotas maiores e formam uma importante base política do presidente às vésperas das eleições legislativas de meio de mandato.
Parte da produção também já está comprometida com contratos de exportação, onde os preços têm sido mais atrativos devido às interrupções na oferta provocadas pela guerra no Irã. Esses volumes, porém, não geram créditos para o cumprimento das metas estabelecidas pela Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA).
As refinarias geraram 736 milhões de créditos renováveis (RINs) em maio, segundo dados da EPA, bem abaixo dos cerca de 915 milhões necessários por mês para manter o ritmo exigido pelas metas, afirmou o economista agrícola da University of Illinois, Scott Irwin.
Segundo as estimativas de Irwin, a produção nos quatro primeiros meses de 2026 ficou 1,41 bilhão de RINs abaixo do necessário. Para compensar esse déficit, a produção teria de superar em mais de 20% o maior volume mensal já registrado pelo setor durante o restante do ano.
“As metas, na prática, exigem que as usinas de biodiesel operem em seu maior ritmo sustentado da história e que as plantas de diesel renovável produzam muito acima de qualquer nível que já tenham alcançado”, afirmou Irwin.
“Não há como o setor cumprir as metas no ritmo em que está”, afirmou o diretor de energia da Capstone, Paul Niznik. A empresa de Washington assessora refinarias, distribuidoras de combustíveis e fundos de investimento. “O déficit tem gerado grande preocupação em todo o setor, principalmente sobre qual será a reação do governo”, disse.
Segundo ele, os agentes do mercado não esperam que a EPA intervenha, apesar de a agência ter autoridade para conceder uma flexibilização das metas. Em vez disso, o governo poderia adotar medidas como reduzir as obrigações previstas para 2028, alterando a forma como os volumes importados são contabilizados para o cumprimento das exigências.
A produção ficou represada por meses enquanto fabricantes de biodiesel e diesel renovável aguardavam que o governo Trump concluísse as regras para o crédito tributário federal 45Z, destinado à produção de combustíveis limpos.
As diretrizes, divulgadas nas últimas semanas, eliminaram algumas restrições relacionadas ao uso da terra e ampliaram os incentivos ao diesel renovável produzido com soja – mudanças reivindicadas pelo setor havia cerca de um ano.
Segundo o gerente-geral da produtora de biodiesel Minnesota Soybean Processors, Jeramie Weller, as novas regras trazem mais segurança para ampliar a produção e firmar contratos de fornecimento de matéria-prima com agricultores. Ainda assim, ele afirma que não está claro se as medidas chegaram a tempo de compensar as perdas de produção acumuladas anteriormente.
A disparada dos preços do petróleo, provocada pelo conflito com o Irã, também reduziu o ritmo de crescimento da produção de biodiesel. As interrupções na oferta elevaram a rentabilidade dos combustíveis fósseis, incentivando as refinarias a maximizar a produção de derivados de petróleo em vez de expandir a oferta de combustíveis renováveis.
A produção abaixo do esperado também está reduzindo uma reserva que historicamente ajudava o mercado a absorver déficits temporários.
O chamado “banco de RINs” – estoque de créditos não utilizados que as refinarias podem usar para cumprir as metas – vem sendo reduzido ao longo deste ano, à medida que a produção fica abaixo do necessário enquanto a demanda permanece elevada.
Se essa tendência continuar, analistas alertam que essa reserva poderá se esgotar até o fim de 2026, pressionando ainda mais os preços dos créditos.
Os preços dos RINs já atingiram níveis recordes, elevando os custos de conformidade para refinarias menores, que dependem da compra desses créditos em vez de misturar combustíveis renováveis por conta própria.
A perspectiva de um mercado mais apertado intensificou a pressão de lobby em Washington. A American Fuel and Petrochemical Manufacturers (AFPM), principal associação das refinarias americanas, vem se reunindo com parlamentares no Congresso para pressionar o governo a rever as metas de biocombustíveis para 2026. A entidade também entrou com uma ação judicial contra a EPA.
“Os americanos pagarão bilhões de dólares a mais do que deveriam se o programa de combustíveis renováveis não for redimensionado”, afirmou a AFPM em materiais distribuídos a parlamentares, argumentando que o alto custo dos créditos acaba elevando os preços dos combustíveis para os consumidores.
Em resposta por e-mail, a EPA afirmou que avalia o cumprimento das metas considerando o ano inteiro e leva em conta as oscilações normais entre os meses, incluindo o uso dos créditos já existentes para cobrir déficits temporários.
Para o analista Brett Gibbs, da Bloomberg Intelligence, a EPA pode ter subestimado tanto o volume de exportações de biodiesel e diesel renovável quanto as dificuldades de importar matérias-primas no curto prazo devido ao conflito com o Irã.
“A EPA pode muito bem ter um problema nas mãos até as eleições de meio de mandato. E certamente entrando em 2027”, afirmou Gibbs.