Etanol: Mercado: Futuro

Etanol: Mercado: Futuro

Etanol, o retorno


Globo Rural - Publicado: 05 Mar 2013 - 07:59
É consenso no segmento sucroalcooleiro que as recentes medidas adotadas pelo governo federal – que incluíram o aumento do preço da gasolina em 6,6% na refinaria e a ampliação da mistura de etanol anidro na gasolina, de 20% para 25%, a partir do mês de maio – vão estimular o aumento de produção de cana na safra 2013/2014, que começa em abril. Mas, apesar de benéficas, as medidas não resolvem os problemas do setor, que só terá seu prestígio restabelecido com a adoção de uma política de longo prazo.

As medidas vieram em boa hora, principalmente porque os preços do açúcar, que atingiram alta recorde nos últimos dois anos, começaram a cair. Elas vão, sem dúvida, estimular a próxima safra, mas não são suficientes para a retomada de investimentos pesados no setor", avalia Rafael Barbosa, analista do departamento de pesquisa e análise do Rabobank Brasil.

Representantes dessa cadeia entendem que, além de desonerar a produção e a comercialização de etanol por meio da redução ou isenção de impostos como o PIS/Cofins, é necessário também definir qual deve ser, no longo prazo, a participação do etanol na matriz energética brasileira, que já foi de 50%, mas atualmente se situa em 30%.
Gráfico: Produção de etanol no Brasil por safra

Enquanto o governo estuda um novo pacote de estímulo ao setor, usinas programam o aumento da produção do biocombustível e, de acordo com estudo do Rabobank, a participação do etanol no mix de produção deve crescer dos 51% registrados na safra passada para 54% na safra 2013/2014. "A mistura de 25% de anidro na gasolina vai gerar uma demanda de 1,3 bilhão de litros este ano", diz Barbosa.

O presidente da Petrobras Biocombustíveis, Miguel Rosseto, está otimista em relação ao cenário para o etanol. "O novo percentual de mistura vai ampliar o mercado para o produto", diz. Além disso, de acordo com ele, o aumento no preço da gasolina cria um espaço importante para a recuperação da margem do setor sucroalcooleiro, uma vez que melhora preço e volume. "É um ano favorável ao investimento", afirma.

A produção de etanol na safra 2013/2014 deve aumentar em cerca de 4 bilhões de litros

A Petrobras Biocombustíveis – com as coligadas Guarani, Nova Fronteira e Total – pretende moer 25,6 milhões de toneladas de cana-de-açúcar na safra 2013/2014, volume 18% maior que o registrado na safra passada. Já a produção de etanol deve crescer 29%, para 1,06 bilhão de litros.

As boas perspectivas para o mercado de etanol em 2013 devem ajudar não só a Petrobras Biocombustíveis a reverter o prejuízo de R$ 218 milhões que amargou no ano passado, mas também ajudará o governo federal a frear a inflação no mercado interno, uma vez que a demanda pela gasolina – item de grande peso na composição do índice inflacionário – deve ser menor. As novas medidas beneficiarão uma cadeia produtiva formada por 450 usinas e 80 mil fornecedores de cana.

Na avaliação do presidente do Centro Nacional das Indústrias do Setor Sucroenergético e Biocombustíveis (Ceise), Antonio Eduardo Tonielo Filho, o etanol é a solução para o Brasil. "Há muito tempo alertamos o poder público para a necessidade de unir forças, no sentido de ampliar as políticas de incentivo. Com o aumento da mistura, a tendência é melhorar o cenário para um setor que há dois vem amargando prejuízos", afirma.

A perspectiva no campo é de que a produção de cana-de-açúcar no centro-sul do Brasil cresça 62 milhões de toneladas na safra 2013/2014, podendo superar 580 milhões de toneladas. A produção de etanol deve somar 25,3 bilhões de litros. Na safra passada, segundo levantamento da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), a produção de etanol somou 21,3 bilhões de litros, dos quais 8,8 bilhões foram de anidro – que é adicionado à gasolina.

VENDAS EXTERNAS
A despeito da produção maior, os preços permanecerão em alta, devendo se situar em R$ 1,27 por litro pago na usina, segundo estimativa do Rabobank. Os preços serão sustentados tanto pela demanda interna como pelas vendas externas, principalmente para os Estados Unidos, que serão crescentes por conta da menor produção de milho naquele país.

Outro fator que pode favorecer as vendas brasileiras para os EUA é a proposta da Agência de Proteção Ambiental americana (EPA, na sigla em inglês) de ampliar o uso de combustíveis avançados no país, de 7,6 bilhões de litros para 10,4 bilhões de litros este ano.

Para a EPA, o etanol de cana-de-açúcar é um biocombustível avançado, porque contribui de forma significativa para a redução das emissões de gases causadores do efeito estufa. Já o etanol de milho não é considerado avançado pela EPA. Com isso, a agência americana comprou uma briga feia com o poderoso lobby do etanol de milho dos EUA, formado por 211 refinarias e milhares de agricultores do Meio-Oeste.

A proposta da EPA surge num momento de crise do etanol de milho, que produz 56 bilhões de litros por ano e está com 14% de capacidade ociosa.

A indústria brasileira do etanol também considera positivo o discurso do presidente Barack Obama no Congresso americano em fevereiro passado, que marca a retomada da agenda verde do governo.

"Se o Congresso não agir logo para proteger as futuras gerações, eu agirei. Vou direcionar meu gabinete para apresentar ações executivas que possam ser tomadas, agora e no futuro, para reduzir a poluição, preparar nossa comunidade para as consequências das mudanças climáticas e acelerar a transição para fontes de energia mais sustentáveis", avisou Obama.

Luciana Franco