A safra 2026/27 do setor sucroenergético brasileiro começa com um rearranjo importante no mix de produção.
A partir de uma moagem de cerca de 615 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, segundo projeções da empresa de consultoria Safras & Mercado, a expectativa é de uma produção de aproximadamente 40 milhões de toneladas de açúcar, 20 bilhões de litros de etanol hidratado e 14 bilhões de litros de etanol anidro.
Este ano, ao contrário de ciclos recentes, o grande protagonista da safra será o etanol. Tradicionalmente, o açúcar costuma apresentar margens mais elevadas e reforçar o caixa das usinas. Contudo, em 2026, a remuneração do etanol hidratado está 30% acima do açúcar, segundo cálculos de arbitragem em relação aos contratos negociados na Bolsa de Nova York.
“Trata-se de um diferencial incomum, pois nos últimos anos, quando o hidratado superou o açúcar, o prêmio oscilou entre 10% e 15%, raramente ultrapassando 20%”, avalia o analista da Safras & Mercado, Mauricio Muruci.
Essa distorção favorável ao biocombustível reorienta decisões nas usinas. A tendência é de priorização do etanol, tanto hidratado quanto anidro.
No caso do anidro, a elevação da mistura obrigatória na gasolina de 27% para 30% (E30), implementada em agosto de 2025, ampliou as projeções de demanda. A estimativa atual da Safras & Mercado aponta para um acréscimo de 1,85 bilhão de litros em 12 meses, volume maior que os 1,65 bilhão previstos inicialmente.
Apesar do atual cenário no mercado internacional de açúcar, com cotações abaixo de 14 centavos de dólar por libra-peso em Nova York, as usinas brasileiras permanecem protegidas. Isso porque no quarto trimestre de 2025, muitas travaram preços ao redor de 19 centavos por libra-peso por meio de operações de hedge.
Essa estratégia vem garantindo uma remuneração superior à do mercado à vista em 2026 e viabiliza exportações, estimadas entre 32 e 33 milhões de toneladas. Sem essa fixação as usinas estariam operando abaixo do custo de produção, estimado entre 13,5 e 13,8 centavos de dólar por libra-peso.
Os contratos já fixados garantem a rentabilidade ao setor e também a manutenção de parte relevante da produção de açúcar. O mix projetado para a safra deve ficar em torno de 47% para o açúcar e 53% para o etanol. “Não fossem as operações de hedge, a participação do açúcar poderia cair para abaixo de 45%”, avalia Muruci.
O prêmio histórico do etanol hidratado é resultado da combinação de alguns fundamentos, como uma entressafra com estoques cerca de 30% menores que no mesmo período do ano anterior e preços acima das médias históricas.
No principal polo de referência do Centro-Sul, em Paulínia (SP), as cotações do hidratado iniciaram fevereiro ao redor de R$ 3,80 por litro e recuaram para a faixa de R$ 3,45 a R$ 3,50 por litro. Ainda assim, permanecem acima da média dos últimos cinco anos, corrigida pela inflação. O custo de produção estimado entre R$ 2,80 e R$ 2,90 por litro garante margens confortáveis às usinas.
De outro lado, o açúcar enfrenta um ciclo de baixa. O mercado internacional convive com superávit persistente próximo de 11 milhões de toneladas, cenário que vem pressionando os preços desde o ano passado. A tendência baixista tem evitado que, mesmo em plena entressafra no Centro-Sul, o preço do açúcar cristal reaja.
Nos últimos meses, a alta do etanol vem reduzindo a competitividade do biocombustível frente à gasolina. Desde o fim de dezembro, em nenhum estado brasileiro o etanol é competitivo.
Esse quadro, no entanto, é considerado sazonal. “Com o início da nova safra e o aumento da oferta, a tendência é de que os preços sejam ajustados promovendo o restabelecimento da competitividade e o estímulo à demanda na bomba”, explica o analista.
Para 2026, a projeção da consultoria é de um consumo total de 14 bilhões de litros de etanol anidro – volume maior que o padrão histórico, de 12,5 a 13 bilhões de litros –, e de entre 19 e 21 bilhões de litros de hidratado, também acima das médias anteriores, de 18 a 19 bilhões de litros.
Já o açúcar deve manter a trajetória de queda no mercado interno. Segundo os números apresentados, a média de consumo nos últimos dez anos, de 14 milhões de toneladas anuais, caiu para 10 milhões nos últimos cinco anos, e a estimativa para 2026, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, sigla em inglês) é de 9,5 milhões de toneladas.
“A retração de longo prazo ajuda a explicar a fraqueza dos preços do açúcar cristal”, explica Muruci.
No entanto, o açúcar VHP, voltado à indústria e à exportação, apresenta dinâmica distinta, sustentado pela demanda industrial mais ampla e menos sensível ao consumo direto das famílias.
O ano de 2026 tende a ser desafiador para as usinas, especialmente para aquelas que não estão protegidas por hedge.
Esse cenário deve reduzir a fixação antecipada para 2027, reprimindo a oferta futura. A expectativa da consultoria é de que o superávit global encolha para algo entre 6 e 8 milhões de toneladas, abrindo espaço para reação dos preços internacionais para a faixa de 16 a 18 centavos de dólar por libra-peso ao longo de 2027.
Sinais dessa recuperação podem surgir já no quarto trimestre deste ano. “Neste contexto, o etanol deve funcionar como âncora de rentabilidade do setor”, avalia Muruci.
Com crescimento econômico projetado acima de 2,5%, segundo o Banco Central do Brasil, a venda de combustíveis tende a acompanhar o PIB, reforçando a demanda pelo anidro misturado à gasolina.
Luciana Franco