O último dia do Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, acontece nesta sexta-feira, 20. O governo brasileiro foi representado pelos ministros da Economia, Fernando Haddad, e do Meio Ambiente, Marina Silva. Ambos tocaram em um assunto caro ao novo governo: a volta do Brasil à agenda internacional. A ministra também esteve com Greta Thunberg, ativista ambiental sueca.
A ministra do Meio Ambiente chegou, inclusive, a falar sobre metas ambiciosas voltadas ao clima e à proteção à biodiversidade, enquanto Haddad contou sobre os planos de reindustrialização com base na transição ambiental. Na segunda-feira, 16, o ministro chegou a afirmar que o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) quer financiar os projetos de energia renovável no Brasil.
Porém, em meio à energia solar, eólica e hidrogênio verde, o velho e bom etanol parece ter sido esquecido. E isso não aconteceu neste governo. Desde Temer, o assunto do etanol vem sendo deixado de lado, segundo um professor da USP. “Nós já temos toda a cadeia pronta: produção, distribuição, comercialização e boa parte da frota adaptada, preparada para o uso do etanol”, lembra Pedro Luiz Côrtes, titular da Escola de Comunicações e Artes (ECA) e do Instituto de Energia e Ambiente (IEE).
Para ele, essa discussão vem em bom momento, já que nos últimos anos – diga-se de passagem, nos últimos dois governos, Temer e Bolsonaro – a cotação do petróleo sofreu com a volatilidade do mercado internacional, que afeta diretamente o preço dos combustíveis no Brasil. A desoneração dos tributos federais sobre combustíveis, medida tomada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, foi renovada pelo novo governo. A gasolina e o etanol terão essa redução até dia 28 de fevereiro.
Côrtes lembra que o etanol, diferentemente da gasolina, não sofre com questões geopolíticas que afetam a cotação do petróleo, como aconteceu nas crises da década de 1970. Ele pode sofrer com mudanças no preço do açúcar, mas não é utilizado como ferramenta política e não sofre com questões como a guerra na Ucrânia. Por isso, seria uma alternativa muito boa, mas que não é considerada.
Haddad já anunciou que pensa voltar com os impostos federais sobre a gasolina, etanol, querosene de aviação e gás natural veicular. Essa medida serviria para aumentar a arrecadação dos Estados, mas a decisão cabe a Lula, diz o ministro. Uma solução seria “voltar os preços da gasolina e manter a desoneração do etanol, ou pelo menos parcialmente, como uma forma de incentivar o uso desse combustível”, diz Côrtes.
Segundo o professor, a desoneração pode mexer com a inflação e com certeza causará um dissabor junto à população. Outro ponto discutido é a alteração do preço diretamente na Petrobras, que vende o petróleo para fora e importa.
“Se ela [Petrobras] resolver praticar preços menores, isso poderia causar uma distorção muito grande no mercado, porque hoje ela já não consegue abastecer 100% do mercado nacional. Ela abastece cerca de 70% do mercado, então os importadores privados, que vão suprir cerca de 30% do restante, poderiam ter o seu negócio inviabilizado e simplesmente parar de importar”, explica ele.
Assim, o professor acredita que o governo provavelmente não mexerá nessa tabela de preços.